Macroeconomia- Aula 9
Economia Feminista
A teoria feminista vai influenciar a economia dentro da lógica da economia como ciência social aplicada. Vai ser aplicado algo que era produzido dentro das ciências sociais para a área econômica.
Antecedentes
1792: Mary Wollstonecraft
O primeiro relato de uma teoria feminista foi por meio de Mary Wollstonecraft, através de panfletos reivindicando direitos femininos. Ela fez isso ao perceber que os direitos pedidos durante a Revolução Francesa eram exclusivos aos homens e não abrangiam as mulheres. O panfleto das reivindicações dos direitos das mulheres mostrava o que as mulheres precisavam ter nesse contexto histórico, inclusive o pedido ao direito à educação, dentro do contexto da valorização do Iluminismo.
1949: Simone de Beauvoir
No contexto do século XX, há a luta pelo direito à participação política feminina. Depois, nos anos 30 e 40, surge a demanda por direitos básicos e de libertação feminina. Simone de Beauvoir vai produzir dentro desse contexto a ideia de que a mulher é sempre o "segundo sexo". O que o homem não faz ou não pode fazer é atribuído à mulher, como se fosse um polo positivo e um polo negativo. Para ela, não se nasce mulher, se torna mulher. Assim começa a diferenciação entre sexo e gênero, sendo sexo algo de nascimento e biológico, enquanto gênero está relacionado à construção dos papéis sociais que aquele indivíduo vai ter na sociedade.
1988: Carole Pateman, "O Contrato Sexual"
Enquanto o homem tem o papel de sair e ganhar renda, a mulher acaba tendo o papel de cuidar do lar. Os contratualistas tinham a teoria de que uma unidade superior, o Estado, era formada pela vontade popular de não viver em um Estado de Natureza, por meio de um contrato social. Carole Pateman vai dizer que, para existir um contrato social, deve haver um contrato sexual, já que, para os homens lutarem por seus direitos políticos, era necessário o trabalho doméstico feminino para suprir as necessidades desse homem. É a partir disso que vai ser utilizada, por feministas posteriores, a lógica do feminismo na economia.
Fundamentos da Economia Feminista
As teóricas do feminismo vão dizer que é impossível tratar a ciência econômica apenas pelo lado do cálculo, pois isso só trata da questão monetária e não aborda a opressão dos sexos. Os conceitos da economia são conceitos masculinizados, desde Aristóteles até Adam Smith, com o homo economicus, que é o homem que toma decisões inteligentes no mercado, mercado esse que as mulheres não alcançavam na época.
A economia, em grande parte, era baseada na moeda, ignorando o lado não monetário, que está associado à área da sustentabilidade.
Dentro das teóricas feministas econômicas dos anos 80, pode-se dividir em dois eixos principais de pesquisa: a Conciliação e a Ruptura.
A) Conciliação: Elas não negam a economia tradicional, apenas acreditam que ela deve ser adaptada e incluir a perspectiva de gênero.
B) Ruptura: Estas acreditam que não é possível um estudo de economia feminista sem romper com as teorias anteriores, sendo necessária a criação de uma nova teoria e uma nova forma de análise.
Debate Central
Muitas das economistas feministas partem da análise do trabalho doméstico não remunerado. A própria lógica das "bruxas" da Idade Média era de que as mulheres não podiam fazer trabalhos fora do meio doméstico ou tentar se equiparar aos homens, sendo rechaçadas. Desde a Idade Média, forçava-se as mulheres a ficarem no meio doméstico, o que não era considerado trabalho por não ter renda, sendo não contabilizado.
Existem algumas horas do seu dia que são direcionadas ao trabalho remunerado e ao trabalho doméstico. Uma parte dessas horas está associada ao sono e ao autocuidado. Outra parte está relacionada ao transporte e outra ao lazer. Se você é uma mulher, ainda é responsável pelo trabalho doméstico, o que diminui suas horas de autocuidado e lazer. Isso é chamado de trade-off, o custo de oportunidade.
O trabalho doméstico, por exemplo, era conhecido até pouco tempo como "trabalho do lar", o que, de certa forma, invisibiliza a importância dessa atividade ou não a considera um trabalho de fato.
Fenômenos associados
Desigualdade de salários: De acordo com dados da OCDE, as mulheres podem receber cerca de 30% a menos do que os homens exercendo os mesmos cargos. Pensando do ponto de vista do lucro, o argumento para essa diferença seria, por exemplo, que os gastos de empresas com garantias laborais em casos de gravidez seriam maiores do que os dos homens, se ambos ganhassem o mesmo salário. Isso não se sustenta porque o mercado não é neutro, sendo sempre regido por algum tipo de direcionamento subjetivo que gera desigualdades.
Segregação no mercado de trabalho: Está ligada aos papéis sociais, não só a uma questão de qualificação. Homens e mulheres seriam considerados diferentes em suas capacidades e, por conta disso, são direcionados pelo próprio mercado a profissões distintas. Questões como a associação das mulheres à emoção seriam o suficiente, de acordo com esse pensamento, para guiá-las a trabalhos relacionados ao cuidado, como a enfermagem. Da mesma forma, a força é uma característica associada à figura masculina e, nesse sentido, se associa a trabalhos como o da polícia.
Barreiras à promoção: Podem ser consideradas barreiras como, por exemplo, relações de confiança ou preferência entre aqueles em cargos mais altos e mais baixos. Isso se liga, de certa forma, à divisão sexual no trabalho, uma vez que é comum que homens promovam outros homens para posições de maior prestígio, embora haja mulheres que tenham a mesma capacitação.
Interseccionalidade: Interseção entre classe, raça e sexo. Embora sejam contabilizadas de forma distinta, entre mulheres podem haver diferenças nas relações laborais ou sociais. Uma mulher negra não tem as mesmas oportunidades ou benefícios de uma mulher branca, ainda que exerçam o mesmo cargo. Essas interações são distintas, mesmo que as categorias sejam gerais.
Impacto das políticas macroeconômicas
Ajuste fiscal: É feito, normalmente, a partir do corte de gastos. Isso ocorre principalmente com setores sociais, o que gera um impacto nas mulheres que pode ser maior do que nos homens. Serviços de cuidado estão inseridos, por exemplo.
Desemprego: Afeta diferentemente homens e mulheres. Se homens estão em situação de desemprego, existe uma possibilidade maior de ocorrer denúncias de violência doméstica, já que seu papel social de provedor é subvertido, o que gera estresse que é direcionado para o seu exterior. Mulheres podem ser afetadas de outras formas. O papel social da mulher é associado à reprodução, então um aborto espontâneo pode gerar o mesmo tipo de reação por parte dela pela quebra da sua expectativa.
Indicadores sociais: A inclusão de gênero em indicadores sociais deve ocorrer para abranger mais a sociedade como um todo. Impactos sobre crises são diferentes para homens e mulheres, como afirmado anteriormente pela perspectiva da divisão de sexos. A Agenda 2030 pretende fazer isso.
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