Teoria das Relações Internacionais- Aula 10
As críticas ao realismo
O realismo, desde que foi criado, tende a se manter constantemente relevante, com períodos de baixa. Na década de 70, as críticas que ele vai passar são muito diferentes das críticas dos anos 90, que são relacionadas ao fim da Guerra Fria. A crítica é sobre até que ponto o realismo consegue explicar os outros problemas do cenário internacional. Tanto as teorias liberais quanto as marxistas vão começar a vender suas ideias a partir disso.
As críticas dos anos 90 ocorrem quando o realismo se percebe incapaz de explicar aquilo que ele foi construído para explicar, que é a mudança dos diferenciais de poder. Segundo a teoria de ciclo hegemônico, um período de crise de uma potência tende a gerar uma instabilidade. O que acontece com a queda da URSS é uma queda sem que haja uma instabilidade no sistema, algo que o realismo não estava preparado para explicar: não era possível uma potência cair sem gritar. Isso gera um ceticismo em relação ao realismo, que é incapaz de explicar isso. A teoria de que a bipolaridade trazia uma estabilidade maior e duradoura no cenário internacional durante décadas ou séculos se mostrou falsa. Não só o realismo, como a própria disciplina de RI, foram colocadas em xeque.
As teorias que se transformaram como as mais relevantes para descrever as transformações do sistema internacional não vinham mais das Relações Internacionais; elas vieram de sociólogos, como Fukuyama e Huntington.
Huntington e Fukuyama
Fukuyama escreveu o livro ''O Fim da História e o Último Homem''. Para ele, a transição dos sistemas políticos é advinda de uma dialética entre organizações, é uma disputa de ideias. Para ele, a democracia liberal venceu esses debates dialéticos e ideológicos, sem que haja um concorrente à altura. A democracia liberal se coloca como o limite da capacidade histórica, de onde as sociedades conseguem alcançar. Elas estão além da história, e quem ainda não alcançou precisa evoluir para alcançar essa democracia.
Para Huntington, a democracia liberal se consolidou dentro da civilização ocidental, de onde se criou um conceito de superioridade dessa forma de organização como maior evolução humana. Isso é um problema, pois, se as disputas eram entre Estados nacionais, agora a disputa vai ser entre a civilização ocidental contra os outros projetos de civilização não ocidental, o que diminui a capacidade de conciliação entre as partes, já que, para ambos, a vitória significa a derrota do outro lado. Isso tenderia a fazer um sistema internacional mais violento que o anterior.
Wolhfort e o realismo depois da Guerra Fria
William Wolhfort vai mostrar que, apesar do realismo estar fraco, não existe motivo para acreditar que ele vai falir, defendendo o realismo como uma ferramenta de explicação das relações internacionais. Ele vai tentar mostrar como as premissas do realismo conseguem explicar melhor o que acontece depois que a Guerra Fria acaba.
Anomalia do Evento
Wolhfort vai tentar demonstrar que todos os sistemas estão sujeitos à incidência de anomalias. Portanto, o evento anômalo em si não é sinal para invalidar a teoria por completo. Mesmo que você tenha leis gerais, isso não significa que se é capaz de prever todos os eventos futuros.
A priori e a posteriori
A ideia de Wolhfort é que existe uma ciência a priori e a posteriori. A priori são eventos que são capazes de se prever; ciências maduras como física e matemática são muito a priori. O conhecimento a posteriori é o conhecimento após o fato; é tentar explicar por que um evento passado aconteceu da maneira como aconteceu. Essa diferença é importante porque o objetivo de toda ciência é ser capaz de ser a priori, mas não é algo que é feito de qualquer jeito, leva tempo. Uma ciência que está em estados iniciais é capaz de produzir mais conhecimento a posteriori. As Relações Internacionais não são uma ciência madura nesse sentido, principalmente pelo pouco tempo que tem de existência. Portanto, não faz sentido exigir tanto dela, sendo seu principal modelo a posteriori. Isso é capaz de mitigar grande parte das críticas feitas ao realismo no contexto do fim da Guerra Fria.
Competição com os concorrentes
Não se aceita ou rejeita uma teoria por não explicar algo, mas sim se aceita um outro conjunto que consiga explicar os eventos do passado, algo que não é possível, pois nenhum evento conseguiu explicar adequadamente.
