História dos Grandes Conflitos- Aula 2
A Guerra de Secessão dos EUA (1861-1865)
A Revolução Francesa e a Guerra Moderna
A partir da Revolução Francesa, o modo de se fazer e preparar uma guerra mudou. Ela trouxe a novidade de convocar e armar a população civil em massa para participar de um conflito. A segunda novidade foi a disputa entre e por regimes antagônicos. Esses dois pontos caracterizam as guerras modernas.
As Diferenças Internas dos EUA e o Caminho até a Secessão
No século XIX, de 1861 a 1865, nos Estados Unidos vai ocorrer uma guerra civil conhecida como Guerra de Secessão. A lógica da guerra moderna iniciada na França vai se desenvolver drasticamente nos EUA.
Os EUA se tornam independentes por meio de uma guerra de independência em 1776. Os EUA eram divididos em 13 colônias, que demoraram 3 anos para se formar como um país, onde no sul imperava a mão de obra escrava e no norte um modelo mais industrializado. Nesse tempo, foi elaborada a constituição, o modelo federativo, a moeda, etc. Demorou mais 2 anos para se produzir a Bill of Rights, que é o conjunto de normas que vai regrar a nação que estava surgindo.
Se pode ver dessa maneira que havia muitas diferenças internas nesse território, onde eles só se uniram para serem livres do Reino Unido. O Sul se recusou a abolir seu modelo escravista, por sua economia depender muito, em especial do algodão que era exportado para a indústria têxtil do Reino Unido. Era uma economia focada na exportação, muito pouco integrada aos outros estados americanos escravistas, exportando para os estados do norte e para a Europa.
A Frágil União e o Sistema Político dos EUA
O nome "união/unidos" no nome dos Estados Unidos da América do Norte significava uma tentativa de conexão entre os Estados. O que manteve esse frágil equilíbrio de pé foram alguns acordos na área política. Havia 3 partidos políticos, onde os estados podiam decidir dentro de seus estados a forma de eleger seus representantes de forma colegiada. O Acordo da União era de que a cada 4 anos seria eleito por revezamento um sulista e um nortista.
O norte havia abolido a escravidão e priorizado investir nas pequenas indústrias com mão de obra assalariada. A maior parte dos movimentos abolicionistas que defendiam o fim da escravidão no sul eram advindos do norte.
Expansão Territorial e Conflitos com Povos Indígenas
Neste equilíbrio frágil, o que unia os estados era a guerra. Agora não mais seria apenas contra a Inglaterra, mas para expandir os territórios dos EUA, ao sul e ao oeste, tomando colônias e territórios da Espanha, França, México, entre outros. Os estados eram unidos por esse ideal comum, de se unir pela guerra para se expandir territorialmente. De 1810 a 1840, os EUA promovem 3 grandes guerras contra o México, onde saíram vitoriosos, tomando estes territórios. O que eles não conquistaram pela guerra, foi comprado, como a Louisiana e o Alasca. Existe durante esse período um único exército que contava com generais tanto do sul quanto do norte.
Uma outra causa que unia os norte-americanos era a expansão e extermínio dos povos indígenas na marcha para o Oeste. Anteriormente existiam a oeste apenas bases militares, com poucos povoamentos. A Marcha para o Oeste incentiva a colonização desses territórios despovoados por norte-americanos por meio da guerra contra tribos. O grande problema dessas novas terras é a indecisão dos estados do sul e do norte sobre o que seria feito com essas terras e qual seria o modelo econômico escolhido. Concomitantemente a essas disputas políticas, é elaborada uma lei chamada Lei dos Escravos Fugidos, onde se um escravo fosse para um território nortista, o dono de escravo poderia, por meio do exército, adentrar o território do norte para capturar escravizados. Isso gerou uma grande desaprovação dos estados do norte. A lei é passada, mas as disputas vão ficando mais intensas.
A Eleição de Lincoln e o Início da Secessão
O republicano Abraham Lincoln é eleito presidente dos EUA em 1860. Ele era um advogado que escrevia livros que foram publicados, onde nesses textos demonstrava uma rejeição à escravidão de um ponto de vista ético. Ele, entretanto, não era um "abolicionista", defendendo a abolição não imediata, mas de forma gradual, que não atacasse os interesses do Sul, e com indenização aos donos de escravos. Já fazia 30 anos que a Inglaterra havia proibido o tráfico de escravos, portanto, o abolicionismo já era grande naquela época.
