Introdução ao Estudo da Defesa- Aula 2

Educação

A ideia do que é educação no imaginário popular, assim como no desenho acima, é de ir para um local tirar boas notas, depois ir para outro local tirar boas notas, sem que haja muito debate ou pensamento crítico. Este tipo de ensino, padronizado, de ensino fundamental, ensino médio e graduação, segue o modelo de escola Franco-Prussiano-Britânico.

O modelo Franco-Prussiano-Britânico tem sua origem no governo de Napoleão Bonaparte, após a Revolução Francesa que construiu a noção de que todo cidadão possuía direitos. A escola era o lugar onde era criada a motivação nacional, de pertencimento a pátria. O acesso a educação era algo garantido as elites muito antes da Revolução Francesa, e mesmo após a mesma, ainda demoraria a ser universalizada.

Após a segunda revolução industrial, no século XIX, mais países aderiram a industrialização, oque levou a uma maior urbanização que teve por consequência o aumento da massa urbana nas cidades e de revoluções liberais. A educação surge então não como um projeto de emancipação do indivíduo, mas como um projeto de Estado, que visava servir a Nação. Um dos melhores exemplos disto é a Prússia, Estado fortemente militarizado que adotou um sistema militar em suas escolas, criando uma ideia de pertencimento nacional através da moeda, da língua, da História e do Hino Nacional, que visava criar potenciais soldados para o exército e trabalhadores para a indústria.

Segundo Nuccio Ordine, em seu livro ''A Utilidade do Inútil'': ''O saber apresenta-se por si mesmo como um obstáculo ao delírio da onipotência do dinheiro e do utilitarismo. É bem verdade que tudo se pode comprar. De parlamentares a juízes, do poder ao sucesso, tudo tem seu preço. Mas não o conhecimento: o preço a ser pago para se conhecer é de outra natureza. Nem mesmo a assinatura em um cheque em branco poderá nos dar a permissão de adquirir mecanicamente aquilo que é fruto exclusivo de um esforço individual. Especialmente nos momentos de crise econômica, quando as tentações do utilitarismo e do egoísmo mais sinistro parecem ser a única tábua de salvação, é preciso compreender que exatamente aquelas atividades que não servem para nada são as que podem nos ajudar a escapar da prisão, a salvar-nos da asfixia, a transformar uma vida superficial, uma não vida, em uma vida fluida e dinâmica, em uma vida orientada pela curiosidade em relação ao espírito e às coisas humanas.''

Ser de humanas é então, um privilégio, graças a diversos fatores como a bagagem de erudição, as reflexos filosóficas, rede de afetos que se perpetuam por toda a vida, múltiplas possibilidades de carreira e desenvolvimento de soft e hard skills.



A universidade não é o lugar para encontrar a chancela intelectual para o seu pensamento cristalizado, como se fosse um espelho que reflete a sua bela imagem, enquanto você contempla a si e a suas ideias apaixonadamente. A universidade é o lugar da emancipação intelectual crítica. Sócrates, quando estava prestes a morrer condenado, não parou de aprender e tentou tocar harpa. Muitos se questionaram do porquê dele fazer isto. Sua razão era o gosto e o desejo de aprender aquilo que ele não tem domínio e não apenas ficar admirando suas ideias e se afogando nelas como Narciso fez.

Ciência
Filosofia da Ciência
A ciência no meio acadêmico, diferente de como Carlinho faz na sketch acima, não é feita de forma exclusiva, há uma série de fases dentro de uma determinada pesquisa leva a uma teoria ou concepção. As fase são: Ontologia, Metodologia e a Epistemologia.

1. Ontologia
Ontologia significa estudo do ente, ou seja, na seleção de dados. Cada especialista privilegia uma parte da realidade, um técnico de informática prioriza equipamentos eletrônicos, um engenheiro civil prioriza uma construção, um ambientalista prioriza o meio ambiente, etc. Toda teoria é limitada ao escopo que ela irá analisar, sendo parcial por focar em uma parte.

