Introdução ao Estudo da Defesa- Aula 3

 Natureza Humana e Sociologia da Violência

As Relações Internacionais possuem três níveis de análise, o primeiro nível, que é a Natureza Humana, o segundo nível, que é o Estado e o terceiro nível, que é a Estrutura Internacional. Segundo o estudioso Kenneth Waltz em sua tese de estudo de RI, a guerra é inerente e embora os dois primeiros níveis sejam importantes, toda pesquisa que se preze deve analisar o terceiro nível. Grande parte dos pensadores clássicos irá tratar sobre a Natureza Humana em suas pesquisas sobre sociedade, como pontos principais de suas pesquisas.

Thomas Hobbes


O escritor de O Leviatã possuí a célebre frase ''o homem é o lobo do homem''. O significado dela é que a espécie humana vive em uma disputa eterna entre si. A sociedade europeia, na época da publicação do livro, vivia em um sistema de guerra de todos contra todos, com Hobbes observando que o continente vivia na norma da Lei do Mais Forte. Os indivíduos dentro da sociedade, para não viver dentro dessa norma violenta, estabelecem um ''Contrato Social'' com o Estado, que é um contrato que dá códigos de convivência dentro de uma sociedade, sendo não escrito ou verbalizado, mas inerente nas relações dentro de uma norma social. Neste contrato o indivíduo é privado de algumas de suas liberdades para o bem social, a exemplo de homens em uma guerra abrindo mão de sua vida para defender a soberania nacional, assim saindo do convívio baseado unicamente na Natureza Humana onde a violência é a principal forma de resolução de disputas de interesse. 

Rousseau


Para Jean Jacques Rousseau, o homem nasce bom mas é a sociedade que o corrompe. O grande questionamento em relação a essa teoria é estabelecer que o homem não é um ser social quando o homem sempre viveu em um meio de diversas pessoas. Não conseguimos viver sem a sociedade, mesmo quando, por exemplo, decidimos morar sozinhos, não somos completamente independente, ainda precisamos do mercado para comprar nossa comida ou da companhia de luz para eletricidade. Um exemplo histórico onde essa ideia foi aplicada são as Festas Brasílicas realizadas na França, onde os franceses levavam artigos brasileiros nativos e indígenas do Rio de Janeiro para seu país natal. Se acreditava que os indígenas eram mais pacíficos e não tinham conflito por não possuírem interesses com a terra, nem estado organizado ou bens materiais relevantes, diferentes dos europeus que sempre guerreavam. Esta era uma ideia que facilmente se comprovava como errônea, a exemplos de povos que lutavam entre si e possuíam uma organização social com figura central em um cacique.

Segundo o acadêmico Yuval Noah Harari, a revolução cognitiva que ocorreu na humanidade a cerca de 30 mil anos atrás deu origem as narrativas ficcionais de coesão social, onde a sociedade não mais se sustenta em pequenos bandos, mas em grupos cada vez maiores que se identificam uns com os outros baseado na religião.

Aristóteles


Segundo o filósofo grego, o ser humano é política e todas as relações entre indivíduos são relações de poder. A melhor forma de poder, nesta visão, é a baseada na ética, que são os princípios que orientam o comportamento humano.

Adam Smith


Em A Riqueza das Nações, Adam Smith estabelece que todo ser humano é egoísta e irracional, tomando suas decisões racionais baseadas no custo-benefício que irá ter, atendendo a seus interesses egoístas. Esta teoria foi utilizada como base para o pensamento liberal econômico nas décadas posteriores. Smith na época vivia em uma sociedade que estava cada vez mais centrada nas cidades, com problemas de falta de moradia e saneamento surgindo aos montes. Para o economista, a solução para esses problemas dentro da organização econômico capitalista do período era a autorregulação do mercado sem intervenção estatal, ao qual foi dado o nome de ''Mão Invisível do Mercado''. David Ricardo iria manter a concepção teoria de Smith mas adicionando o bem-estar da população como um dos princípios mais importantes a ser seguido dentro de um ordenamento social.

Freud


Freud exploraria profundamente a Natureza Humana em seus estudos do século XIX e XX, principalmente analisando a psicologia dos indivíduos. Para ele, o aparelho psíquico do homem estava dividido entre o consciente e o inconsciente, possuindo três estruturas do comportamento e pensamento humano: Id, que está imerso no inconsciente e é perceptível na infância quando somos movidos por nossos desejos totalmente guiados pela vontade, Superego, que é quando crescemos e possuímos normas e valores morais construído através da família e ego, que é o princípio da responsabilidade, que é capaz de dar conta das pressões do Superego e do Id. 