Para um sulista, o fim da escravidão, gradual ou não, era a pior coisa que poderia acontecer. No anúncio da candidatura de Lincoln, o estado da Carolina do Norte anunciou que sairia da União se este fosse eleito. Quando Lincoln se elege, a Carolina do Norte se torna o primeiro país a fazer secessão com Washington. No período de 3 meses, 17 estados decretaram sua secessão, elaboraram uma constituição própria, a constituição dos Estados Confederados, e saíram da União. A partir disso, eles decidem que, antes que a abolição aconteça, eles vão invadir e tomar a capital dos EUA e impedir que uma revolução aconteça.
União vs. Confederação: O Início da Guerra
A partir de 1861, os EUA são divididos na União, com os estados do norte, e a Confederação, com os estados do sul. Diversas revoltas escravistas haviam acontecido no mundo até aquele momento, embora nenhuma estivesse acontecendo naquela época, a mera possibilidade de uma abolição já era um medo grande o suficiente para alertar os estados do sul. Não havia ainda uma revolução nos EUA, mas se antecipou a secessão como uma forma de evitar que uma revolução sequer se iniciasse, era, portanto, um movimento contrarrevolucionário.
As Vantagens e Desvantagens Estratégicas de Norte e Sul
A maioria de todas as batalhas da guerra ocorreram no território do Sul, o que dava uma vantagem aos confederados por conhecimento de terreno, e os melhores generais eram também do Sul, o que dava uma vantagem de maior domínio da tática de guerra. Em compensação, o norte não tinha seu território prejudicado na guerra, possuía uma indústria mais evoluída, podendo converter esta para os esforços de guerra, e as linhas ferroviárias eram também de propriedade das companhias do norte e em sua maioria não circulavam em território confederado.
O norte também possuía uma vantagem estratégica pela sua rede de telégrafos e pela sua indústria de armas, diferente do Sul que exportava grande parte de seu armamento da Europa e não possuía uma rede de comunicação tão rápida.
Mudanças no Papel do Executivo
As empresas que controlavam a rede telegráfica e das linhas ferroviárias eram privadas. O Estado da União, para obter prioridade no acesso a esses meios, vendeu títulos de dívida pública em troca do uso desses meios. Isso legitima que o Estado, em certos momentos, como em guerras, tenha maior poder sobre a economia e o poder do executivo vai se sobressair em relação aos outros. O Estado vai, nesse momento, fazer o alistamento obrigatório, censurar os veículos de imprensa e aplicar a lei marcial, que é o estado de exceção, tudo legitimado para a contribuição dos esforços de guerra.
Em todas as guerras a partir de então vai ocorrer os mesmos fenômenos do executivo se sobrepor aos direitos individuais, como na Primeira Guerra, Segunda Guerra, Guerra do Vietnã e Guerra ao Terror.
Indústria Geral e de Armas
O norte dos EUA tinha uma indústria de armas já desenvolvida. Décadas antes, Samuel Colt havia inventado uma arma pequena que se recarregava pelo tambor, chamada revólver, e inventou também um fuzil de retrocarga. Samuel Colt se torna um dos primeiros milionários nos EUA vendendo armas aos Estados Unidos nas guerras anteriores. Os franceses haviam inventado a munição Minie, que era cilíndrica e rajada. Junto com o fuzil de retrocarga, as armas podiam se recarregar muito mais rápido e se tornaram muito mais mortais do que os antigos mosquetes.
Uma guerra, entretanto, não se faz apenas com armas, se precisa de alimentos, hospitais de campanha, vestimenta, etc. Outros setores da indústria começaram a se adaptar às necessidades da guerra. Setores como a indústria têxtil vão produzir uniformes militares, botas, uniformes médicos, etc. Indústrias alimentícias vão começar a produzir comidas enlatadas para a guerra. Todas as indústrias vão começar a produzir direcionado à guerra, se convertendo em indústria de guerra.
Legados Econômicos e Industriais da Guerra
Após o fim da guerra, muitos produtos inventados e aperfeiçoados para a guerra pelas indústrias se adaptaram a uma realidade sem conflito e passaram a ser vendidos também. Se lança um padrão e uma tendência de ganhos econômicos por meio do desenvolvimento tecnológico, econômico e industrial trazido pela guerra em épocas de paz, que vai se seguir nas décadas seguintes.
Os confederados, mesmo com a vantagem das táticas, não possuíam a maior vantagem que a União possuía: logística de guerra. O que se tornou mais importante e decisivo em uma guerra a partir de então é o que está acontecendo por trás dela, na economia, na política, ou seja, na organização da guerra.
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