Teoria das Relações Internacionais- Aula 9
Marxismo
Características do Marxismo
A maior parte das teorias de RI aborda o Estado como principal agente. O Marxismo se diferencia disso, sendo difícil encaixá-lo como uma teoria da área. O que é fundamental para Marx é que, para entender os conflitos na sociedade, é necessário entender como essa sociedade se organiza para produzir. Para ele, todas as outras questões, como a política e a natureza do Estado, são análises superficiais.
Organizações humanas na História
O capitalismo, para ele, é parte de uma história. Existe um sentido para a história na visão do marxismo clássico, ela tem um caminho. Para entender essa trajetória, é preciso analisar como os processos produtivos se desenvolvem.
O nomadismo era algo muito característico da humanidade antes do sedentarismo. As sociedades não tinham propriedades nem herança; a necessidade de acumular riqueza era diferente, não fazia sentido acumular algo que era facilmente degradável e não transportável.
A partir do momento em que se começa a domesticar animais e plantas, cria-se uma capacidade da sociedade crescer de uma maneira muito maior. Isso faz com que haja a necessidade de um sistema de hierarquia mais complexo, pois, numa comunidade pequena, todos se conheciam; já nessa nova sociedade sedentária, não.
Relação entre produtividade e exploração
Quando o homem passa a ser sedentário, é necessário que haja a divisão de trabalho, o que cria uma hierarquia política e uma divisão de poder. Quem está mais no topo da hierarquia política se aproveita de mais recursos. A desigualdade é, então, inevitável, e quem está no topo ganha uma fatia maior do que é produzido.
Em algum momento, essa sociedade vai crescer tanto que a capacidade tecnológica dela de produzir não será o suficiente, o que gerará conflitos e a necessidade de conseguir mais recursos por meio de um novo sistema de distribuição.
A Singularidade do Capitalismo
O que acontece no século XVIII, na Europa, é similar: a explosão do aumento populacional cria a necessidade de um novo sistema que possibilite uma melhor forma de distribuição de recursos, surgindo o capitalismo.
Marx, embora crítico do capitalismo, é um entusiasta das possibilidades que esse novo sistema traz, como o enorme salto tecnológico que acarreta o maior aumento de produtividade da história humana.
Entretanto, o processo de barateamento da produtividade industrial acaba tirando o valor econômico e de importância do indivíduo, que faz um trabalho não especializado que pode ser facilmente substituído.
Para ele, cada mudança na forma de produtividade acarretava em um sistema que aumentava cada vez mais a desigualdade entre quem possui o poder hierárquico e quem não possui.
O capitalismo, para ele, é um sistema que consegue produzir mais do que é necessário para alimentar a população, o que para Marx é algo único na história. Para ele, essa era a última revolução, pois o mundo não precisava mais se organizar à luz da escassez, pois não havia mais escassez para justificar a criação de um novo sistema mais desigual.
O Capital Não Respeita Fronteiras
Marx escreve seu manifesto em 1848, em uma época em que ocorriam as primeiras revoltas dos povos, onde as massas questionavam o sistema de Estado implantado após 1815, quando as burguesias assumiram o poder.
Na primeira metade do século XIX, haverá a criação de monopólios e a expansão das empresas em um novo sistema colonialista, conseguido pelo capital político e bancário dessas empresas. Para ele, a única forma de o proletariado desafiar essa dominação era por meio de sindicatos organizados, assim surge a Primeira Internacional.
Em 1871, ocorre a Comuna de Paris, onde a burguesia francesa perde para a Prússia e se rende, mas o proletariado francês não se rende e permanece lutando contra os prussianos na Guerra Franco-Prussiana. A burguesia se une com a Prússia para derrotar esse levante, que acaba derrotado em pouco tempo. Para Marx, não bastavam levantes pequenos e pontuais; era necessária uma maior coordenação a nível global.
Os Papéis do Estado
Para ele, o Estado não é ator; é uma ferramenta de outro ator, descrito à luz da forma como aquela sociedade se organiza, que, no contexto capitalista, é a burguesia.
O Estado serve para proteger o capitalismo do próprio capitalista. A ideia de que o capitalismo sobrevive de livre-iniciativa é uma ideologia. Na realidade, ele precisa de uma crescente margem de lucro à margem de todos os outros, o que pode gerar uma crise que pode destruir todo o capitalismo, e é aí que o Estado surge para evitar que isso aconteça.
O segundo papel do Estado é servir como uma ferramenta para a burguesia se expandir, como por meio do colonialismo e da guerra com outras nações por interesses privados.
A Segunda Internacional e a I Guerra Mundial
A Segunda Internacional dos Trabalhadores foi ativa no momento em que a Primeira Guerra Mundial começou. A Grande Guerra era algo esperado, uma guerra tão grande que fosse capaz de internacionalizar o movimento operário. Entretanto, não foi o que aconteceu, e o proletário de uma nação se viu motivado a enfrentar o proletário de outra nação, movido pelo mesmo motivo: o nacionalismo. O nacionalismo sai vitorioso da guerra ideológica contra a tentativa de internacionalização do comunismo. O terceiro papel do Estado nesse contexto era dividir o proletariado, permitindo dar estabilidade ao capitalismo enquanto sistema.
Lenin e a Teoria do Imperialismo
Lenin escreve a Teoria do Imperialismo no exato momento em que a Primeira Guerra Mundial está acontecendo. O internacionalismo acaba sendo uma forma da Inglaterra abortar uma possível crise de superprodução que estava a caminho. Para que o capitalismo se expanda, é necessário que o imperialismo cresça, mas chega um momento em que não há mais terra para conquistar, e passam a surgir forças políticas que resistem ao capitalismo nessas fronteiras coloniais. Há uma divisão entre países centrais, que exploram, e a periferia, que é explorada. Para Lenin, explorar a capacidade dessas fronteiras era uma forma de vencer o capitalismo.
Depois da II Guerra Mundial, os EUA conseguem fazer algo que nem a Inglaterra havia conseguido: transformar a classe operária em uma classe consumidora, estimulando o consumo interno. A transformação do proletariado em classe consumidora o desmotiva a engajar em qualquer tentativa de acabar com esse sistema.
Teorias Marxistas das Relações Internacionais
Teoria da Dependência
A Teoria da Dependência permite uma crítica do liberalismo clássico que é muito forte, pois este tem uma inconsistência empírica e material. À luz das teorias ricardianas de vantagem comparativa, os países centrais estimulam os países periféricos a se tornarem exportadores de produtos primários para baratear seus custos. A teoria da dependência afirma que, quando um país se especializa em commodities, é necessária uma quantidade cada vez maior de produto primário para comprar produtos de valor agregado, gerando uma deterioração dos termos de troca.
A Teoria do Sistema-Mundo
A partir do momento em que os países centrais passam a terceirizar sua cadeia produtiva para países de terceiro mundo, há um barateamento da produção de produtos de valor agregado. Assim, o principal valor desses produtos passa a ser a propriedade intelectual. Se há o controle da patente, há um controle do valor no preço final.
A questão é que toda vez que um país periférico tenta imitar o sistema dos países centrais, esses países centrais se reorganizam para manter o predomínio do valor no comércio internacional, mudando o sistema. Foi isso oque ocorreu nesse novo sistema.
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