Teoria das Relações Internacionais- Aula 8

 Liberalismo (Continuação)

Sente-se a necessidade de criar um programa que tente se aproximar daquilo que o realismo está fazendo, retirando do liberalismo o estigma idealista e romântico, e seja capaz de fazer ciência e produzir conhecimento. A primeira grande pesquisa desse novo liberalismo é o estudo da cooperação e harmonia de interesses, redefinindo a ideia de cooperação. A cooperação deve estar ancorada na racionalidade, evitando a ideia de que é um conjunto de concepções que mostram como o mundo pode ser melhor.

Keohane, ao apresentar o problema da cooperação, utiliza o exemplo da "Operação Condor", que integrou as três principais ditaduras da América Latina, onde Brasil, Argentina e Chile cooperaram para perseguir quem fugisse de seus respectivos países. É um exemplo em que o Estado coopera para perseguir seus próprios cidadãos, algo que não pode ser entendido como comum ou aceitável. O foco do liberalismo é estudar justamente esses problemas e métodos da cooperação, não a paz. A paz acontece por meio do engajamento e do benefício obtido por aqueles que cooperam.

Será trabalhado também o conceito de racionalidade e preferência. A racionalidade coloca foco em um ator que o racionalismo pouco conseguia explicar: o Estado. A racionalidade que o liberalismo busca explicar é instrumental, diferente de uma visão determinista, estando ligada à capacidade de lidar com meios e fins. O Estado, para ser uma unidade, precisa ser racional. Toda análise sobre a anarquia internacional precisa entender a relação entre meios e fins. Os Estados, em seus comportamentos objetivos, cooperam ou competem, sendo necessário analisar os fins que se buscam alcançar por meio desses comportamentos. A crítica ao racionalismo vem nessa parte, pois, para os realistas, o fim era sempre o poder, o que para os liberais era um conceito vago.

A pergunta que vai aproximar liberais e realistas é: quais são os meios que os Estados utilizam para atingir seus fins? Realistas e liberais começaram a perceber a necessidade de abrir concessões para que um novo projeto de ciência pudesse surgir, de forma natural, unindo a comunidade acadêmica por meio de um método de investigação, chamado de "síntese neo-neo". Os liberais fazem a concessão do argumento da interdependência complexa, aceitando que o sistema se baseia na anarquia; a segunda concessão é a ideia de que o ator principal é o Estado, sendo necessário analisar o comportamento dos Estados para entender o sistema anárquico.

Numa interação entre atores, existe a racionalidade por ganhos absolutos, que é o que eu tinha ontem x o que eu tenho hoje. Mas, na prática, nem sempre funciona assim, existindo o conceito de ganho relativo, que é o quanto eu ganho comparativamente ao que os outros ganham. Segundo esses autores, a maior parte das ações dos atores é motivada por ganhos relativos. Por exemplo, a ALCA, uma organização de livre comércio das Américas, traria muitos ganhos absolutos para o Brasil com o barateamento de produtos, mas, por outro lado, o Brasil perderia ganhos políticos com uma maior influência americana no país. Ou seja, as perdas relativas seriam maiores do que os ganhos absolutos, razão pela qual o Brasil se opôs à ALCA. O Paraguai, por outro lado, não perderia tanto com uma maior influência americana, pois a disparidade entre ele e os EUA já era muito grande, sendo os ganhos absolutos maiores do que as perdas relativas.

O desafio agora para a academia é mostrar como é possível facilitar a opção por ganhos absolutos. A anarquia é redefinida no debate como uma produtora de incertezas: quanto mais mecanismos e organizações de comunicação entre os Estados, menor se torna essa incerteza, pois os Estados ficam mais cientes das escolhas que estão sendo feitas e de quais são as melhores decisões para ambos. Isso difere da lógica anterior dos realistas, que viam as instituições como mecanismos utilizados pela potência hegemônica como resultado de seus ganhos na distribuição de capacidades. Já os liberais defendem que as organizações são mecanismos nos quais os próprios Estados se inserem para obter maiores ganhos absolutos. A partir do momento em que existe um sistema claro para todos os Estados, também fica mais evidente quais ações os Estados devem tomar para alcançar seus fins

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