O Id dentro da teoria de Freud possui importante papel em explicar nossas ações inconscientes. Segundo o psicanalista, dentro do Id existe o prazer criativo, que é o Eros, tendo como base o desejo sexual que pode ser redirecionado a outras áreas (entretenimento) e o prazer destrutivo, o Thanatos, que são os nossos desejos internos por violência, atualmente sanados por esportes que envolvem a competição.

Psicologia das Massas

Nossa identidade é formado a partir da identificação como sendo parte de algo maior, uma ''massa''. Pode ser exemplificado como se sentindo parte de um bairro, parte de uma religião, parte de um país ou parte de uma torcida de um time de futebol. Dentro dessa identificação com diferentes grupos sociais, ocorre a dissonância cognitiva, que é a incoerência entre suas ações e seus grupos de identificação. A existência por si só é dolorosa e tendemos a aderir a movimentos de massa e entretenimento buscando um escape. Milhares de pessoas assistindo um show ou vibrando com a vitória de um time é um exemplo do prazer na diluição entre as massas. 

Buenos Aires em comemoração a vitória argentina na Final da Copa do Mundo, 2022.

A emancipação surge como uma reflexão e forma de entender a si mesmo, abrindo mão da pura alienação e diluição entre as massas e fazer decisões baseadas na sua ética, conhecendo a ti mesmo. 

Banalidade do Mal

Diversos atos de abuso do uso da força foram cometidos na prisão de Abu Ghraib durante a ocupação americana no Iraque ocasionado pela Segunda Guerra do Golfo. Os relatos e imagens mostram como os guardas abusavam dos prisioneiros e satirizavam suas crenças e condições físicas. Esses atos, embora possam parecer serem feito por monstros, eram obras de homens e mulheres como eu ou você. Na visão dos que cometeram os atos de violência, a ação era justa pois as vítimas eram terroristas e criminosos, por isso não possuíam nenhuma humanidade para serem alvos de pena. Todos nós, se estivéssemos com o mesmo nível de poder, estaríamos suscetíveis a fazer a mesma barbárie.

Um experimento feito na Universidade de Stanford chamado ''The Stanford Prison Experiment'' buscava provar como o mal está em todos nós. O experimento foi feito com algumas dezenas de estudantes da universidade que se voluntariaram. Consistia em uma experiência comportamental em que alguns estudantes seriam prisioneiros e outros seriam guardas de prisão durante duas semanas. Tanto os guardas como os prisioneiros passaram por uma ''despersonalização'', havia sido dado um novo papel  social com poder simbólico, seus nomes haviam sido mudados, seus cargos não eram mais os mesmos e as lembranças passadas entre os participantes não tinham mais importância. O resultado dessa experiência foi na teoria de Freud, esperado. Os guardas da prisão passaram a ter uma obediência cega a uma causa maior, com a perda relativa da consciência individual, possuindo canalizar o desejo por violência nos prisioneiros, que na visão dos mesmos, era justificável pelo bem do experimento.

Outro experimento feito na Universidade de Yale visando comprovar como as pessoas tendem a obedecer as autoridades, mesmo que as ordens dadas contradigam o bom senso, como no caso dos oficiais nazistas durante a segunda guerra. O experimento se fazia com 2 participantes e 1 cientista em uma sala. Um dos participantes era um ator e estava sem visão do resto da sala, com o outro sendo um voluntário. O cientista dava ordens para que o voluntário apertasse botões que dariam choques no outro participante. A cada ordem o número de volts aumentava, chegando ao máximo de 450 (fatal em grande parte dos casos). A maioria dos participantes continuou até o final do experimento, com alguns questionando se o outro participante estaria morto. Embora o choque não fosse real, os voluntários não tinham consciência disso e seguiram as ordens do cientista em uma obediência cega.

A violência, embora possa exceder-se como nos casos dos abusos policiais, em suas devidas proporções, é necessária para manter a sociedade organizada. A polícia e o exército possuem um papel vital dentro do conjunto social de um país, servindo como a garantia da manutenção da ordem, evitando que o caos surja. Essa força física, junto com o ordenamento jurídico baseado no Direito, dá certo poder ao Estado para usar a violência quando necessário, como no caso da cerceamento da liberdade de um indivíduo que comete um crime. 

Só um ser humano pode salvar outro ser humano

Analisando as diferentes visões sobre a Natureza Humana, pode parecer que a humanidade é egoísta, sem compaixão e ignorante em relação aos problemas alheios. Todavia, isso não é uma total verdade. Possuímos um sentimento de importância com o próximo inerente a nós, que nos conecta como humanos e que nos leva a ajudar o próximo. Ser gentil ou ser cruel é uma opção ética que tem mais a ver com o estado mental de alienação ou de emancipação do que com a Natureza Humana.

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