Teoria das Relações Internacionais- Aula 1

 A Teoria das Relações Internacionais (RI) pode parecer tratar de algo vasto e já consolidado nos meios acadêmicos, mas, na verdade, é uma área de pesquisa relativamente recente e com um foco específico. Diferente da Ciência Política, que já está bem consolidada no meio acadêmico, a Teoria das RI têm sua origem no contexto da modernidade europeia, especialmente no século XIX, quando a ideia do Estado-nação se consolidou como a forma de organização das sociedades políticas, marcadas territorialmente e universalmente reconhecidas.

O conceito de Estado-nação é algo relativamente novo na história humana. Ao longo dos séculos, as sociedades humanas se organizaram mais frequentemente em torno de impérios ou cidades-estado, em vez de Estados unificados. A fragmentação europeia durante a Idade Média, por exemplo, impediu a formação de um império único no continente. Entre os séculos X e XIII, a Europa era uma região pobre e pouco povoada, com as cidades mais ricas e populosas localizadas na Ásia. A peste e a degradação do Império Bizantino exacerbaram ainda mais essa fragmentação.

No entanto, após essa crise, as condições começaram a melhorar, permitindo um crescimento demográfico na Europa. Com o aumento populacional, surgiram dificuldades em organizar e alimentar essa grande massa de pessoas. Esse contexto levou à expansão ultramarina e a intensas lutas políticas na Europa, que passaram a ser marcadas por questões territoriais. A coleta de impostos e o desenvolvimento de exércitos tornaram-se prioridades para essas sociedades.

A centralização das estruturas sociais europeias impulsionou o desenvolvimento das relações entre os Estados, exemplificado pela Paz de Westfália, que marcou o fim de um período em que a filiação religiosa era central nas disputas europeias. A partir de então, os conflitos e as cooperações no continente passaram a se basear em questões territoriais.

Com o fim das Guerras Napoleônicas, surgiu a Santa Aliança e a ideia de Concerto Europeu, uma arquitetura descentralizada e autônoma para que as diferentes nações europeias negociassem entre si. No século XIX, a Europa já dominava o cenário internacional em termos intelectuais, territoriais, materiais e morais. O período de 1815 a 1914 foi marcado por alta estabilidade no continente, e o domínio europeu sobre outras regiões do mundo nunca havia sido tão grande. Essa prosperidade gerou a ideia de uma superioridade moral europeia e de que a humanidade havia alcançado um patamar sem precedentes na história.

Essa visão de progresso e evolução, influenciada pelo Iluminismo e pela Revolução Industrial, fomentou a crença de que as guerras eram um mecanismo ultrapassado para a resolução de conflitos. No entanto, essa ideia foi completamente destruída pelo maior conflito da humanidade até então: a Primeira Guerra Mundial. A tecnologia desenvolvida ao longo do século anterior alcançou um poder destrutivo nunca antes visto, com o uso de armas químicas e peças de artilharia. A guerra foi planejada com base em estratégias do século XIX, que priorizavam o rápido movimento das tropas, mas a capacidade destrutiva das novas armas, como a metralhadora, impediram qualquer avanço significativo em um curto período de tempo.


A Teoria das Relações Internacionais é, em grande parte, um produto da perplexidade gerada pela falha do Concerto Europeu em evitar a Primeira Guerra Mundial. Os intelectuais europeus, chocados com a devastação do conflito, começaram a desenvolver teorias para entender como e por que essa guerra ocorreu e como restaurar o status quo anterior. A cátedra Woodrow Wilson, fundada na Universidade de Gales, Reino Unido, não abordou questões sociais, ambientais ou relativas ao sul global como é comumente debatido nos dias de hoje, concentrando-se em entender como a arquitetura política europeia havia falhado e como esse modelo poderia ser recuperado.

Uma das teorias elaboradas foi o Realismo, que enxerga o Estado-nação como fundamental para o progresso científico e político. Nesse contexto, é necessário haver anarquia entre os Estados para que o sistema funcione. O Realismo admite que sempre haverá conflitos, e a única maneira de preservar a cultura e a soberania de um Estado é protegendo-o de ameaças externas. Assim, surge a ideia de equilíbrio de poder: sem um sistema de contrapesos, não poderia haver soberania. As causas da Primeira Guerra Mundial são frequentemente atribuídas à unificação alemã, com a Alemanha emergindo como uma potência mais pujante do que os demais países europeus, mas sem os espólios coloniais que outras nações haviam acumulado, desejando assim mais relevância no cenário internacional, oque desequilibrou a balança de poder no continente.

Outra vertente, o Liberalismo, também derivada do Iluminismo europeu, argumenta que o que diferencia a Europa de outras comunidades não é o Estado, mas a valorização do indivíduo e de suas capacidades dentro da sociedade. O Liberalismo vê o Estado como um mal necessário, uma barreira que limita o potencial do indivíduo. A guerra, segundo essa perspectiva, é prejudicial, pois não beneficia o indivíduo, mas sim uma burocracia que se aproveita do Estado para alcançar seus interesses. Para evitar conflitos entre os Estados, o Liberalismo promove conceitos como a transparência do sistema político, a interdependência comercial e a ideia de segurança coletiva.

A Teoria das Relações Internacionais é, portanto, uma construção conceitual que surgiu para lidar com o dilema trazido pela Primeira Guerra Mundial, buscando entender as causas do conflito e restaurar a ordem internacional.

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