Geopolítica- Aula 5
Nicholas Spykman e o Poder Anfíbio
Americano naturalizado, nascido em 1893 e falecido em 1943. Ele morreu antes do final da Segunda Guerra Mundial, mas seus preceitos foram utilizados ao longo da Guerra Fria pelos EUA. De 1913 a 1920, trabalhou como jornalista ao redor do mundo. Em 1920, ingressou na Universidade da Califórnia, onde se tornou doutor em filosofia. Foi membro de diversas sociedades e academias de estudo, além de professor e diretor do Instituto de Estudos Internacionais.
Os pensamentos de Spykman se situam no quadro de confronto entre aliados e o Eixo, no contexto da Segunda Guerra, entretanto, suas análises seriam posteriormente utilizadas na Guerra Fria.
Realismo e intervencionismo de Spykman
Existia um grande debate nos EUA de como este deveria se portar no cenário internacional, por um, ou por outro meio, como:
- Idealismo: sistema de segurança coletiva, encarregado de preservar a paz mundial por meio de uma comunidade de poder.
- Realismo: política norteada pelos critérios estritos de segurança e interesses nacionais.
Na política externa:
- Isolacionismo: política de esplêndido isolamento em relação ao mundo exterior e menor envolvimento americano nos assuntos extracontinentais.
- Intervencionismo: ação direta americana nas alterações do equilíbrio de poder mundial.
Spykman se mantém principalmente no realismo e no intervencionismo americano.
Principais conceitos da geopolítica de Spykman
- Política de segurança estratégica dos EUA
- Equilíbrio de poder
- Projeção azimutal polar
- Teorias das fimbrias (rimland)
- Geoestratégia de contenção
- Preâmbulo da Guerra Fria
Política de segurança estratégica dos EUA
Spykman apresentou um estudo exaustivo sobre os aspectos envolvidos com a posição estratégica mundial dos Estados Unidos. Para ele, o chamado "interesse geral" era apenas uma peça retórica da diplomacia, com cada Estado tendo interesses diferentes.
Uma teoria estratégica e a política de defesa dos EUA deveriam, forçosamente, reconhecer que o país precisaria realizar movimentos, alianças e intervenções ofensivas, projetando-se como determinante no equilíbrio de poder.
Spykman afirmava que a primeira linha de defesa deveria se situar do outro lado do Pacífico e do Atlântico, onde as intervenções americanas seriam usadas para manter divididos e equilibrados os poderes na Europa e na Ásia.
Esplêndido isolamento?
Para Spykman, o isolamento não funcionava, e era ingênuo acreditar que as questões de outros continentes não afetariam os EUA. Ele via que o desenvolvimento da tecnologia estava relativizando os fatores geográficos, antes impeditivos, como os aviões.
Equilíbrio de poder
Os EUA deveriam manter a divisão da organização dos poderes, para que nenhum Estado tivesse muito mais poder que outro, podendo representar uma ameaça. Na Europa, o equilíbrio de poder destinava-se a impedir o surgimento de uma federação ou o controle do continente por um ou dois Estados. "Nem federação, nem hegemonia, mas equilíbrio de poder."
Os EUA deveriam manter uma hegemonia incontestável e não compartilhada no hemisfério ocidental e no Mediterrâneo americano, um sistema de defesa baseado em ilhas, além de uma presença ativa no hemisfério ocidental, fixando sua primeira linha de defesa nas duas bordas da Eurásia.
Temor do envolvimento estratégico
Spykman visualizava que a possibilidade ou não de confronto direto dependia do equilíbrio internacional de poder. Por isso, acreditava que a garantia para a paz estava no equilíbrio de poder.
Durante a Segunda Guerra, se a Alemanha e o Japão conseguissem conquistar a Rússia e a China, poderiam desenvolver um poder anfíbio e neutralizar os EUA.
Para ele, apenas a Rússia tinha os recursos de poder para equilibrar a Alemanha na Europa e a China no Extremo Oriente, neutralizando, assim, os principais poderes do rimland eurasiano.
Projeção azimutal polar
Teoria das Fímbrias (Rimland)
Spykman contradizia a concepção geral de Mackinder, que defendia que o poder partia da região central para as terras periféricas eurasianas. Ele oferecia uma concepção alternativa: em vez do controle da ilha mundial por uma potência terrestre, Spykman acreditava que uma potência naval com expressão anfíbia poderia conter o poder terrestre. Com relação à Teoria das Fímbrias, podem-se apresentar os seguintes objetivos:
- Político: contenção de um poder terrestre dominante na Eurásia.
