Teoria das Relações Internacionais- Aula 4
Escola Inglesa
As tentativas e medidas para corrigir os erros da Primeira Guerra Mundial são frequentemente vistas como as causas do que viria a ser uma guerra ainda maior: a Segunda Guerra Mundial. Isso descredibilizou o liberalismo, enquanto o realismo ganhou maior aceitação no meio acadêmico.
Após a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos emergem como uma força hegemônica dominante. Durante grande parte da primeira metade do século XX, os EUA mantiveram uma postura isolacionista, algo que mudaria depois da Segunda Guerra, passando a intervir mais ativamente na geopolítica. Devido a isso, a academia internacionalista volta seu foco para os EUA, que começa a refletir sobre seu papel no cenário global.
Desde o início do século XX, os Estados Unidos interpretam as ciências humanas a partir de um método psicológico. A academia internacionalista se adapta a esse método, levando os estudos realistas a se tornarem mais empíricos, semelhantes às ciências exatas.
Um conjunto de autores, porém, segue um caminho diferente, contestando esse método, formando a chamada Escola Inglesa. Os estudos dessa escola partem de dois princípios: o primeiro é que os estudos de Relações Internacionais até então seguiam uma visão do século XIX, inadequada para o sistema internacional contemporâneo. O segundo é que, embora o sistema internacional seja anárquico, isso não significa que não haja normas regulando seu funcionamento. Existem regras e valores compartilhados entre as unidades, que influenciam no comportamento dos Estados. Portanto, para entender o sistema internacional, é necessário compreender como os Estados tomam decisões ao longo do tempo.
A primeira ideia fundamental da Escola Inglesa é que, para entender o comportamento dos Estados, é essencial compreender os modos pelos quais esses comportamentos são formados. Assim, surge a noção de "tradições", ou seja, as formas de se pensar o sistema internacional.
As Três Principais Tradições
Hobbesiana/Realista (Hobbes/Hans)
A primeira tradição concebe a ideia de Estado de Natureza, Ética da Responsabilidade e Equilíbrio de Poder. Dentro do estudo das Relações Internacionais, ela caracteriza o sistema internacional como inseguro, anárquico e baseado nos interesses das unidades.
- Estado de Natureza: Refere-se a uma situação em que não há autoridade central, resultando em um ambiente de incerteza e competição entre os Estados.
- Ética da Responsabilidade: Conceito de Hans Morgenthau que defende que o estadista deve se preocupar com o interesse nacional na tomada de decisões. A escolha de cooperar ou atacar outro país deve ser baseada no interesse nacional, e não em afinidades ideológicas.
- Equilíbrio de Poder: Refere-se à manutenção de um equilíbrio entre as potências, de forma que nenhuma delas possa dominar as demais.
Liberalismo Clássico (Locke/Grotius)
A segunda tradição é um liberalismo menos kantiano e mais pragmático. Locke, em contraponto a Hobbes, concebe a ideia de Direito Natural, segundo a qual os humanos possuem direitos e formas de organização inerentes. Mesmo em um ambiente sem regras ou cultura, existe uma racionalidade que orienta as pessoas a entender que a cooperação pode resultar em benefícios maiores.
- Direito Natural, Razão e Cooperação: A cooperação é vista como racional e natural, gerando acordos e regras que trazem previsibilidade e estabilidade. No sistema internacional, esse liberalismo interpreta a anarquia não como uma fonte de agressão, mas como um espaço onde a cooperação é benéfica e traz mais estabilidade aos Estados.
As instituições internacionais, como a ONU, são vistas como ferramentas para garantir essa estabilidade e a cooperação, em contraste com o foco no equilíbrio de poder dos realistas.
Liberalismo Idealista (Kant/Rousseau)
A terceira tradição, de matriz kantiana, é mais radical. Ela defende a universalidade dos valores morais, argumentando que todos os seres humanos são iguais e compartilham os mesmos interesses, independentemente de suas nacionalidades.
- Unidade da Humanidade: O conflito no sistema internacional resulta da captura de recursos por atores individuais para fins egoístas, ao invés de para o bem da humanidade.
- Universalismo Moral e Revolta Contra o Estado: Nessa visão, não há diferentes moralidades entre os Estados; existe apenas uma moralidade universal que guia a humanidade. O indivíduo deve se posicionar contra o Estado quando ele age em oposição ao bem comum da humanidade.
As Três Configurações de Ordem
Sistema Internacional
Essa configuração envolve a interdependência entre os Estados, onde o que acontece em uma unidade afeta as demais.
Sociedade Internacional
Neste nível, há regras e normas que guiam o comportamento dos Estados, fruto de vínculos históricos que possibilitam a construção de confiança mútua.
Sociedade Mundial
Em um grau mais avançado, o compartilhamento cultural e diplomático é tão forte que as normas não se aplicam apenas aos Estados, mas também aos indivíduos dentro desses Estados.
Transformações na Ordem Internacional
Década de 1970
O sistema internacional até então era centrado na Europa, que possuía uma tradição diplomática própria. Com a entrada de novos países, especialmente após a descolonização, surgem movimentos que desafiam essa ocidentalização, como o Movimento dos Não-Alinhados.
Década de 1990
Com o fim da Guerra Fria, havia a expectativa de uma nova ordem internacional, levando a várias intervenções humanitárias baseadas no solidarismo internacional. No entanto, essas intervenções falharam por impor uma visão unitária aos países. O pluralismo, por sua vez, defendia que a sociedade mundial deveria ser construída a partir da aceitação das diferenças internas entre as unidades internacionais.
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