2. Metodologia
Este é o conhecimento sistematizado. É o caminho utilizado para chegar a uma conclusão. Existem diferentes métodos que podem ser utilizados em uma abordagem científica dependendo de qual área irá ser analisada, podendo ser pelo método empírico, através de pesquisa, cruzamento de dados, etc. Nem todos os métodos científicos se aplicam em todos os casos e nem todos os levantamentos são concretos e irrefutáveis, sendo a falseabilidade (capacidade de refutação) sendo um dos pilares da abordagem científica. A validação de um valor científico é feito por uma comunidade epistêmica através de uma corroboração intersubjetiva.

3. Epistemologia
É o estudo dos fundamentos e dos limites do conhecimento filosófico e científico. Existem duas principais epistemes, a do mundo inteligível e a do mundo sensível. O mundo inteligível é o das ideias e formas perfeitas, da abstração e da intuição, enquanto o do mundo sensível é o da realidade, que possuí estrutura lógica e se utiliza da observação e da razão.


A caverna de Platão é neste caso um excelente exemplo para explicar as duas epistemes. As pessoas que vivem dentro da caverna e só são apresentadas a sombras de coisas reais acreditam que aquilo que elas veem é o real, isso seria o mundo sensível, limitado a tudo aquilo que conseguimos perceber pelos nossos sentidos. Assim que uma dessas pessoas decide sair desta caverna e percorrer um difícil caminho até a parte de fora, ela estaria adiante de uma realidade que ela não conhecia, que não está limitada somente e aos sentidos e que exige um difícil exercício mental para sua explicação e entendimento, este seria o mundo inteligível.



Sintetizando, a ontologia, para quem está analisando, é quais pontos neste gráfico vão interessar a ela em sua pesquisa, a metodologia será quais caminhos estes pontos devem percorrer em sua pesquisa e a epistemologia é qual o tipo de fundamento que será usado para validar o conhecimento produzido.

Ciências Exatas?
As ciências exatas não são tão exatas, terias podem ser refutadas ou substituídas, assim como as teorias de Einstein fizeram com as de Newton em 1905. Em toda teoria, observar modifica o observado e conhecer modifica o conhecido.

Conhecimento, Linguagem e Poder
Em uma pesquisa científica, o sujeito vai analisar algo, ou seja, o objeto, e analisando este objeto irá criar uma teoria que será traduzida em uma imagem onde poderá ser interpretada, através da língua. A percepção da realidade é uma construção linguística, a partir de uma observação imprecisa de nossos sentidos limitados, cujos significados não são atribuídos originalmente por nós, mas sim herdados da cultura em que estamos inseridos e que já traz consigo toda uma carga de valores do que seja verdade e de como se chegar ao conhecimento verdadeiro.


Oque você vê nessa imagem? ''Um cachimbo'' você pode pensar no momento, entretanto, assim como o  título da pintura de René Magritte nos diz, ''Isto não é um cachimbo'', isto é apenas uma representação daquilo que nos conceituamos ser um cachimbo, podendo te trazer sentimentos que um cachimbo te traria mesmo não sendo um. Nosso conhecimento é um caleidoscópio de imagens fragmentadas, incoerentes, não neutras, que orientam, de forma confusa e imprecisa, não apenas a nossa percepção do mundo, mas também nossa ação no mundo.

Matrix: Bem Vindo ao Deserto do Mundo Real


Assim como na Matrix, a realidade, para ter alguma lógica, precisa passar por um filtro cognitivo, senão a realidade é apenas um deserto de matéria. Sempre se compreende a realidade sob um viés específico, cada um tem sua forma diferente de ver o mundo e não necessariamente uma forma é melhor ou pior que outra. Quando Cypher no filme decide ficar na Matrix e trair Morpheus, ele faz isso por que o seu viés específico de mundo, a lógica para a sua realidade é a realidade dentro da Matrix e não fora dela.


Em seu quadro ''Las Meninas'', Diego Velásquez explora a realidade de várias formas. Este quadro por si só está incompleto e ele só se completa quando, assim como a realidade, é interpretado. Velásquez pinta os próprios quadros do ambiente na pintura, ele se auto insere pintando aquilo que não conseguimos a primeira vista ver, mas quando reparamos a frente, percebemos que há um espelho, e que ele não está olhando para a gente, mas para os reis, pais de Margarida que está no centro do quadro. Quando você pensa que saiu da caverna de Platão ou da Matrix, você pode somente estar reproduzindo uma ou outra forma de poder 







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