- Estratégico: criação de um poder militar superior, por meio de alianças dos EUA com países posicionados no litoral da Eurásia.
- Geoestratégico: estabelecimento de alianças militares com a Europa Ocidental, Oriente Médio, Índia, Sudeste Asiático, China e Japão.
- Estratégico/militar: manutenção de uma presença avançada.
Rimland
O termo foi utilizado para substituir a noção de crescente interior de Mackinder. Para Spykman, a área pivô era constituída pelas margens da Eurásia, que possuíam zonas de contato com o interior do continente e com suas bordas marítimas. Geograficamente, ele contornava o território siberiano, sendo uma grande zona concêntrica de contenção. Se o processo centrífugo dos EUA para a Eurásia falhasse em construir um sistema de alianças, nada impediria a realização do "pesadelo mackinderiano", com a conversão da potência terrestre em anfíbia, projetando força contra os EUA. Quem dominava o Rimland dominava a Eurásia; quem dominava a Eurásia, dominava o mundo.
Spykman vs Mackinder
O conceito estratégico de Rimland assume uma centralidade equivalente à do Heartland na concepção geopolítica de Mackinder. Spykman argumentava que o perigo de unificação da Eurásia não vinha do Heartland, mas do Rimland.
Geoestratégia de contenção
Se a Europa e a Ásia fossem dominadas por um único poder, este acumularia uma força não compensada, podendo projetar-se no Atlântico e no Pacífico e, num movimento de pinça, cercar o hemisfério ocidental. Após a Segunda Guerra, a URSS dominava o Heartland, sendo necessário para o bloco ocidental ocupar o Rimland a fim de evitar sua expansão. Era preciso definir as bases de uma nova política americana para conter os russos. A estratégia de segurança aplicada pelos EUA contra a URSS foi, em grande parte, derivada dessas ideias.
Spykman ou Kennan?
Atribui-se ao diplomata George F. Kennan a conceituação da política de contenção. Argumenta-se, no entanto, que as bases geoestratégicas e geopolíticas mencionadas já estavam sistematizadas nos escritos de Spykman.
Preâmbulo da Guerra Fria
Embora Spykman tenha falecido em 1943, suas ideias foram importantes no contexto da Guerra Fria. Para conter a URSS, era necessário conquistar a supremacia no Rimland, sendo esta a chave para a contenção americana. A matriz teórica do Rimland inspirou pactos multilaterais que foram parte integrante da Guerra Fria, como a OTAN, OTASE e CENTO, além de alianças com países-chave.
Principais contribuições do autor
As linhas basilares da política de segurança norte-americana concebida por Spykman incluíam criar poderes equilibrados na Europa e na Ásia, manter o controle do Rimland e consolidar a hegemonia no hemisfério ocidental. No contexto da Guerra Fria, os princípios estratégicos da contenção americana já haviam sido teoricamente formulados em 1944. Atualmente, após as guerras do Golfo, do Afeganistão e do Iraque, os EUA firmaram-se, em parte, no Rimland.
Haushofer
Karl Haushofer nasceu em Munique, em 1869, e viveu até 1946. Oficial do exército alemão, foi professor na Academia da Guerra, na Escola de Estado-maior e na Universidade de Munique. Realizou viagens a diversos países na Ásia. Lutou na Primeira Guerra Mundial e se tornou amigo de Rudolf Hess, que se tornaria seu canal político com Hitler. Haushofer procurou relacionar a ciência militar com a geografia política, de onde pudesse surgir uma melhor geopolítica.
Realismo de Haushofer
A moldura histórica das concepções geopolíticas de Karl é constituída pela grande crise que se seguiu na Alemanha após a Primeira Guerra Mundial. Esse clima de agitação cultural e política promovido pelos setores nacionalistas de uma Alemanha imperial e forte baseou-se na manipulação do espírito de derrota, humilhação e ressentimento. Esse cenário forneceu uma justificativa "científica" aos ressentimentos e aos desejos de expansão do nacional-socialismo.
Pilares de Haushofer
Em síntese, Haushofer e seus adeptos fixaram-se em cinco pontos principais:
- Autarquia
- Lebensraum (Espaço Vital)
- Pan-regiões
- Poder terrestre x poder marítimo
- Fronteiras
Principais conceitos da Geopolítica de Haushofer
- Influência da Geopolítica clássica
- Instituto de Geopolítica de Munique
- Conceito de geoestratégia, fronteiras e autarquia
- Lebensraum alemão
- Teoria das pan-regiões
- Influência no regime nazista (?)
