História dos Grandes Conflitos- Aula 3

A Guerra Civil dos EUA (1861–1865) – Parte 2

A Segunda Revolução Industrial foi dominada pela máquina a vapor e pela siderurgia. A introdução de novas técnicas produtivas movidas por máquinas cada vez mais sofisticadas levou a um grande aumento de produtividade, inclusive no setor militar. A primeira guerra moderna que é atravessada por essa segunda fase da Revolução Industrial é a Guerra Civil Americana.

Guerra e Regimes Políticos
Do ponto de vista político, o embate entre forças nas guerras modernas não ocorre apenas por rivalidades tradicionais, mas também pelo choque entre regimes políticos antagônicos. Isso surge nas guerras das Revoluções Francesas como objetivo de guerra: a destruição do regime político do inimigo.

A União venceu a guerra ao final do conflito, graças à superioridade na capacidade de sustentação do conflito por meio de sua logística. O mais importante de se observar nessa guerra é que o fator mais decisivo ocorreu fora do campo de batalha.

Guerra Total
A Guerra Civil confirma uma tendência de um modelo de guerra que surge na Revolução Francesa: o conceito de Guerra Total. Esse conceito afirma que, para vencer uma guerra, não bastam apenas os recursos tradicionais, mas é necessário mobilizar toda a sociedade, a política, a indústria — todo o país como um todo — e todas as capacidades humanas e materiais, com o objetivo de destruição total do inimigo.

No final de 1864, a guerra já tinha durado três anos e cerca de 600 a 800 mil pessoas haviam morrido, o que representava cerca de 8% da população total do país. Nunca havia se visto uma matança tão grande na época. Grande parte das vítimas morreu em decorrência de doenças e condições de saúde precárias.

Durante o primeiro ano de guerra, quem estava vencendo eram os Confederados, graças às vantagens táticas e de terreno. Quando se percebeu que a guerra duraria mais, a capacidade de mobilização do Norte começou a ser mais decisiva. A partir de 1862, a União começou a ter vantagens na guerra. A União decidiu, nos últimos anos do conflito, mobilizar todos os seus recursos em uma operação de aniquilação contra o Sul. No cerco contra a importante cidade de Atlanta, toda a infraestrutura e os recursos foram destruídos, e todas as barbáries foram permitidas, sendo a cidade inteira arrasada no processo.

O importante a se observar nesse cerco é a aplicação direta do principal conceito da Guerra Total: a mobilização de todos os recursos materiais, sociais, humanos e políticos para a destruição e aniquilação de um objetivo em uma operação militar.

Abolição como Estratégia de Guerra
Pelo fato de a guerra moderna ter a característica de contrapor regimes políticos — no caso da Guerra Civil, um regime escravista contra outro não escravista —, a abolição da escravatura em 1863 significou não apenas uma lei, mas uma estratégia efetiva de guerra e de dominação social. Já que a guerra era total, sem diálogo, tornou-se necessário destruir a escravidão do outro lado.

O presidente Lincoln tentou negociar previamente com os Confederados sobre a abolição. No momento da guerra, estratégias políticas se tornaram estratégias de guerra, e a abolição decretada por Lincoln teve o sentido de acabar com as bases da escravidão, que era o modelo de regime do Sul.

O escravo era visto como um instrumento de trabalho, pertencente a uma pessoa dona da terra onde se produzia. No momento da abolição, ao libertar o escravo, libertavam-se também os meios de produção dessas terras — que não passaram a pertencer ao ex-escravo. A principal fonte de riqueza dos sulistas era o escravo e a terra.

Foi estabelecida, por meio da lei de julho de 1862, a Lei do Confisco, segundo a qual todas as conquistas de território escravista pela União durante a guerra seriam confiscadas, sendo essas terras vendidas para fins produtivos. Ou seja, os ex-escravos não tinham recursos para conseguir esses territórios. Em 1863, apenas um ano após essa lei, a escravidão foi abolida — justamente para que a pessoa escravizada não tivesse direito sobre a terra na qual trabalhou. Portanto, havia uma política de dominação social na transição produtiva no processo de abolição que buscava evitar insurreições.

Paralelo com o Brasil
De forma similar, no Brasil, a Lei Eusébio de Queirós, que proibiu o comércio de escravos, foi aprovada no mesmo ano da criação da Lei de Terras, em 1850. Esta impedia a obtenção de terras por grupos marginalizados, numa estratégia também de dominação social.

Segregação e Extremismo no Pós-Guerra
Inicialmente, os negros libertos possuíam certa liberdade econômica e política no país. Entretanto, a partir da década de 1870, começaram a ser promulgadas, nos estados do Sul, uma série de leis e decisões judiciais que passaram a restringir cada vez mais a liberdade dos negros americanos, criando uma segregação social e racial que persistiria até 1965. Esse conjunto de leis estaduais e federais ficou conhecido como Leis de Jim Crow.

Na mesma região do Sul, a Ku Klux Klan — um grupo extremista racista americano — foi formada menos de um ano após o fim da guerra. Comumente, o fim de uma guerra com envolvimento americano abre as portas para o surgimento de ideologias e grupos extremistas nos EUA.

Logística da Guerra
A Guerra Civil demonstra que a logística da guerra se mostra muito mais decisiva do que a tática de guerra. A "Arte da Guerra", ou seja, a dominância das táticas no conflito, sempre foi considerada a característica mais importante em uma guerra — até esse momento histórico. Em um cenário com armas tão mortíferas, derivadas da Revolução Industrial, não havia tática capaz de decidir uma guerra puramente no embate.

A Logística de Guerra é o abastecimento feito por meio dos bastidores do conflito, envolvendo o campo estratégico. A tática ainda é importante; entretanto, é o suporte logístico adequado que garante o material necessário para que a tática obtenha êxito.

Foi a União que dominou os meios de transporte, de comunicação, de produção e as estruturas sociais, o que permitiu a soberania logística do Norte. Tudo isso se decide fora do campo de batalha: é na política, na economia e nos campos sociais onde a logística é feita.

Nem sempre a logística será superior. A tendência é que a maior capacidade logística conceda vantagem a um dos lados e garanta a vitória — entretanto, nem sempre isso acontece. O maior exemplo que marca essa transição e contradição da soberania logística é a Guerra do Vietnã. 

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