Para além do Realismo Estrutural
Para Wolhfort, não é porque o realismo de Waltz não foi capaz de explicar o fim da Guerra Fria que o realismo deva ser rechaçado, pois há outras teorias dentro dessa corrente. Assim, ele recorre a Morgenthau. O primeiro ponto é sobre equilíbrio de poder, que, para Morgenthau, era uma função da percepção do tomador de decisão da distribuição das capacidades, ou seja, a percepção de quem toma a decisão é importante. O poder é um produto de uma combinação de variáveis materiais e imateriais através da percepção.
Análise de Wolhfort
Polaridade x Hegemonia
Não há nada no fim da Guerra Fria e da dissolução da URSS que o realismo não seja capaz de explicar. O importante é analisar as diferentes percepções de poder dos EUA e da URSS. Os EUA após a Segunda Guerra representam e divulgam a percepção da incompatibilidade das duas ideologias, mas a percepção dentro da URSS não era um entendimento de bipolaridade, mas sim de contra-hegemon. Ela sai da Segunda Guerra evoluindo sua posição de relação de poder em relação aos EUA, construindo um papel hegemônico.
A Potência Declinante
O peso dessa construção fica cada vez mais pesado, devido à sua reconstrução que acontece concomitante, com os EUA não necessitando o mesmo. Os próprios Estados Unidos passam a pagar um preço por esses altos investimentos dos anos 60. Na perspectiva soviética, os EUA nos anos 70 já estava declinando de forma rápida. Entretanto, a URSS passava a declinar de forma abrupta, a tal ponto que na década de 90 ela já está numa distância muito grande na relação de poder com os EUA. Por essa razão, os soviéticos passam a priorizar acordos com os EUA quando ainda têm algum nível de poder. Na sua queda, a URSS já não tinha qualquer capacidade de se mostrar contra-hegemônica aos EUA.
O declínio da URSS, entretanto, não causa uma instabilidade no agente. O principal ponto é explicar o porquê de isso não acontecer. É importante, assim, analisar a alta cúpula do partido comunista para entender as decisões que são tomadas. Existia, principalmente nos anos 70, um conjunto de autoridades que acreditava que a tendência das crises do capitalismo era serem cada vez mais profundas. Nesse sentido, tomar atitudes mais agressivas era pior do que "segurar as barras", aproveitando uma janela de oportunidade que se criaria nessa crise do capitalismo para se tornar a força hegemônica sem haver a necessidade de grande conflito.
Correntes do Realismo Contemporâneo
Aquilo que era o realismo nos anos 70 vai se desdobrar em três hipóteses do realismo: o realismo defensivo, ofensivo e neoclássico:
- Realismo defensivo: é uma reinterpretação da forma como funcionava o realismo de Waltz. Na década de 90, não dava para propor um realismo que só queria explicar como a estrutura funciona; é necessário falar do Estado e seus comportamentos. A racionalidade dos Estados é marcada pela maximização de sua sobrevivência no cenário anárquico. Isso faz os Estados evitarem riscos desnecessários, sendo o comportamento resultante a defesa do status quo. Por isso, as mudanças demoram no cenário internacional e, num cenário de instabilidade, é necessário fazer escolhas de preservação própria.
- Realismo ofensivo: não se olha para os Estados como se fossem todos iguais. As potências tomam preferências, por isso é importante olhar para essas potências para entender o comportamento das menores. As potências não são avessas aos riscos; elas maximizam seu poder, não a sobrevivência. As potências maximizam seu poder porque, na lógica de competição entre as potências, todo poder que você deixa de usar vai ser usado contra você no futuro.
- Realismo neoclássico: ambos os realismos anteriores estabelecem uma relação entre causa e efeito. O realismo neoclássico vai mostrar que, se as teorias das relações internacionais fossem dessa forma, ou seja, se a anarquia fizesse os Estados se comportarem de uma forma linear, todos os Estados teriam que se comportar da mesma forma, o que não acontece. Muitos países abrem mão de seu poder em diversas formas e tomam atitudes diferentes no cenário internacional. Isso acontece porque, entre a variável independente (que é a anarquia) e a variável dependente (que é o comportamento), existe a variável interveniente, que vai depender de um outro conjunto de fatores contextuais, se relacionando com fatores geográficos, culturais, políticos, demográficos, entre outros. Esses fatores influenciam como o Estado reage no cenário internacional.
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