Teoria das Relações Internacionais- Aula 2

O Século XX e o Problema da Guerra

O século XIX foi muito importante para a Europa e para a Teoria das RI. O mundo nem sempre girou no entorno da Europa, o continente só entrou em contato com outros continentes no século XVI. Entretanto, o salto que vai tornar a Europa o centro do mundo é as transformações que ocorreram do século XVIII para o século XIX. Na maior parte do tempo cronológico do mundo, a Europa tinha pouco papel na constituição do planeta, a grande parte da população estava na Ásia e grande parte do comércio estava na Rota da Seda. 

A Europa mudou muito em um período de tempo muito rápido. O período que a Europa passou de absolutista para liberal, o continente ainda era uma periferia global. Transformações tecnológicas impulsionaram os países europeus como o motor elétrico, o motor a vapor, as vacinas. Também houve a evolução das ciências sociais através de Marx, Adam Smith, David Ricardo e a evolução da ciência biológica através de Charles Darwin. A Europa passa a ser uma potência intelectual e tecnológica do mundo. Tudo isso cria um entusiasmo e uma visão muito distorcida do papel da sociedade europeia ao longo da história como um todo. 

Se enxerga como a Europa trouxesse para humanidade um novo patamar de desenvolvimento. Isso não só cria uma visão de superioridade sobre outras nações, como a evolução vista gera uma expectativa das potências atacarem o mal que é visto como a guerra. O que foi gerado na Europa e demonstrado pelo Concerto  Europeu é enxergar a guerra como um fenômeno do passado, um primitivismo da humanidade, que agora seria superado. A partir do momento que esses Estados estão se unindo em conjunto em uma direção, se cria uma ideia de evolução pelo otimismo do presente e expectativa do futuro.

Paralelamente a esse ideal de otimismo evolutivo, o nacionalismo atinge seu auge na Europa no século XIX. A grande explosão da expansão imperialista no globo cria uma ideia de falta de espaço, onde não tem mais espaço para as potências dominarem. Isso é visto como uma oportunidade para as elites, e a guerra é agora enxergada como uma oportunidade. Essas elites impulsionaram a máquina de guerra dessas potências em busca de um conflito que pudesse explorar o nacionalismo crescente incentivados por eles mesmos. A educação em massa da população e a consequente alfabetização em massa criou uma capacidade desses intelectuais oriundos de elites de inflamarem a sociedade para o conflito.

O Custo Humanitário da I GM

O choque do otimismo evolutivo e do nacionalismo com a brutalidade da realidade acontece na Primeira Guerra Mundial. As novas armas impediram qualquer forma de avanço significativo de tropas, matando centenas, milhares de soldados facilmente como através de bombardeio, metralhadoras e armas químicas. O cenário de barbaridade que se viu na guerra nunca havia sido presenciado em tamanho nível na história da humanidade. Essas tecnologias que permitiram toda essa violência não surgiram na guerra, mas anteriormente, sendo utilizadas em outras guerras. Oque se viu, entretanto, foi o auge do uso massivo dessas tecnologias, que tornavam o cenário de guerra ainda mais brutais. Antes deste conflito, as guerras do século XIX eram travadas grande parte na fronteira, a maior parte da população não tinha contato com os horrores da guerra. O contato que se teve da população com essa brutalidade por meio do recrutamento em massa causou um choque de realidade da guerra nas populações da Europa.

A Liga das Nações e o Nascimento da Teoria das RI

A Liga das Nações e a Teoria das Relações Internacionais nascem desse choque da evolução que se esperava e a brutalidade que se testemunhou na primeira guerra. Quase como uma esperança de que o otimismo que existia antes da guerra não foi uma ilusão, restaurando as expectativas anteriores. O princípio de segurança coletiva da Liga das Nações, originada do liberalismo e nos pensamentos de Kant, era evitar que as guerras acontecessem. Se acreditava que uma aliança tão poderosa materialmente pudesse evitar qualquer ameaça de conflito pelo medo de resposta de potências militares tão fortes. Isso, entretanto, no ponto de vista prático, pode ser falho, pois um país tão poderoso dificilmente vai sacrificar recursos para defender um país pequeno se não houver interesse para tal. Isso seria provado durante o período entre guerras. 

Princípios Intelectuais Produzidos nesse contexto

Vai haver diferentes ferramentas para responder as mesmas perguntas: Quais são os fundamentos da ordem que prevalecia na Europa antes da Guerra? Oque causou o rompimento dessa ordem? Como restaurar essa ordem? Vai ser gerada dois princípios filosóficos principais para responder a essas perguntas: o liberalismo e o realismo. 

