Fundamentos da Economia- Aula 8

Balanço de Pagamentos

O balanço de pagamentos é um registro contábil abrangente de todas as transações econômicas de um país com o resto do mundo. Este documento captura tanto as entradas quanto as saídas, envolvendo transações de bens, serviços e capitais financeiros. Geralmente, o balanço de pagamentos é compilado anualmente utilizando o método das partidas dobradas e, na maioria das vezes, é mensurado em dólares.

Grupo de Contas

  • Balança Comercial: A balança comercial está relacionada ao comércio de bens tangíveis, registrando as exportações e importações. Quando um país exporta mais do que importa, resulta em um superávit na balança comercial. No caso oposto, quando as importações superam as exportações, ocorre um déficit.

  • Balanço de Serviços e Rendas: Este grupo envolve transações intangíveis, como pagamentos por serviços, remessas de lucros, juros e despesas com transportes. Estas transações incluem serviços diversos, como turismo, consultoria, transportes e seguros, além de rendas primárias e secundárias como remessas de dividendos e lucros entre países.

  • Transferências Unilaterais Correntes: Este grupo abrange remessas de recursos ou mercadorias sem contrapartida, como doações internacionais em casos de desastres naturais, ajuda humanitária, pensões e outros tipos de transferências unilaterais.

Esses três componentes formam o saldo em conta corrente do balanço de pagamentos. A ocorrência de um déficit em transações correntes, uma situação comum no Brasil, indica que o país, em determinado período, não gerou divisas suficientes por meio da venda de bens e serviços e recebimento de transferências para cobrir suas despesas. Em tais situações, é comum que o país recorra a dívidas externas para equilibrar suas contas.

Conta Capital e Financeira

A conta capital e financeira registra as transações que produzem variação nos ativos e passivos externos do país, alterando sua posição devedora ou credora perante o resto do mundo. Esta conta inclui:

  • Investimentos Diretos: Investimentos realizados por residentes em outros países e vice-versa, visando controle ou participação significativa em empresas estrangeiras.

  • Investimentos em Carteira: Incluem ações, títulos e outros instrumentos financeiros que não conferem controle sobre a empresa.
  • Outros Investimentos: Empréstimos, financiamentos e depósitos bancários entre países.

Erros e Omissões

Esta conta ajusta imperfeições na forma de registro das informações, equilibrando créditos e débitos. Erros e omissões representam a diferença entre o saldo da balança de pagamentos e a variação de reservas. Isso ocorre devido a discrepâncias nos registros contábeis, falta de informações ou imprecisões nos dados reportados.

Variação de Reservas

A variação de reservas reflete as mudanças no nível de reservas internacionais do país, que incluem moedas estrangeiras, ouro e outros ativos líquidos mantidos pelo banco central. Um superávit ou déficit no balanço de pagamentos se refletirá em uma variação inversa nas reservas. Por exemplo, um superávit no balanço de pagamentos aumenta as reservas internacionais, enquanto um déficit as reduz.

Ajustando o Balanço de Pagamentos

Um déficit nas contas externas não é necessariamente um indicativo de mau desempenho econômico. No entanto, um déficit se torna problemático quando é sistemático e não há perspectivas de reversão a longo prazo. Nessas circunstâncias, as autoridades econômicas devem implementar medidas de ajuste.

Medidas de Ajuste

  • Desvalorização Cambial: Esta medida visa tornar os produtos nacionais mais competitivos no mercado internacional, aumentando as exportações e reduzindo as importações.

  • Aumento de Tarifas de Importação: Elevar as tarifas sobre produtos importados diminui a demanda por esses bens, incentivando o consumo de produtos nacionais.

  • Estabelecimento de Cotas de Importação: Limitar a quantidade de determinados produtos que podem ser importados ajuda a controlar o déficit comercial.

  • Concessão de Subsídios às Exportações: Subsidiar exportadores reduz seus custos de produção, permitindo que vendam seus produtos a preços mais competitivos no mercado internacional.

  • Imposição de Restrições à Saída de Capitais: Controlar o fluxo de capitais saindo do país ajuda a manter um nível adequado de reservas internacionais.

  • Redução do Nível de Atividade Econômica: Medidas de austeridade que reduzem a demanda interna por bens e serviços importados podem ajudar a ajustar o balanço de pagamentos.

  • Elevação da Taxa Interna de Juros: Aumentar as taxas de juros pode atrair investimentos estrangeiros, ajudando a equilibrar as contas externas.

Cada uma dessas medidas apresenta vantagens e desvantagens. A desvalorização cambial pode estimular as exportações, mas também pode aumentar o custo das importações, elevando a inflação. O aumento de tarifas e cotas pode proteger indústrias nacionais, mas pode resultar em retaliações comerciais e reduzir a eficiência econômica. A combinação ideal de medidas deve ser adaptada às metas específicas e à situação político-econômica do país. Em muitos casos, uma abordagem integrada e coordenada é necessária para alcançar um ajuste eficaz e sustentável do balanço de pagamentos.


Discutindo o Desenvolvimento Econômico

Segundo Adam Smith, a verdadeira riqueza de uma nação é medida pela prosperidade do povo e não pela opulência dos governantes.


História do Pensamento sobre Desenvolvimento Econômico

O problema econômico central envolve duas questões principais. A primeira é como aumentar a produtividade do trabalho humano por meio da tecnologia e da organização eficiente da produção. A segunda é como repartir os resultados desse esforço coletivo entre todas as pessoas da sociedade, garantindo a todos um padrão mínimo de vida material e social.

