Teoria das Relações Internacionais II- Aula 2

LAPID e o 3o Debate

Teorias de RI no século XX

1ª metade - diagnóstico da crise europeia
No contexto do pós-guerra nos anos 90, ha um esvaziamento do pensamento crítico no ocidente na área de Teoria de RI, com uma percepção de que não ha mais um debate ideológico. Há uma vitória do liberalismo e um enfraquecimento do marxismo. Uma tese muito importante vai ganhar força que é representado pelo livro "fim da ideologia", escrito no fim dos anos 60 por Daniel Bell. Segundo ele, o liberalismo acabou com a perspectiva de que você precisa de ferramentas para pensar no futuro, se valendo apenas as perspectivas individuais. Todas as matrizes de ideologia são irrelevantes, o verdadeiro vencedor da Guerra Fria para ele é o liberalismo. 

Com uma tentativa de resgatar o pensamento crítico e responder isso, vai surgir, em especial na França, um movimento que vai olhar menos para as contradições econômicos e mais para a cultura. É uma nova gramática das relações internacionais que vai olhar para coisas como identidade, lugar de fala, é partir daí que surge manifestações sociais, produtos advindos deste movimento. É um novo movimento de esquerda. 

2ª metade - EUA, positivismo e acumulação de conhecimento
Para Yosef Lapid, é importante entender o papel que a ciência cumpre no estudo das relações internacionais. É necessário distinguir as hipóteses adequadas e inadequadas no estudo da ciência. Para ele, as Relações Internacionais nunca tiveram um consenso filosófico dentro da disciplina de como a ciência tem que tomar lugar, isso faz com que a ciência não tenha um caráter explicativo, mas disciplinadora. É uma ferramenta de exclusão de linhas de pensamento em detrimento da narrativa que você considera a correta. Morgenthau, um dos primeiros téoricos de ri, era em grande parte tradicionalista, que via como certas tradições vão fazer você ter a melhor análise do mundo comtemporaneo, não existe validade positivista ainda, mas está linha teórica tem uma importância ao separar oque é e não é ciência.

Nos anos 90, é usando essa ética de abertura que as Teorias da RI vão se tornar pós-positivista. O positivismo valida certas formas de se ver o cenário internacional e invalida outras, como ele se torna incapaz de explicar os problemas que o mundo traz a época, como as ferramentas do positivismo não explicam mais essas mudanças, a única forma de atualizar as teorias de RI é superar essa barreira que é imposta pelo positivismo, admitindo que ele não consegue avançar o conhecimento através de uma ideia de acumulação de conhecimento, abrindo mão disso para uma nova ideia de múltiplas formas de se produzir conhecimento. 

As crises da disciplina

O Positivismo tentava encontrar um denominador comum entre todos os problemas que surgiam, se acreditava que toda acumulação de conhecimento com base em uma linha acadêmica comum traria uma melhor análise do cenário internacional. Entretanto, esta ética ignora o fato de que as Relações Internacionais nunca tiveram um papel explicativo, mas disciplinador, nesse processo se marginalizava coisas com as quais não se entendia. Essa promessa de que colocar todo mundo na mesma produção de conhecimento avança a ciência é falha e equivocada, e é necessário uma matriz intelectual que não tende a assimilar tudo de uma vez. É uma ética de diversidade das formas do mundo. 

As relações internacionais na medida que passaram a insistir nesse modelo positivista, foram criando ferramentas que assimilavam cada vez mais ideias que a faziam sua capacidade de explicação ser cada vez menor. As Teorias de RI no início tentava-se criar um diagnóstico para um problema que o cenário internacional estava passando e um prognóstico de como se consertar isso. Nos anos 60 as Teorias de RI busca ser mais próxima do positivismo, com um método científico, buscando dar credibilidade para essa área acadêmica, buscando explicar relações de poder. Essas ideias se mostram cada vez mais incapazes de responder os problemas globais nos anos 70, por ter focado muito na relação de poder inter-estatal, problemas como crise do petróleo, fim do padrão-ouro, questões com as quais as teorias de ri não estavam preparadas. 

De uma teoria sistêmica para uma ferramenta empírica
Passa a se resgatar o liberalismo como uma linha teórica séria, que reduz as teorias da ri para analise do cenario internacional a uma análise de ganhos absolutos e ganhos relativos, em um sistema de ganhos. As Teorias de RI, ao chegar nesse ponto, perde a capacidade teórica e passa a ter uma natureza empírica, de observação, as tentativas de explicação da natureza do cenário internacional são abandonadas e dão lugar um caráter de observação e hipótese. No final dos anos 80, se chega a um momento em que ao tentar assimilar todo mundo, ela perde capacidade de realmente explicar os problemas do mundo.

