Teoria das Relações Internacionais- Aula 7

A década de 1970 e a interdependência complexa

A partir do início da década de 1970, a dominância dos EUA, após cinquenta anos, começa a cobrar um preço: o preço da hegemonia. A manutenção da ordem internacional passa a se tornar um fardo pesado. Países que haviam sido reconstruídos após a Segunda Guerra Mundial, como o Japão, tornam-se competitivos economicamente. A indústria automobilística americana, um símbolo do poder industrial dos EUA, passa a enfrentar a crescente concorrência da indústria automobilística japonesa.

O fim do padrão-ouro, o desgaste interno causado pela Guerra do Vietnã, as guerras no Oriente Médio e a crise do petróleo resultante desses conflitos desgastaram a dominância dos EUA. A expectativa da população na época era de que a hegemonia americana estava em crise. A pauta do noticiário daquela década deixou de focar na possibilidade de uma guerra nuclear e passou a tratar de questões sociais e energéticas.

As ferramentas realistas utilizadas para compreender as relações internacionais no período tenso da Guerra Fria passaram a ser insuficientes naquele novo contexto. Assim, o neoliberalismo nas relações internacionais surgiu como uma reapropriação da corrente liberal, oferecendo uma nova forma de entender conceitos compatíveis com a realidade da época.

Entre os primeiros autores dessa vertente estão Joseph Nye e Robert Keohane, que apresentaram uma alternativa ao realismo. O objetivo de ambos não era afirmar que o realismo era irrelevante, mas sim destacar que ele explicava apenas parte dos processos que compõem o sistema internacional, negligenciando aspectos importantes. Para teorizar sobre a multiplicidade de possibilidades no cenário internacional, era necessário integrar tanto o realismo quanto suas oposições, reconhecendo que a complexidade internacional reside entre esses dois extremos.

Para o realismo, o sistema internacional é anárquico e descentralizado, onde as unidades se relacionam apenas por meio da distribuição de capacidades, considerando o Estado como o único ator relevante nas análises.

Na década de 1970, o sistema passou a incluir cada vez mais atores não estatais que impactam a geopolítica, como organizações internacionais (OIs), ONGs e multinacionais. Os incentivos desses atores são diversos, tornando o estudo das relações internacionais muito mais complexo. Para entender os Estados e suas ações, era necessário considerar também os atores e pressões internas, além dos atores transnacionais.

As grandes corporações transnacionais tornaram-se fundamentais no contexto dos anos 70, enquanto o realismo falhava em incluir essa parte significativa da análise, continuando a considerar o Estado como o principal ator. As empresas começaram a transnacionalizar sua produção, fabricando diversos produtos em diferentes países, mas mantendo suas marcas associadas ao país de origem. Além disso, as organizações passaram a desempenhar um papel importante no cenário internacional.

Para Keohane, a decisão entre conflito ou cooperação não se limita mais às relações entre Estados, mas se insere em uma rede mais ampla de atores com interesses distintos. Keohane denomina esse processo de "Linkage Politics", onde o sistema internacional é caracterizado por uma interdependência complexa, em contraste com a interdependência simples da anarquia. Em um sistema de interdependência complexa, não há previsibilidade sobre sua configuração.


A filosofia da ciência na década de 70

Essa expansão é positiva pela integração de novas formas de pensamento, mas também apresenta desafios, pois, segundo o positivismo, para uma ciência ser considerada científica, deve basear-se no naturalismo. Para que essas ideias possam se tornar ciência, é necessário analisar empiricamente todas as naturezas desses atores. O debate filosófico sobre o que é ciência é dividido entre três figuras: Popper, Kuhn e Lakatos.


Popper

Popper estabeleceu o princípio da primazia da falsificação. Embora exista um debate importante entre a filosofia continental e a filosofia analítica, que valoriza a lógica e a observação, Popper argumenta que a ciência não avança confirmando hipóteses, mas sim falsificando-as. Ele utiliza o exemplo do "Cisne Negro": inicialmente, todos os cisnes observados eram brancos. Porém, ao se descobrir que existem cisnes negros na Austrália, fica claro que o entendimento não se baseia apenas na confirmação de uma hipótese, mas na busca por evidências que a desafiem.


Kuhn

Kuhn afirma que, do ponto de vista lógico, o que Popper diz faz sentido, mas do ponto de vista prático, a acumulação de conhecimento não ocorre dessa forma. No meio acadêmico, a especialização excessiva leva à análise de fenômenos muito específicos. Quando uma nova hipótese desafia uma hipótese amplamente aceita, a anterior não é abandonada; os especialistas continuam a estudá-la. Apenas análises baseadas em um paradigma amplamente aceito permitem a existência da ciência.


Lakatos

Lakatos argumenta que, mesmo com a discussão de paradigmas concorrentes, a ciência não estagna. Ele sugere que, em um determinado momento, um paradigma pode não ser capaz de explicar novos dados, mas isso não implica estagnação. É possível observar o progresso de um paradigma e compará-lo com novos que surgem, mantendo assim a dinâmica do avanço científico.

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