Interpretações do Brasil- Aula 2

 Brasil e a questão da "interpretação" nas ciências sociais

Há uma diferença fundamental entre ciências sociais e ciências naturais: elas têm objetos e metodologias diferentes. Antigamente, as ciências sociais eram um apêndice das ciências naturais. Em um determinado momento, percebeu-se que havia diferenças entre as duas ciências que as tornavam muito distintas. Os resultados dos experimentos das ciências naturais têm sempre os mesmos resultados, pois são controláveis. Na ciência social, isso não acontece; os eventos sociais não se repetem. Por mais que eventos sejam similares, eles nunca são iguais. Ela tem que narrar os acontecimentos, não basta uma planilha. Isso a faz ter um grau de subjetividade por parte do observador. Os cientistas sociais lidam com palavras e categorias socialmente construídas (como democracia, Estado, juventude, etc.).

Diferença entre fatos naturais e fatos sociais

Émile Durkheim analisou que fatos naturais são diferentes de fatos sociais, pois fatos naturais são os mesmos (como o corpo humano), enquanto fatos sociais são socialmente construídos (como o tipo de roupa que eu uso e a língua que eu falo). Todo fato social vem de uma construção histórica onde a sociedade se impõe sobre o indivíduo. Raça, por exemplo, é um fator social; por mais que haja diferença de fenótipos, as diferenças de vivência são fatores sociais.

Subjetividade na ciência social

Tudo é interpretado; tudo aquilo que consideramos como verdade, interpretamos como alguma coisa. Trata-se de uma ciência que, por mais que seja diferente das ciências naturais, ainda é uma ciência, que precisa fundamentar suas análises em dados comprovados, evidências, precisa ter suas fontes referenciadas e mostrar a metodologia utilizada.

Devido à sua subjetividade, tudo na ciência social pode ser analisado e objeto de estudo, e tudo é passível de ser discutido e debatido. Tudo pode ser questionado a partir dessa ciência. Termos socialmente aceitos, como "selvagem" e "civilizado", passam a ser duvidados e questionados sobre quem realmente pode ser encaixado nessas categorias e se elas são realmente cabíveis de serem usados. É preciso estranhar o que parece natural, desnaturalizar aquilo que parece óbvio.

Interpretação e construção de realidade

Ao interpretar um fato ou evento, quem está analisando está reduzindo e criando uma realidade. Se essa criação se torna eficaz e funciona, ela cria uma realidade, pois se torna socialmente aceita. O dinheiro, por exemplo, só tem valor porque é socialmente aceito como tendo valor. Duvidar é justamente questionar essas coisas que são socialmente aceitas, como família, dinheiro, indivíduo, etc. A ideia de civilização por exemplo, surgiu no século XVII para diferenciar os nobres da classe plebeia. Essas ideias, como usar garfo, se perpetuaram e se mantiveram, e serviram como interpretação de civilidade. Muitas dessas das atitudes interpretadas acabaram se perpetuando, enquanto outras deixaram de existir. As interpretações, ao longo do tempo, podem sofrer mudanças, podendo ser desqualificadas, inferiorizadas ou desconsideradas.

Poder da interpretação

 Quando você interpreta algo, você precisa representá-lo para comunicá-lo, e isso geralmente é feito por meio de símbolos. Um diplomata não é o país, mas o representa, uma bandeira não é uma nação, mas a representa. Os símbolos também podem produzir violência. A mera representação de algo pode ser interpretada como uma violência dependendo de quem a vê. Se a interpretação for forte o suficiente no sentido de colonizar mentes e corações de uma coletividade, ela pode se tornar extremamente poderosa.

Para uma interpretação funcionar, ela precisa ser repetida, circulada, sendo reforçada em nossas mentes. Essa interpretação, entretanto, pode ser abandonada, reforçada, mudada, resignificada, negada ou readequada. O Brasil, por exemplo, mesmo não ganhando uma Copa do Mundo há 20 anos, continua sendo reconhecido como o país do futebol.

Linguagem e condicionamento mental

Para que haja entendimento mútuo, utiliza-se a linguagem. A linguagem que usamos nos condiciona mentalmente. Estamos presos às formas com que nos comunicamos, uma prisão que pode ser muito violenta, chamada de "violência epistêmica". A forma como a língua é utilizada pode servir para mascarar preconceitos. Grande parte dos intérpretes do Brasil foram homens brancos, o que acabou criando uma interpretação de Brasil majoritariamente branca nesse meio acadêmico.

Lugar de fala e privilégio

Existe um lugar de fala, e é preciso marcá-lo. Entender os implícitos da posição de quem fala. Isso tem a ver com quem você é e suas experiências de vida e o quanto você pode falar sobre determinado assunto. Não significa que quem ocupa uma posição de poder não pode falar sobre quem não ocupa. A pessoa que está no poder precisa ser marcada (como branco, hetero, homem, etc.). É reconhecer o privilégio que ocupa e se colocar no lugar de escuta e ouvir quem sofre.

A força das perguntas

Perguntas são opressivas, podem produzir violência ou constrangimento. Elas têm o potencial de nos fazer entender as coisas de formas complexas. Elas abrem portas não para respostas, mas para refletirmos sobre diversas coisas. Diversas perguntas podem ser feitas para questionarmos a sociedade brasileira e como ela funciona e vem funcionado ao longo do tempo:

  • De onde vêm os termos que usamos?

  • Por que se diz que herdamos características dos portugueses, indígenas e negros?

  • De onde vem a família tradicional brasileira?

  • Por que se diz que somos um país hospitaleiro?

  • Por que presos não são vistos como pessoas?

Essas perguntas não são necessariamente feitas para serem respondidas, mas sim para se refletir sobre oque elas está pergunta, criando novas perguntas que nos auxiliam a compreender o ambiente em que vivemos e como vivemos.

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