Política Externa Brasileira- Aula 2

Constituição do campo de estudos de análise de políticas externas

A constituição do campo de estudos de análise de políticas externas foi formada nos EUA na década de 1950. A ciência política nasceu na década de 1920 nos EUA como uma ciência aplicada, como um estudo de como o país receberia politicamente os imigrantes que já tinham e estavam vindo ao país.

O campo de estudos da política externa surge numa época em que a ciência comportamental estava em alta, o chamado behaviorismo. O primeiro livro que vai abordar e pensar o Estado dentro do cenário internacional vai ser o "Decision Making as an Approach to the Study of International Politics" (1954), por David Easton. O foco era no processo decisório.

David Easton tinha o conceito de sistema político, olhando para ele como uma máquina. Havia já a ideia de que a tecnologia, que cada vez mais evoluía, teria um grande impacto nas ciências humanas. A ideia era de que o Estado era uma máquina, onde existem demandas que surgem da sociedade, com o legislativo encaminhando-as ao executivo que vai processá-las e entregá-las, na forma de política pública e leis.

Os autores pensavam que seria possível, por meio dos computadores, criar um grande programa de análise de dados na política externa. Um dos maiores problemas é que os computadores da época não eram tão avançados a ponto de conseguir fazer essa comparação e análise de dados da forma que se desejava. O grande banco de dados que eles possuíam não auxiliava na análise multivariada.

O livro "A Essência da Decisão", escrito por Allison em 1971, aborda a crise dos mísseis, identificando que houve uma série de problemas na cadeia de tomada de decisão. O governo executivo americano havia percebido os riscos de escalar a guerra e tentou desescalar o conflito, o que exigia a coordenação de todos os setores. Quando o governo Kennedy decidiu desescalar o conflito e cancelar o envio da frota americana a Cuba, estes já haviam partido, sendo necessária grande coordenação com o setor militar para recuar.

O livro "Perception and Misperception in International Politics", lançado em 1976 por Jervis, aborda uma análise social, analisando fatores como carisma de líder, propaganda, valores sociais, vontade popular, etc. A falta de comunicação entre os Estados dificultava muito a tomada de decisões, sendo uma determinada visão de outro país muito influenciada pela ideologia de um determinado ator. Uma determinada visão ideológica e negativa de um outro ator, como diplomatas, poderia afetar como o país recebia e interpretava as informações de fora, afetando como as decisões são feitas.

As teorias de médio alcance vão se desenvolvendo e vão ter importância até o pós-Guerra Fria. No século XXI, vai-se analisar a política externa como política pública, algo que era comum em outros países como os EUA, mas não em outros como o Brasil, onde as decisões sempre foram muito isoladas. No Brasil, muito se tinha preso no Itamaraty a análise e o fazer da política externa; entretanto, vai-se compreender a divisão das duas partes: explanandum era a política externa, e o explanans era a análise da política externa. Portanto, a análise que os acadêmicos faziam da política externa era importante e válida de ser considerada.

A maior parte da análise e dos estudos da política externa até a década de 90 eram estudos e metodologias anglo-saxãs. Muitos autores no século XXI vão criticar essa característica da disciplina e trazer uma perspectiva crítica e latino-americana. A Teoria da Dependência, por exemplo, muito desenvolvida no Brasil, ajuda a compreender de forma muito mais precisa as questões do Sul Global.


Escopo e Abordagens da Análise de Política Externa

Com o aumento do crescimento dos estudos sobre política externa nos anos 90, muitos autores vão abordar áreas que não eram faladas nas abordagens anteriores. Vai haver um foco na análise dos múltiplos atores e seus processos decisórios. Por exemplo, o processo de decisão da política externa na Ditadura Militar era extremamente centralizado na figura do presidente Geisel e no Conselho de Segurança Nacional. A política externa brasileira foi muito independente dos EUA durante essa época, a exemplo do reconhecimento da independência de Angola e aproximação com o mundo islâmico.

O aumento da produção de conhecimento no Brasil está muito ligado à abertura democrática do país e ao grande interesse da academia gerado pela crença de que o Brasil seria uma nova potência.

A análise de política externa geralmente é historicamente focada no processo decisório dos Estados. A análise por múltiplos fatores é a integração de atores não-estatais no processo de análise de política externa. Quanto mais democrático um país, mais pessoas conseguem participar na política externa.

Atores não-estatais passam a ter cada vez mais importância no cenário internacional, e fica cada vez mais difícil separar o que é interno, externo, agente de política externa ou não, como grupos ambientais, indígenas, etc.


Abordagens Teóricas da Análise de Política Externa

Diferentes níveis de análise vão ser feitos, abordando diferentes assuntos a nível sistêmico, estatal ou individual. Algumas teorias focam mais em um nível ou em outro.

Realismo

Vai focar muito no poder, nos atores unitários (Estados) e nos interesses nacionais. Esta abordagem enfatiza a racionalidade dos Estados na busca por segurança e poder dentro do sistema internacional anárquico.

Liberalismo

O foco de análise do Liberalismo é muito mais focado nos indivíduos e pouco nos atores estatais. Temas como a cooperação, instituições internacionais e normas vão ser priorizadas. A crença na produção de normas e a mudança delas no sistema internacional é amparada muito no liberalismo.

Acreditava-se que mudanças estruturais na área das relações internacionais só aconteciam por meio de guerras. Entretanto, o fim da Guerra Fria não aconteceu por meio de um conflito e gerou uma mudança estrutural no sistema. O liberalismo vai defender, nesse contexto, que os valores democráticos são capazes de evitar conflitos e guerras entre atores democráticos.

Construtivismo

Ganhando muita relevância no início dos anos 2000, ele vai dizer que identidades não são fixas e são importantes na análise de política externa. Trabalham na análise da construção social da realidade e de que muitas vezes os discursos de caráter estatal têm importância e são muitas vezes descolados da realidade. Vai analisar essa interação agente-estrutura, mostrando como normas e identidades são socialmente construídas e influenciam o comportamento dos Estados.


Abordagens Críticas

Algumas outras abordagens críticas vão se desenvolver, analisando por uma lente de análise hierárquica. A abordagem feminista vai analisar a hierarquia de gênero nas relações internacionais, questionando estruturas de poder patriarcais. A abordagem pós-colonialista vai analisar a hierarquia entre Estados (ex-colonizados e ex-colonizadores), destacando assimetrias de poder herdadas do colonialismo. O pós-estruturalismo examina como discursos e linguagem constroem realidades políticas. Elas vêm de teorias sociais, mas são utilizadas para pensar as questões internacionais de forma crítica.

 

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