Interpretações do Brasil- Aula 6

 Em busca do brasileiro: primeiras tentativas

Romantismo
O sentido moderno de nação surge a partir da segunda metade do século XIX, sendo comumente associado a um regime específico. No entanto, o Brasil, ao contrário de outros países da América Latina, continuou como uma monarquia após a independência. Os movimentos nacionalistas geralmente antecedem o surgimento da nação, e, no caso brasileiro, as primeiras manifestações nacionalistas se encontraram no romantismo. Embora esse período não possa ser compreendido como um movimento estruturado, no Brasil, ele se manifesta principalmente através de iniciativas dispersas e individuais, muitas vezes conduzidas por jovens que, influenciados pelo romantismo europeu, trouxeram de lá suas ideias. Uma das primeiras características a aparecer nas obras desse período é a exaltação da natureza brasileira.

O romantismo valoriza aquilo que é único e autêntico. E, nesse contexto, nada é mais singular do que um herói nacional. O herói romântico é superior, diferenciado, e colocado em um patamar elevado. No Brasil, os românticos escolheram como herói o indígena, que passa a ser valorizado por sua unicidade e pelo protagonismo nas narrativas que exaltam o país. Iracema, personagem icônica, emerge como símbolo dessa valorização do Brasil autêntico e pré-colonial. A figura indígena é apresentada de maneira mítica, como um símbolo atemporal que representa as centenas de etnias existentes no território. Os indígenas são retratados como seres puros, dotados de virtudes que, segundo esses escritores, faltavam aos europeus: valores heroicos, nobres e genuínos, associados a uma bondade essencial da natureza humana.

Senso de Comunidade
A formação do sentimento de pertencimento a uma comunidade maior é um dos elementos essenciais do conceito de nação. Mesmo que um indivíduo não conheça todas as pessoas dessa comunidade, ele se sente parte de algo maior e coeso. O Brasil, com sua população de 200 milhões, é um exemplo claro dessa ideia: mesmo sem conhecer todos os compatriotas, há um imaginário coletivo que conecta seus cidadãos, reforçado por experiências compartilhadas, como assistir a notícias e eventos esportivos.

Nação
Com a declaração da República, o Brasil começa a construir e impor o sentido moderno de nação, seguindo o modelo criado na segunda metade do século XIX. Com o fim do Império, surge a necessidade de criar algo que una os diversos grupos e culturas presentes no país. A língua é uma das ferramentas escolhidas para essa unificação. Antes do conceito moderno de nação, muitos países possuíam múltiplas línguas em seu território, o que era visto como uma característica natural da diversidade.

O governo Vargas, por meio da criação das escolas públicas, utiliza o Hino Nacional como símbolo da ideia imaginária de comunidade. Antes disso, essa unificação era muito mais complicada, em parte porque o sistema educacional estava sob o controle da Igreja. Sem um movimento nacionalista sólido para criar a identidade brasileira, torna-se necessário inventar uma tradição que conecte o presente a um passado imemorial. Esse processo ocorre por meio da música, da literatura e de outros veículos culturais.

Simultaneamente, essa construção cultural enfrenta concorrência das ideologias deterministas e teorias racistas que se propagavam à época. Muitos membros da elite possuíam o desejo de não serem brasileiros e viam os padrões europeus como superiores. Esse contexto coincide com a Belle Époque, em que os valores e estéticas europeias dominavam.

Para unir essa comunidade imaginada, é necessária a criação de símbolos. Assim, surge a República como uma representação nacional, embora sua aceitação tenha sido limitada. Uma nova bandeira é criada para simbolizar a nação, bem como uma nova moeda. Heróis nacionais também são eleitos, como Marechal Deodoro, Tiradentes, Princesa Isabel e Castro Alves.

No livro "Por que me ufano do meu país" (1900), o Conde Afonso Celso descreve motivos para a superioridade do Brasil, mencionando aspectos como grandeza territorial, beleza natural, riqueza, amenidade do clima e a ausência de desastres naturais.

No contexto pós-Proclamação da República, o Brasil carecia de elementos essenciais para formar uma nação e um povo coeso, como soberania econômica, controle efetivo do território, unidade militar e costumes partilhados.

Sertões
Euclides da Cunha, enviado como correspondente para cobrir a Guerra de Canudos, torna-se o primeiro intérprete do Brasil que testemunha de forma prática as realidades que outros estudiosos apenas conheciam de maneira indireta. Em contato com as populações locais, ele se aproxima das pessoas que o Estado via como inimigas, mas que ele reconhece como parte do Brasil profundo.

Em Os Sertões, Euclides da Cunha realiza uma denúncia contundente sobre o massacre ocorrido em Canudos. Ele descreve o sertão como o lar de um povo forte, fruto do cruzamento entre indígenas e europeus. Os sertanejos são representados como um povo mais resistente e vigoroso. Ao longo da obra, Euclides exibe uma ambiguidade evidente, alterando suas percepções e questionando suas próprias ideias. Em última instância, ele identifica o sertanejo como o verdadeiro brasileiro, um povo moldado por 300 anos de isolamento e adversidades. É no sertão, segundo ele, que reside o Brasil autêntico e os verdadeiros brasileiros.

Jeca Tatu
Monteiro Lobato cria a imagem do "Jeca Tatu", representando o caipira brasileiro. Essa figura surge em um momento, após a Primeira Guerra Mundial, em que as influências eurocêntricas começam a perder força no Brasil, abrindo caminho para uma visão mais autônoma e autêntica da identidade nacional. O personagem Jeca é retratado como preguiçoso e apático, mas Lobato revela que sua condição decorre, na verdade, da falta de saúde e recursos. Sua recuperação e valorização passam pela melhora das condições de saúde e pela promoção do esforço próprio.

A qualidade do país, para Lobato, não residia em sua grandeza territorial, mas sim na capacidade de trabalho de seu povo. A figura de Jeca Tatu representa, portanto, uma forma de escapar das teorias deterministas que associavam o brasileiro a uma inferioridade inata. O trabalho, nesse contexto, é uma ferramenta para superar o determinismo e valorizar a nação. A palavra "sanear" é empregada em um sentido mais amplo, referindo-se não apenas ao combate às doenças físicas, mas também à correção de deficiências históricas que impactavam o país.

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