Geopolítica- Aula 9

 Therezinha de Castro (Continuação)

Geoestratégia da Amazônia
Therezinha concebe a região amazônica como um subsistema, que assume um papel interno e internacional. Ela defende que a região deve ser ocupada de forma organizada, com um plano de zoneamento ecológico e econômico para a Amazônia, ratificando que o grande desafio da região é de natureza geoestratégica. Ela sugere a colaboração tecno-científica e a neutralização das investidas estrangeiras.

Therezinha aborda a questão da internacionalização da Amazônia, retomando o conceito de cobiça internacional. Isso não significa que não há possibilidade de cooperação internacional, mas que essa deve ser feita com cautela. Através da "geoestratégia do quadrimônio", a autora entende que a Amazônia deve ser colonizada com o objetivo de integrá-la ao restante do país, devendo isso ser feito de forma organizada.

Neocolonialismo Econômico
Ela entende que existem interesses dos países do Norte Global em relação aos países do Sul. Ela constata uma substituição do imperialismo militar pelo neocolonialismo econômico, definido em termos de eixo Norte-Sul. Essa dinâmica seria marcada pela globalização e interdependência político-econômica, refletindo um quadro de políticas estratégicas planetárias hierarquizadas.

Brasil e a Nova Ordem Internacional
Após o fim da Guerra Fria, a disputa Oeste-Leste passa a ser substituída por uma rivalidade Norte-Sul. Há uma imposição de políticas neoliberais aos países em desenvolvimento, um sucateamento da atividade industrial e sua transformação em meros entrepostos comerciais. Também ocorre uma destruição do conceito de Estado Nacional Soberano, com o estabelecimento de soberanias limitadas em áreas de interesse do Primeiro Mundo. A imposição de um Apartheid tecnológico cria uma divisão entre países que produzem e os que não produzem bens tecnológicos. Por fim, há uma desvalorização e sucateamento das forças armadas. Para o Brasil, existem duas linhas operacionais possíveis: seguir o status quo ou adotar um caminho independente.

Bertha Becker

Bertha nasceu no Rio de Janeiro e dedicou sua vida ao estudo da Amazônia, estudando geografia e história e sendo professora emérita da UFRJ.

Principais Conceitos

  • Cientista da Amazônia
  • História da Amazônia
  • Ciência, tecnologia e inovação
  • Cobiça Internacional e a Teoria da Coerção Velada
  • Desenvolvimento Sustentável
  • Geopolítica para a Universidade

Cientista da Amazônia
Becker possuía a Amazônia como sua principal área de pesquisa. No âmbito das Relações Internacionais, seus estudos permitem enxergar a Amazônia como uma fronteira de capital natural, considerando a escala sul-americana. A fronteira amazônica oferece amplas oportunidades para a expansão territorial do capital, despertando ambição pelo potencial econômico e pela manutenção do equilíbrio climático.

História da Amazônia
Becker afirma que as estratégias de controle do território e os produtos extrativos da Amazônia sempre marcaram a história da região. Ela define essa exploração em três grandes períodos:

  1. Formação territorial (1616-1930): expansão do território português além da linha de Tordesilhas.
  2. Planejamento regional (1930-1985): aceleração do processo de ocupação da Amazônia, marcado pela "Marcha para o Oeste", com políticas como povoamento, construção da Transamazônica, implementação de rodovias e criação da Zona Franca de Manaus.
  3. Incógnita do Heartland (1985-): esgotamento do projeto nacional de desenvolvimento e da intervenção do Estado na economia e no território.

Ciência, Tecnologia e Inovação
Becker defende que a tecnologia deve ser implementada na região amazônica. A partir do aperfeiçoamento tecnológico, é possível obter melhor informação e observação sobre a Amazônia. Ao mesmo tempo, é essencial debater o desenvolvimento sustentável da região, evitando explorações predatórias, já que há um grande potencial biotecnológico.

Cobiça Internacional e a Teoria da Coerção Velada
No início do século XXI, a biotecnologia ganha valorização, e a cobiça por essa área se manifesta por meio da intervenção de grandes potências na Amazônia, com a instalação de operações em países da América Latina. A teoria da Coerção Velada é essencial para compreender os anseios geográficos das potências, que muitas vezes mascaram suas intenções por meio de tentativas de internacionalização. Embora haja interesses ambientais, também há interesses econômicos. Cabe ao Estado brasileiro integrar as áreas remotas situadas em zonas de fronteira e defender a soberania territorial.

