Política Externa Brasileira- Aula 1
Habitus Diplomaticus: A Formação e a Singularidade do Corpo Diplomático Brasileiro
A diplomacia brasileira, historicamente, constitui um corpo altamente hierarquizado, com normas e rituais próprios, distinto tanto do restante da burocracia estatal quanto do mundo social em geral. Essa insularidade não é recente — remonta à própria formação do Itamaraty como espaço simbólico e político da elite nacional. No passado, os diplomatas brasileiros eram profundamente ligados à nobreza e à aristocracia, formando uma espécie de “elite da elite” dentro do serviço público.
A consolidação dessa distinção ocorreu sobretudo com o Barão do Rio Branco, figura central na história da política externa brasileira. Ao assumir o comando do Ministério das Relações Exteriores, ele instituiu não apenas uma política externa de longo prazo, mas também um mito fundacional da diplomacia brasileira. Para o Barão, o diplomata não era um simples funcionário público — ele afirmava que um diplomata valia por cem homens. Seu prestígio era tanto que chegou a residir no próprio Palácio do Itamaraty, reforçando a associação entre o espaço físico e o poder simbólico do corpo diplomático.
Nesse período, os diplomatas operavam majoritariamente por meio de contatos sociais, e muitos acordos internacionais eram costurados em jantares, recepções e bailes. A forma de ver e representar o Brasil nesses encontros era marcada por uma perspectiva elitista, muitas vezes afrancesada, refletindo os valores e os costumes das camadas mais altas da sociedade brasileira. Além do corpo diplomático propriamente dito, havia ainda o serviço consular, encarregado da burocracia cotidiana, mas com menor prestígio.
Para alcançar os cargos mais elevados da diplomacia, como o de embaixador, era fundamental possuir uma formação refinada, boas maneiras, capital econômico e origem familiar privilegiada. A diplomacia era, antes de tudo, um espaço de distinção, onde a nobreza de espírito e de sangue se confundiam com o mérito.
Itamaraty e as Forças Armadas: Heranças Coloniais e Patronagem
Assim como as Forças Armadas, o Itamaraty trazia marcas profundas do período colonial. O ingresso e ascensão dentro da carreira eram marcados não apenas pelo mérito formal, mas também pela patronagem e pelo favorecimento a membros da aristocracia. O prestígio simbólico e o capital social eram, muitas vezes, mais determinantes do que o capital cultural propriamente dito.
A República e a Reafirmação da Velha Elite
Com a Proclamação da República, esperava-se uma aproximação maior entre o Brasil e as demais repúblicas sul-americanas, bem como o reconhecimento do novo regime pelos Estados Unidos. No entanto, a demora do reconhecimento estadunidense expôs a força dos laços com a monarquia recém-deposta. A substituição dos aristocratas por novos republicanos não trouxe os resultados esperados. Muitos dos quadros recém-empossados não tinham o mesmo capital simbólico nem a mesma habilidade diplomática, o que levou à revalorização da velha guarda aristocrática. O retorno do Barão do Rio Branco ao comando da política externa marcou essa reabilitação simbólica da monarquia no seio do Estado republicano.
A Reforma Vargas: DASP, IRBr e a Seleção do Novo Corpo Diplomático
Durante o governo Vargas, a burocracia estatal foi profundamente reorganizada. A criação do Departamento Administrativo do Serviço Público (DASP) visava a racionalizar a seleção de quadros técnicos, inclusive no Itamaraty. Em 1945, fundou-se o Instituto Rio Branco, com o objetivo de formar os novos diplomatas aprovados por concurso público.
Mesmo com os concursos, os critérios de seleção permaneciam marcados por elementos excludentes. Era comum que a cor da pele, a aparência física e os hábitos culturais — especialmente a adoção de costumes afrancesados — influenciassem a avaliação dos candidatos. A maioria dos aprovados continuava a ser homens brancos, oriundos de famílias abastadas da elite urbana.
Dados sociológicos mostram que, até a década de 1980, 43% dos diplomatas vinham do estado do Rio de Janeiro, 34% eram filhos de profissionais liberais e 12% filhos de diplomatas. A formação prévia em Direito era dominante, e muitos haviam estudado em escolas privadas de elite, especialmente na zona sul do Rio de Janeiro.
Hierarquia, Estilo de Vida e Regras Sociais
Dentro do Instituto Rio Branco, a hierarquia era reforçada pela distinção dos primeiros colocados nas turmas, os quais tinham acesso a cargos mais prestigiados. Até certo momento, o processo seletivo incluía entrevistas eliminatórias, que funcionavam como barreiras para candidatos fora do ciclo elitista. A retirada desse critério contribuiu, ainda que timidamente, para a diversificação do corpo diplomático.
Além da formação técnica, esperava-se dos diplomatas uma conduta social impecável. O casamento era muitas vezes visto como uma extensão da vida profissional, e a fronteira entre o público e o privado era bastante tênue. Um comportamento pessoal inadequado podia prejudicar não apenas a carreira individual, mas a imagem do próprio Ministério.
Diplomatas como Intelectuais
Historicamente, os diplomatas brasileiros também atuaram como importantes formuladores do pensamento político e internacional do país. Antes da institucionalização dos estudos em Relações Internacionais, muitos dos principais textos sobre política externa foram escritos por diplomatas. Joaquim Nabuco é um exemplo notável dessa geração de políticos-intelectuais.
Na década de 1960, com a consolidação do Instituto Rio Branco, passou a ser comum a presença de diplomatas com formação artística ou literária, que conciliavam a carreira diplomática com a produção intelectual. Embora tenha havido uma tentativa de equivaler o curso do Instituto a um mestrado, o Ministério da Educação recusou a proposta.
Hoje, é comum que ex-diplomatas sigam carreira acadêmica, contribuindo significativamente para a produção de conhecimento sobre a política externa brasileira. Suas vivências no exterior e sua formação dentro do Itamaraty tornam-se recursos valiosos na interpretação do lugar do Brasil no mundo.
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