No decorrer das discussões entre economistas, o foco se deslocou dos metais preciosos e do comércio para a qualidade produtiva da terra. Em seguida, migrou para a combinação de máquinas e trabalho na produção e, finalmente, o motor do crescimento foi identificado na educação e na inovação tecnológica. Mesmo quando o problema era a desigualdade, a análise focava nas taxas desiguais de crescimento entre nações, conhecido como o problema da convergência dos níveis de renda ou "catching-up". Afinal, a organização doméstica da produção depende essencialmente das trocas comerciais com outras nações. Nenhum sistema econômico é autossuficiente; a interdependência das nações é o pano de fundo do desenvolvimento econômico.

Conflito de Pensamentos: David Ricardo e Friedrich List

Numa primeira etapa do pensamento econômico moderno, dois tipos de pensamento econômico entraram em conflito:

  • David Ricardo: Conhecido por sua teoria das vantagens comparativas, Ricardo argumentava que os países devem se especializar na produção de bens nos quais possuem uma vantagem relativa. Mesmo que um país seja menos eficiente em produzir todos os bens comparado a outro, ele ainda pode se beneficiar do comércio ao se concentrar na produção de bens para os quais tem um custo de oportunidade menor. Isso fundamenta a ideia de livre comércio, onde as nações se beneficiam mutuamente ao se especializarem e trocarem bens e serviços.

  • Friedrich List: Argumentava que a Inglaterra alcançou sua competitividade comercial por ter desenvolvido um aparato industrial que lhe garantia a melhor vantagem comparativa de todas: vender produtos caros em troca de produtos baratos. List defendia que cada país aplicasse tarifas comerciais sobre produtos importados para proteger a lucratividade de suas indústrias nascente e utilizasse subsídios para reduzir o custo de produção dos bens a serem exportados, garantindo maior competitividade.

Exemplos de Políticas de Desenvolvimento

  • Estados Unidos: Embora conhecida como uma potência liberal, os EUA se desenvolveram com uma base econômica manufatureira, não agrária. No século XIX, o país desenvolveu diversas tecnologias como ferrovias, aço e navios a vapor, catapultando-se para a posição de economia mais importante do mundo.

  • Coreia do Sul: Adotou políticas industriais baseadas em planejamento e tecnologia, concedendo benefícios a empresas potencialmente capazes e retirando apoio das ineficientes.

  • China: Na China pós-revolucionária, o governo forçou a iniciativa privada na direção que julgou correta para conquistar espaço nos mercados globais. Desde o 11º plano quinquenal, os chineses têm modernizado rapidamente sua marinha, tornando-se um dos mais avançados nesse setor.

Não há nada de natural ou inevitável no desenvolvimento europeu nos séculos XVIII e XIX, no desenvolvimento estadunidense no século XX e no desenvolvimento asiático no século XXI. Esses desenvolvimentos resultaram da convicção de que o aprendizado tecnológico é chave para o progresso, apesar dessas políticas serem custosas, de longo prazo e incertas.

Chutando a Escada

Ha-Joon Chang utiliza uma perspectiva histórica para analisar as estratégias de desenvolvimento das nações e como as grandes potências, uma vez desenvolvidas, fazem os países subdesenvolvidos se manterem assim. "Chutando a escada" refere-se a uma frase de List, defensor do protecionismo à indústria nascente. Chang afirma que os países em desenvolvimento são pressionados pelos países desenvolvidos a adotar "boas políticas e boas instituições", que supostamente promovem o desenvolvimento econômico.

  • As "boas políticas" são as recomendadas pelo Consenso de Washington.
  • As "boas instituições" são aquelas existentes nos países desenvolvidos, como a democracia.

Para Chang, se os países desenvolvidos tivessem adotado as políticas que recomendam aos países em desenvolvimento, não teriam alcançado o nível de desenvolvimento atual. Muitos deles recorreram a políticas comerciais e industriais protecionistas, atualmente consideradas "ruins". Além disso, no século XIX e início do século XX, antes de se tornarem desenvolvidos, possuíam poucas das instituições que agora recomendam aos países em desenvolvimento.

Como os Países Ricos Ficaram Ricos... e por que os Países Pobres Continuam Pobres

No livro, Erik Reinert reavalia histórica e teoricamente o conceito de desenvolvimento ao criticar a teoria econômica ortodoxa predominante. Ele argumenta que a alocação ótima de recursos pelas forças do mercado não necessariamente produzirá o desenvolvimento desejado. Reinert busca um desenvolvimento que sirva aos pobres do mundo, defendendo o conhecimento histórico do processo de desenvolvimento para evitar políticas aparentemente lógicas, mas prejudiciais.

Ele destaca a importância da transição de atividades de baixa qualidade (concorrência perfeita) para atividades de alta qualidade (concorrência imperfeita), com economias de retornos crescentes de escala, alto valor agregado e inovação tecnológica. Dessa análise, surgem duas rotas possíveis para as nações:

  • Desenvolvimento econômico, com constituição e manutenção de atividades com retornos crescentes de escala.
  • Economias pobres dedicadas a atividades com baixos retornos de escala (extrativismo e commodities), levando a salários reais estagnados, falta de excedentes para investimentos, poupança e tributação, resultando em uma armadilha de pobreza.


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