Desenvolvimento Sustentável da Amazônia
Para Becker, a economia do conhecimento da natureza oferece benefícios sociais mais elevados do que a agropecuária atualmente dominante na região, como na área de medicamentos. As atividades econômicas voltadas para a valorização da biodiversidade têm o potencial de gerar inovação e benefícios para as comunidades tradicionais. A floresta deve ser pensada como um novo modelo de desenvolvimento sustentável com base na ciência e tecnologia. O fortalecimento das populações tradicionais também é essencial para manter a floresta em pé.

Geopolítica para a Universidade
Ela defende o resgate do estudo da Geopolítica nas universidades civis, sendo a primeira do meio acadêmico a estudar a área, e argumenta que é essencial, mas que deve ser refinada.

Geopolítica e Autoritarismo?
Segundo Vesentini, os geopolíticos brasileiros dos anos 1920-1980 tinham um projeto geopolítico para o Brasil que buscava a modernização. Entretanto, a academia brasileira estigmatizou a geopolítica como autoritária e fascista.

Geopolítica e Projeto Nacional
Paradoxalmente, foi somente após a instauração do regime militar que a academia passou a compreender a geopolítica como um instrumento teórico necessário para a compreensão dos novos centros de poder. É necessário desmistificar o caráter negativo que a Geopolítica adquiriu ao longo do século XX.

Novas Teorias Geopolíticas
As principais mudanças na Geopolítica internacional no final do século XX são o fim da Guerra Fria e seus efeitos. As novas teorias são:

  1. Teoria do Desafio e Resposta: construída por Toynbee, que afirma que os Estados só se desenvolvem ao enfrentar desafios, sendo a facilidade a inimiga da civilização.
  2. Teoria do Poder Perceptível: desenvolvida pelo coronel estadunidense Ray S. Cline, que sintetiza o poder perceptível em uma fórmula, utilizando métricas que formam o poder não apenas de fazer a guerra, mas de impor sua vontade.
  3. Teoria dos Blocos: proposta por Jacques Brochard, afirma que os principais blocos seriam baseados em uma moeda-líder, como o bloco das Américas lastreado no dólar dos EUA.
  4. Teoria dos Limes: formulada por Jean Rufin, sugere que as fronteiras mudariam do eixo Oeste-Leste para o Norte-Sul, representando uma linha onde as forças do Norte impediriam as "forças bárbaras" de penetrar o Norte, usando a força se necessário.
  5. Teoria da Incerteza: criada por Lellouche, considera uma desordem pós-Guerra Fria devido a incertezas e prevê eventos futuros como revoluções, crises, fome, imigração, distúrbios raciais, ameaças nucleares, rearmamento do Japão, etc.
  6. Teoria da Tríade: sistematizada pelo Clube de Roma e pela Comissão Trilateral, propõe três blocos principais: americano, europeu e asiático, sob influência dos EUA.
  7. Teoria do Imperialismo: formulada por Lenin, define o imperialismo como um fenômeno do desenvolvimento capitalista, com características como centralização, fusão do capital bancário e industrial, exportação de capitais e partilha do mundo pelas grandes potências.
  8. Teoria do Sistema-Mundo: inspirada em Marx, prioriza a estrutura macroeconômica global e a divisão Norte-Sul, classificando as regiões em centro, semiperiferia e periferia.
  9. Teoria da Geopolítica Crítica: influenciada por Henri Lefebvre, propõe uma visão da Geopolítica que considera atores além do Estado, reconhecendo a influência ocidental e divisões internas entre geopolítica prática, formal e popular.
  10. Teoria do Fim da História: concebida por Francis Fukuyama, entende que com a queda da URSS, o liberalismo e o capitalismo triunfaram, encerrando os grandes conflitos históricos.
  11. Teoria do Choque de Civilizações: elaborada por Samuel Huntington, propõe que futuros conflitos serão baseados em fatores culturais e divide o mundo em nove civilizações, sugerindo que a paz depende da não-interferência entre elas.
  12. Teoria do Quaterno: elaborada por Roberto Mafra, é uma extensão da teoria da Tríade, incluindo o bloco sul-americano, com o Brasil como protagonista dessa região.

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