Influência da Geopolítica clássica
Haushofer levou a extremos o determinismo territorial de Ratzel, reiterando o ajuste entre população e espaço como base de seu conceito de espaço vital. Com uma tendência de crescimento espacial, fundiu a antiga fórmula de Malthus. É unânime a constatação de uma forte influência de Mackinder com suas ideias de Ilha-Mundial e Coração do Mundo.
Haushofer e Mackinder
Mackinder desenvolveu uma ideia a partir de uma visão britânica e antigermânica, enquanto Haushofer estabeleceu uma ideia germânica e anti-britânica. São as mesmas ideias, mas de pontos de vista divergentes.
Instituto de Geopolítica de Munique
É do Instituto de Geopolítica de Munique que surgem as principais ideias que serão a base para a ideologia nazista. Haushofer fundou e dirigiu a Revista de Geopolítica do instituto. As fontes principais do instituto eram:
- Serviço diplomático alemão
- Instituto Estrangeiro dos Alemães no Exterior
- Divisão exterior da Gestapo
- Os agentes de Dr. Goebbels
- Especialistas em geopolítica.
Haushofer e a Alemanha
Seus estudos possibilitaram uma reflexão sobre a Alemanha. Ela não podia respeitar suas fronteiras, deveria se tornar uma grande potência e necessitava unir todos os alemães da Europa. As fronteiras deveriam garantir espaço para os alemães se desenvolverem. A Alemanha, uma vez unificada, deveria dominar a África e o Oriente Médio.
Conceito de geoestratégia, fronteira e autarquia
Haushofer criou uma nova disciplina: a geoestratégia. Sua reivindicação repousa sobre o crescimento diferencial dos Estados, e o Estado como um organismo sujeito a leis biológicas. O conceito espacial de fronteira é central, cuja ausência foi uma das principais causas da derrota alemã. Para ele, as nações têm direito a fronteiras naturais, e, quando estão situadas além das linhas políticas, constituem um estímulo à agressão. A fronteira, para ele, é um campo de batalha.
A autarquia é o ideal de autossuficiência nacional no sentido econômico, presumindo que cada unidade política deve produzir tudo o que necessita.
Haushofer e o Oriente
Para Haushofer, a Primeira Guerra assinalou o início do declínio das potências ocidentais e o despertar dos povos asiáticos. O Oriente desempenharia em futuro próximo um papel preponderante na história mundial. A Alemanha poderia ser a grande beneficiária da nova situação, oferecendo sua tecnologia, ciência e economia.
Lebensraum alemão
Lebensraum é o direito que uma nação tem de ampliar o espaço para sua população, levando em consideração todos os recursos naturais e humanos a serem encontrados em qualquer área reivindicada por um Estado como seu espaço vital.
Haushofer e Hitler
Haushofer influenciou a escrita de vários capítulos do livro Mein Kampf de Hitler. A relação dele com o nazismo nunca ficou bem esclarecida. Há quem acredite que ele influenciou muito, e há quem acredite que ele influenciou apenas de maneira limitada.
Teoria das Pan-regiões
A pedra angular da doutrina geopolítica de Haushofer era a formação de um gigantesco bloco transcontinental eurasiático formado por uma aliança russo-germano-japonesa, liderada pela Alemanha Nazista, que teria à sua disposição um excedente de poder destinado a quebrar a supremacia mundial da Inglaterra.
A extensão desses superestados permitiria uma grande variedade de climas e solos que assegurariam a produção de quase todos os recursos agrícolas e florestais, assim como a extração de numerosos recursos minerais. Eles também teriam amplo contato com o oceano. A união do bloco euroasiático, que teve êxito em 1939, foi derrotada em 1941 pela invasão da URSS pela Alemanha.
Pan-regiões
São ideias que englobam os Estados em ideologias similares, como:
- Pan-América
- Euráfrica
- Pan-Rússia
- Pan-Ásia
Influência no regime nazista (?)
O Estado-maior alemão simpatizava com as teses de Haushofer, fazendo com que essas ideias influenciassem direta ou indiretamente os ideais nazistas. Entretanto, muitos dos ensinamentos deste foram deformados pelo nacional-socialismo. Além disso, a invasão nazista à URSS não se encaixava em seus esquemas de uma expansão euroasiática. Haushofer se defendeu no tribunal de Nuremberg, argumentando que havia sido perseguido pelo estado-maior nazista.
