Formação Econômica do Brasil- Aula 3

Ciclo do Ouro

Expansão marítima portuguesa e colonização

Portugal foi o pioneiro na exploração marítima, começando com a colonização dos Açores, criando entrepostos na África, chegando ao Brasil, atravessando o Cabo da Boa Esperança e alcançando a Índia. Concomitantemente, a Espanha iniciou suas explorações, sendo, ao lado de Portugal, uma das maiores potências daquele momento.

Portugal, em seu modelo de feitorias, criou entrepostos na África onde comercializava escravos e outros bens por armas. Em suas viagens, buscava estabelecer feitorias ou modelos de exploração que pudessem ser comercializados no mercado europeu. Nas Américas, contudo, Portugal estabeleceu uma colonização efetiva, e não apenas entrepostos. Segundo Caio Prado Jr., o modelo predominante de colonização no território português foi o de exploração, diferente das colônias de povoamento do território inglês.

Na América do Norte, onde reinou o modelo de povoamento, como não foram encontrados minérios, as famílias migraram devido a perseguições religiosas na Europa e estabeleceram agriculturas de subsistência. No modelo de exploração adotado no Brasil, quem migrava da metrópole para a colônia eram aqueles com condições de investir em um modelo econômico produtivo voltado à exportação. A commodity adotada no Brasil foi o açúcar, com mão de obra indígena e africana, dada a falta de interesse dos portugueses em vir ao Brasil.

A presença holandesa e os impactos na economia açucareira

Os holandeses, depois de serem expulsos do território brasileiro, levaram o modelo econômico e social para o Caribe, organizando sociedades voltadas à exportação de commodities com mão de obra escravizada, como o açúcar e o tabaco. O tráfico negreiro se expandiu para a América Central. Um dos impactos foi o surgimento de um mercado concorrente para o açúcar português, o que fez com que o preço dessa commodity passasse a flutuar conforme instabilidades climáticas, geopolíticas, pragas e variações de oferta. Isso tornava os lucros das lavouras de açúcar irregulares.

O açúcar permaneceu, durante todo o período colonial, como uma importante commodity, o que desafia a lógica de “ciclos econômicos”, pois sua significância variava, mas nunca desaparecia. Inicialmente, quase a totalidade das exportações vinha do açúcar, até que o ouro passou a compor parte significativa da economia.

A produção açucareira era uma atividade de alto investimento em capital fixo — ou seja, eram necessários altos investimentos para viabilizar a produção. Capital fixo refere-se ao investimento em bens duradouros (como engenhos), enquanto capital circulante diz respeito à matéria-prima que se transforma em mercadoria para gerar lucro.

Colonização como rede de enclaves e a busca por metais preciosos

Segundo Luiz Felipe de Alencastro, a colonização brasileira era formada sobretudo por enclaves na costa atlântica que tinham pouco contato entre si, conectando-se mais com a África do que entre si.

Portugal ainda nutria o "sonho" de encontrar metais preciosos no Brasil, muito em função do sucesso espanhol com a prata nos Andes. Durante a União Ibérica, diversas incursões — chamadas bandeiras — foram feitas no interior do continente por agentes privados em busca de indígenas e metais preciosos.

A prata nos Andes e a economia-mundo

Do lado espanhol, a descoberta de prata nos Andes interessava à Coroa, dada sua abundância. A prata permitia à Espanha negociar com países asiáticos, que não se interessavam pelas mercadorias europeias, mas valorizavam a prata como meio de troca.

Segundo Celso Furtado, isso levou à desestimulação da produção manufatureira na Espanha. Para ele, países ricos investem na produção de itens manufaturados com valor agregado, enquanto países pobres concentram-se na exportação de produtos primários. Esse mesmo padrão seria observado no Brasil com a descoberta de ouro.

Descoberta do ouro no Brasil e seus efeitos

O ouro foi descoberto pelos bandeirantes no final do século XVII em Minas Gerais. Tratava-se de ouro de aluvião, encontrado nas margens dos rios e extraído com ferramentas simples, como a bateia. Isso gerou uma atividade econômica de altos rendimentos com baixos investimentos em capital fixo, acessível a qualquer pessoa.

Como não havia cunhagem de moedas no Brasil, o ouro teve enorme impacto: era portátil, valioso e passou a circular como meio de pagamento. A imigração portuguesa aumentou significativamente, com cerca de 10 a 12 mil pessoas por ano vindo para o Brasil — muitas delas comuns, e não nobres. O setor agrícola também investiu na mineração, promovendo diversificação econômica.

Desorganização, interdependência regional e produção voltada ao mercado interno

A região das minas cresceu de forma desorganizada, com muitos homens livres e escassa estrutura. As terras ao redor das minas não eram controladas pela Coroa e não havia produção agrícola suficiente para a população local. Isso levou à conexão entre diferentes regiões do Brasil, redirecionando produções como couro, charque e mandioca, antes voltadas à exportação, para o abastecimento interno. As rotas eram precárias, mas criavam interdependência.

Controle imperial e criação da Intendência das Minas

A Coroa portuguesa buscava controlar essa nova atividade econômica, estabelecendo regras e leis rigorosas, mas enfrentava dificuldades por não ter representação efetiva na região. Em 1702, foi criada a Intendência das Minas, ligada diretamente à Coroa, com funções de tributação e punição.

A Coroa evitava elevar povoamentos à condição de vila para não lhes conceder autonomia. Criou o imposto do quinto, cobrando 20% de todo o ouro extraído. Diversas fraudes e desvios ocorriam.

Todo o ouro deveria passar por uma casa oficial, onde era fundido em barras e tributado. As barras não podiam ser livremente comercializadas, apenas por bancos portugueses autorizados, que pagavam abaixo do valor de mercado. A Coroa construiu estradas para escoar o ouro ao litoral e exportá-lo com segurança.

Transformações sociais e econômicas

Nesse período, houve maior mobilidade social, interiorização do povoamento e integração econômica entre regiões. O modelo aurífero gerou transformações significativas na sociedade colonial.

Tratado de Methuen e as consequências econômicas

Em 1703, Portugal assinou com o Reino Unido o Tratado de Methuen, comprometendo-se a reduzir tarifas sobre tecidos ingleses, enquanto os ingleses fariam o mesmo com o vinho português. Portugal, temendo intervenções francesas e espanholas, aceitou cláusulas militares no acordo.

Segundo Celso Furtado, a entrada de tecidos britânicos desestimulou o surgimento de uma indústria têxtil portuguesa e criou um déficit comercial coberto com o ouro extraído do Brasil. Ele vê nesse momento uma explicação para o enfraquecimento estrutural da economia portuguesa e para a dificuldade de industrialização futura.

Declínio do ouro e revoltas coloniais

Com o declínio da produção aurífera, a Coroa aumentou os impostos, gerando crescente insatisfação entre os colonos. A Inconfidência Mineira, em 1788, foi expressão dessa insatisfação com a política fiscal portuguesa.

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