Teoria das Relações Internacionais- Aula 3

 A Tradição Realista

O Problema da Guerra


A tradição realista influenciou profundamente a pesquisa na área de Teoria das Relações Internacionais. Pensadores do passado, como Tucídides, Maquiavel e Hobbes, influenciaram fortemente os autores realistas que vieram depois. Esses autores viveram em períodos históricos distintos e lidaram com problemas diferentes, mas abordaram essas questões de uma forma realista. Tucídides viveu no contexto da Grécia Antiga, Maquiavel no período feudal durante a consolidação do Estado-nação na Europa, e Hobbes durante a Guerra Civil Inglesa. Apesar das diferenças, esses pensadores compartilham um elemento em comum: todos foram profundamente afetados pelos impactos da guerra e buscaram evitar a iminência de novos conflitos.


Tucídides: Moralidade e Poder


Tucídides analisou a Guerra do Peloponeso enquanto o conflito ainda estava em curso. Ele argumentou que, para um país determinar sua conduta, deve-se considerar sua força relativa. Tucídides, um dos primeiros historiadores do mundo ocidental, adotou uma abordagem empírica e realista, tratando a guerra como um fator transformador da sociedade grega. Sua obra, A Guerra do Peloponeso, é notável por sua análise objetiva e desprovida de ufanismo. Tucídides também explorou a relação entre moralidade e poder, sugerindo que os valores de uma sociedade são eficazes somente quando respaldados por poder. O caso de Melos ilustra como uma nação fraca, ao tentar se manter neutra perante Atenas, viu-se incapaz de sustentar sua moral sem poder suficiente.


Maquiavel: Virtù, Fortuna e Moralidade


Maquiavel concentrou-se na península Itálica, onde as cidades-estado italianas desempenhavam um papel crucial na reconstrução europeia. Ele percebeu a crescente influência da Igreja na política e a expansão da França na região, defendendo que as cidades-estado italianas deveriam se unir para se proteger desses perigos iminentes. Em O Príncipe, Maquiavel se posiciona contra a hegemonia da Igreja no pensamento político da época.


Ele introduz a ideia de virtù (preparação) e fortuna (oportunidade), desafiando a noção cristã de que a bondade traz prosperidade. Para Maquiavel, o mundo político é marcado pela incerteza; estar preparado materialmente para a guerra pode não garantir a vitória. Virtù são as habilidades e virtudes que um governante tem, enquanto fortuna é o acaso, a sorte para os íntimos. Um líder para ele, deve estar tanto preparado e possuir habilidades para sua governança tanto a habilidade de reconhecer quando as oportunidades aparecem e saber como melhor explorá-las. Ou seja, governar sabendo conciliar virtù e fortuna.


Maquiavel também argumenta que a moralidade está relacionada à compreensão das circunstâncias. O uso da violência, por exemplo, por mais que seja visto como negativo por muitos, pode ser muiro vantajoso em certas situações. Em um território recém-conquistado, perdoar todos os antigos proprietários pode levar a mais conflitos. Em vez disso, escolher um bode expiatório e puni-lo severamente pode consolidar o poder e evitar mais mortes no futuro. Para ele, a história é um laboratório, oferecendo lições do passado para guiar as decisões no presente.


Thomas Hobbes: Natureza Humana e Estado de Natureza


Hobbes escreveu durante a Guerra Civil Inglesa e desafiou o princípio do direito divino dos reis, que justificava o poder dos monarcas em nome de Deus. Ele argumentou que essa terceirização da legitimidade enfraquecia a soberania e causava conflitos internos. Com a ascensão do protestantismo, guerras religiosas, como a própria guerra civil, tornaram-se comuns, todas legitimadas em nome de Deus.


Para Hobbes, o Estado deve ser legitimado por si próprio, sem recorrer à autoridade divina. Ele propôs que a legitimidade do Estado se constrói por meio de um contrato social, onde os indivíduos abdicam de parte de seu poder em favor de uma autoridade que proteja seus direitos. Na visão de Hobbes, a natureza humana é egoísta, e o Estado de Natureza é caracterizado pela incerteza quanto à segurança individual, sendo necessário um ente (chamado por ele de Leviatã) para resguardar essa segurança. O realismo, então, tira dessas ideias a compreensão de como os Estados operam em um sistema internacional anárquico no século XX.


Edward Carr: Utopia e Realidade


Edward Carr, um diplomata britânico que participou da criação do Tratado de Versalhes, foi o primeiro a ocupar uma cadeira de Relações Internacionais na Universidade de Aberystwyth, no País de Gales. Carr argumentou que a ciência nasce da necessidade de resolver problemas concretos e identificar padrões que ajudam a enfrentar essas questões. As Relações Internacionais, segundo ele, emergiram como ciência diante dos desafios gerados pela Primeira Guerra Mundial.


Carr introduziu o conceito de "Utopia e Realidade", onde se reconhece todas as contradições da realidade e se dá a necessidade de dar ordem a elas. Ele criticou as elites econômicas europeias do pós-guerra por tentarem restaurar o status anterior ao conflito, uma abordagem que, segundo ele, era inadequada para resolver os problemas presentes. Carr também analisou o liberalismo do século XIX, fundado através da hegemonia do Reino Unido, e como sua eficácia foi comprometida após a Primeira Guerra Mundial, quando o Reino Unido perdeu a capacidade de sustentar essa ordem.


Para Carr, o dilema das Relações Internacionais é lidar com a utopia e a realidade. A tragédia da Europa pós-Primeira Guerra, segundo ele, foi tentar resolver os problemas contemporâneos com soluções ultrapassadas, como o reestabelecimento do padrão-ouro, que já não era mais viável no novo contexto global.


Hans Morgenthau: Princípios do Realismo Político


Hans Morgenthau, um dos principais expoentes do realismo político, abordou o cenário internacional após a Segunda Guerra Mundial, quando as tentativas de estabelecer uma ordem internacional estável pareciam ter fracassado. Ele formulou os princípios do realismo político baseando-se na premissa da natureza humana, que ele via como intrinsecamente egoísta e voltada para a busca de poder. Morgenthau argumentou que o interesse nacional deve ser entendido em termos de poder, sendo o poder a capacidade de um Estado impor sua vontade em um contexto internacional anárquico.


Morgenthau enfatizou que o poder não é uma variável fixa; sua natureza e distribuição mudam ao longo do tempo, influenciadas por fatores como avanços tecnológicos e mudanças nas condições geopolíticas. Apesar dessas variações, o interesse em termos de poder permanece constante, moldando as ações e estratégias dos Estados. Ele também refletiu sobre a relação entre moralidade e poder, defendendo que, embora a moralidade possa influenciar a política, ela nunca deve ser confundida com a lógica do poder.


A presunção de uma superioridade moral, ou seja, acreditar que os próprios valores são universais e aplicáveis em qualquer contexto, pode levar a decisões políticas desastrosas. Morgenthau destacou a autonomia da esfera política, onde os líderes devem priorizar a realidade do poder sobre considerações morais idealistas. Finalmente, ele sublinhou a importância do equilíbrio de poder como um mecanismo essencial para manter a estabilidade no sistema internacional. O equilíbrio de poder, segundo ele, é a única forma de evitar que qualquer Estado se torne hegemônico e, assim, assegurar a paz e a segurança global.


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