Liberalismo

O liberalismo está por trás da Liga das Nações e do discurso de progresso do século XIX, embora não seja só os liberais que defendiam esse discurso. Oque diferencia o ideal de progresso do liberalismo e a própria sociedade europeia como todo antes da guerra, é o fundamento da valorização e potencialização do Indivíduo através das suas liberdades individuais. O incentivo a uma cultura de valorização do indivíduo foi oque permitiu a Europa chegar a um lugar de progresso jamais antes visto na história da humanidade.

Para transformar isso em uma filosofia política, se cria o conceito de harmonia de interesses. Tradicionalmente, o problema da política não é o problema do indivíduo, as duas foram separadas ao longo da história. A ideia de harmonia de interesses defende que não existe diferenças da busca do interesse individual e busca do bem estar coletivo. Assim se defende que os indivíduos tem liberdade para fazer oque quiser, e que o Estado deve ser limitado, sendo a "punição" do indivíduo dada no próprio contexto que ele está. Por exemplo, o Estado não interferir em um comerciante aumentar o preço, mas se este aumentar, será punido pelo livre-comércio com menos vendas. Portanto, a origem do problema é o Estado, que interfere sobre as liberdades dos indivíduos e é inevitavelmente capturado por uma elite que gera uma distorção indesejada na sociedade. Essa elite vai usar a burocracia do Estado para benefício próprio ao invés de levar em conta os interesses da sociedade, distorcendo esta para que apoie os seus interesses privados. O Indivíduo sem distorção do Estado não vai querer guerra, pois ele não tem qualquer benefício com a guerra, quem obtém são as elites, com venda de armas, conquista de território e enfraquecimento de rivais econômicos. O liberalismo nesse contexto vai criticar o imperialismo do século XIX, onde as guerras que aconteceram foram de interesses privados de uma elite econômica, como as Guerras do Ópio.

A solução do liberalismo para esse problema da tendência de captura da burocracia estatal por uma elite para levar a sociedade para a guerra é trazida em 3 mecanismos: o direito internacional (princípio de segurança coletiva, colocando todos os Estados contra um Estado que fuja a regra), intensificação do comércio internacional (interdependência econômica, impossibilidade de entrar em guerra sem afetar sua economia), e opinião pública (argumento kantiano, a população tem o papel de impedir que a elite utilize a burocracia do estado para ganho próprio). 

Realismo

O realismo surge de autores que possuem uma visão muito mais cética sobre o assunto. Eles vão trazer a ideia de natureza humana, que é vista como egoísta, e é analisado as consequências desse egoísmo. Os recursos dos países tendem a se tornarem escassos, o problema da política, para os realistas, é como você organiza esses recursos escassos. O conflito faz parte dessa natureza humana, onde os indivíduos vão brigar por esses recursos escassos. Em um cenário onde há mais demanda do que oferta, o conflito se torna inevitável, a questão é como você organiza esse conflito. 

A estrutura cultural é que faz o homem se sentir dentro da sociedade e permita que ele tenha liberdade dentro dos limites dessa estrututa, o homem precisa de uma estrutura que ele obtenha os recursos para progredir e se identificar. Sendo assim, a estrutura cultural que deu papel ao homem no mundo foi a religião,  que foi substituída pela nação. A preocupação deve ser a proteção da nação, sendo o Estado o principal protetor dessa nação, consequentemente da liberdade e da identidade de sua população. 

Anarquia, soberania e equilíbrio de poder

O conceito de anarquia e soberania são produtos da tentativa da restauração da ordem do realismo. A única forma do Estado se manter vivo no mundo é em um sistema descentralizado, anárquico, pois um sistema centralizado é visto como submissão e a perda da estrutura de sua nação. A soberania é o conceito que define que a segurança da nação está no território governado pelo Estado, que é de responsabilidade dele. A relação dos Estados nesse cenário não é normativa, mas uma relação de interesse. Nesse sentido, o liberalismo é visto não somente como ruim pelos realistas, mas como perigoso, pois a defesa do desaparalhemanto do Estado é a defesa da perca do agente que vai proteger a estrutura dessa nação e a liberdade do indivíduo.

A única forma de manter um sistema anárquico organizado é basea-lo no equilíbrio de poder. Nesse sistema, quando um país se tornar muito mais forte que os outros e indicar que quer se expandir, todos os países envolta se aliam para impedir esse país de se tornar um império. Foi assim que o Concerto Europeu funcionou durante os quase 100 anos que durou. O equilíbrio de poder funciona pois é flexível e não há ideologia envolvida entre os países além do interesse de se proteger de uma ameaça que é comum. 

A causa principal do começo da Primeira Guerra Mundial para os realistas foi o desequilíbrio de poder, da tentativa de uma nação de ser superior as outras, e que para restaurar a ordem, seria necessário restaurar o equilíbrio prévio a guerra. Somente pelo equilíbrio de poder seria possível manter essa ordem, aceitando que o conflito faz parte da natureza humana, mas que é possível mitigá-lo, tendo consciência da natureza egoísta do homem.


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