Principais Contribuições
Embora Hitler utilizasse os ideais de Haushofer, as políticas nazistas eram distintas dos ideais do autor. Haushofer levantou pontos básicos para a reflexão geopolítica relativos a uma organização mundial, como:
- Autarquia
- Espaço vital
- Pan-regiões
Alexander Seversky e o Poder Aéreo
Alexander Seversky nasceu na Rússia e se mudou para os EUA após a Revolução Bolchevique, oferecendo seus serviços como piloto de combate ao governo americano. Foi major de engenharia da reserva do corpo aéreo do Exército dos EUA, atuando em diversas áreas relacionadas à aviação, participando de centenas de invenções ligadas ao setor.
Evolução dos meios aéreos
Os aviões, inicialmente, não eram destinados ao combate, possuindo outras funcionalidades, como observação e reconhecimento. Num segundo momento, foram adaptados para reconhecimento e perseguição. Finalmente, em um terceiro estágio, os aviões passaram a ter meios destrutivos, como bombas, e a aviação assumiu as funções de caça e bombardeio.
Principais conceitos da Geopolítica
- Os precursores do poder aéreo
- Força aérea independente
- Zonas de domínio aéreo e zonas de decisão
- Teoria do poder aéreo
- Estratégia de guerra aérea
- Preâmbulo de uma nova era
Os precursores do poder aéreo
Conhecido como pai do poder aéreo, Giulio Douhet foi o primeiro estrategista a entender a importância da força aérea, com base em suas experiências e seu conhecimento de engenharia militar. Douhet expõe que o avião revolucionaria completamente a guerra, necessitando a obtenção do domínio aéreo para impedir a logística do inimigo por bombardeios. Mesmo após várias décadas, suas ideias de obtenção de supremacia aérea, bombardeios estratégicos e a independência da força aérea continuam relevantes.
Billy Mitchell foi outro aviador que foi considerado o pai da força aérea dos EUA. Para ele, os bombardeios deveriam se focar em neutralizar as capacidades econômicas do inimigo, podendo bombardear áreas civis. Ele previu que, caso os EUA não tomassem boas medidas, seriam atacados no Havaí, o que aconteceu.
Força aérea independente
Seversky salientava a necessidade de uma força aérea independente, com missões, planejamentos e comandos próprios, mantidas permanentemente equipadas e adestradas para pronto emprego na defesa do seu espaço aéreo.
Zonas de domínio aéreo e zona de decisão
A forma como as cartografias de poder de sua época interpretavam os desafios da geoestratégia deveria ser alterada radicalmente. Ele propunha um posicionamento estratégico mais defensivo, cujo argumento se baseava na leitura do Círculo Polar Ártico. Ele definiu dois círculos aéreos que mostravam os alcances aéreos das principais potências.
Zonas de decisão
As áreas onde as duas circunferências se sobrepunham seriam a zona de decisão, onde os EUA deveriam manter alto controle e influência, dominando esse local para a manutenção da força aérea.
Teoria do poder aéreo
Seversky sintetizou essas ideias na "teoria do poder aéreo", que consiste na capacidade das nações de defenderem seus interesses por meios aéreos. As forças de superfície só podem cumprir suas missões com sucesso se o espaço aéreo for controlado por uma força aérea amiga. O poder aéreo era a chave da vitória, sendo que as formas tradicionais de guerra se tornaram secundárias diante da ação da força aérea.
Estratégia de Guerra Aérea
Para Seversky, o poder aéreo é um poderoso instrumento da política nacional. Ele afirma que a segurança dos EUA só poderá ser preservada pela manutenção da supremacia aérea na chamada área de decisão.
Preâmbulo de uma nova era
Um fator de caráter revolucionário seria o surgimento das armas nucleares (e sua vinculação ao poder aéreo), cujo antagonismo foi exacerbado pelo fim do monopólio nuclear dos EUA. Também ligado à estrutura de força do poder aéreo, o advento dos mísseis permitiria a projeção de força. O custo político e existencial impunha o limite ao emprego de forças convencionais entre si. No contexto de destruição mútua assegurada, o que antes era um vetor de força atrelado originalmente ao poder aéreo acabou por revolucionar a própria geopolítica.
Principais Contribuições do Autor
O poder aéreo de Seversky foi um divisor de águas nos estudos da geopolítica internacional ao incorporar o estudo de um novo elemento na configuração das estruturas de poder dos Estados nacionais.

Comentários
Postar um comentário