Keohane e o reflexismo
É nesse contexto que Keohane vai apresentar o reflexivismo, em que a única forma de atualizar as teorias de ri era unir tudo oque racionalismo ja produziu a outras linhas antes abastadas e convidar o marxismo ao participar da produção acadêmica dentro do modelo de produção positivista. Basicamente o marxismo deveria se adaptar na acumulação de conhecimento em uma base comum para contribuir com o conhecimento científico. A ética dessa produção de conhecimento é a mesma, a de que acumular conhecimento traz progresso científico. Todos esses movimentos até esse momento passaram por essa ética de produção positivista. 

O fim da guerra fria e a crise das utopias

É importante voltar no tempo, e analisar o nascimento das ideias que ganhariam força nos anos 90, tendo origem dentro do contexto do pós-segunda guerra. O debate existente era de que com o fim da segunda guerra mundial e com o aumento da capacidade do capitalismo em tornar a classe trabalhadora em classe consumidora, o pensamento crítico fica carente de um projeto, de uma Utopia. Para quem está tentando pensar o futuro, no progresso, o capitalismo americano se mostra como uma vitória dentro desse contexto. Quando você está em um mundo fragmentado, as contradições e problemas do mundo são de responsabilidade do indivíduo, tanto a possibilidade de se transformar como de lidar com o sofrimento, não da sociedade. O Liberalismo acaba com as ideologias, pois em um mundo onde há tanta capacidade material, não ha necessidade de buscar um mundo novo. Por causa desses fatores que existe um problema em movimentos de mudanças sociais ganharem força (se você ta mal a culpa é sua). 

Uma ética de diversidade e da autenticidade
Alguns setores da esquerda americana vão tentar montar um novo conjunto de categorias para pensar essa nova realidade, é onde nasce a nova esquerda. Eles ganham força ao focar na identidade, ao prestar atenção nas particularidades das experiências com as quais um grupo de pessoas compartilha, assim se cria vínculos de soliedariedade comuns. Isso não significa que não exista uma esquerda associada ao marxismo, apenas de que um novo projeto de esquerda amparada na identidade surgiu. Surge uma atitude intelectual de valorização da multiplicidade de visões de mundo, se analizando como o mundo oferece insegurança de forma diferente a indivíduos. 

O problema da ciência

A crítica de Yosef Lapid as teorias de RI não era do conhecimento, mas da ciência, de que só existia uma ciência. A ciência coordena dois conceitos muito importantes, o conceito epistemologico do universo que esta sendo observado e como você vai avaliar esse universo. Sem um conseso sobre o objeto observado e do método de verificação, não há ciência. As Teorias das Relações Internacionais nunca tiveram esse consenso de fato em sua história. Uma vez que esse conceito não existe, a ciência das RI cumpriu o papel de disciplinar a validade do conhecimento dos outros, oque está presente desde a origem das Teorias da RI, como Morgenthau e Carr, segregando oque era e não era ciência. Quando o positivismo e o behaviorismo surgem na teoria de ri, esse conceito disciplinador aumenta ainda mais, em especial nos EUA. 

A ciência da Teoria de RI sempre foi excludente, excludente até um ponto que era óbvio demais para ser ignorado. Não se pode fazer um novo processo de assimilação como oque o reflexivismo tentou fazer. A promessa dessa ética positivista já está esgotada, e é necessário encontrar uma nova ferramenta. E é na identidade, na multiplicidade de visões de mundo que vai se encontrar essa nova ferramenta.

Esse trabalho surge como uma resposta ao trabalho de Keohane. Para ele, oque vai organizar esse debate é o paradigmatismo, se abrindo mão da ideia de generalização universal da produção de um conhecimento (no positivismo a validade de um conhecimento era dada pela aceitação universal deste). O segundo ponto que vai marcar esse debate é o perspectivismo, vai ter que se parar de olhar para mensuração das hipóteses e olhar para as premissas teorias dos argumentos, para entender as potencialidades e limitações de uma ideia é necessário entender sua compatibilidade com outras teorias semelhantes. O último ponto é o relativismo, é a ideia de que você precisa aceitar a pluralidade de conhecimentos que expliquem de formas diferentes realidade. 

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