Política Externa Brasileira- Aula 5
Um Saquarema no Itamaraty
O Barão do Rio Branco ocupa uma posição singular no panteão nacional brasileiro. Diferente de outras figuras históricas que dividem opiniões, Rio Branco conquistou uma unanimidade rara, sendo celebrado tanto por monarquistas quanto por republicanos.
Sua trajetória representa uma ponte entre dois momentos históricos do Brasil: formado na tradição política squarema do Imopério, serviu com lealdade à República, trazendo consigo as virtudes cívicas do antigo regime. Como guardião da integridade territorial brasileira, consolidou as fronteiras nacionais e elevou o prestígio internacional do país.
Este texto explora o pensamento política do Barão do Rio Branco, sua formação intelectual e o modo como adaptou sua visão saquarema aos desafios da política externa republica.
A Formação de um Estadista Imperial
- Aprendizado Familiar: Desde o nascimento, Rio Branco esteve imerso na cultura política saquarema, convivendo com os amigos do pai- todos próceres do regime monárquico: Paraná, Uruguai, Caxias, Cotegipe, Eusébio, São Vicente e Itaboraí.
- Visão de Mundo: Com eles, aprendeu a ver o Brasil pelas lentes de um nacionalismo realista, quase egeliano, enxergando o país como um império territorial destinado à grandeza.
- Primeiros Trabalhos: seu gosto pela história e geografia desenvolveu-se à sombra do trabalho do pai, com o objetivo de perpetuar a glória política e militar do Estado brasileiro:
- Impacto da República: O Advento da república federativa constituiu ''o golpe mais rude que meu pai sofreu em toda a existência'', segundo seu filho.
O Pensamento Político Saquarema
O pensamento saquarema, que moldou a formação de Rio Branco, contrastava com o projeto luzia, que defendia um modelo republicano, federativo, cosmopolita e sociocêntrico. Essa dualidade marcou a história política brasileira em um movimento pendular que persiste até hoje.
- Monarquia Constitucional: Defesa do regime monárquico como garantia de estabilidade e unidade nacional
- Integridade Territorial: Preservação do território como base da identidade imperial brasileira
- Estado Centralizado: Primazia do Estado sobre a sociedade civil e o mercado
- Nacionalismo Pragmático: Política externa baseada na defesa dos interesses nacionais
- Ordem e autoridade: Valorização da ordem como condição para o progresso
A Política Externa do Barão
- Defesa Territorial: Conclusão do processo de delimitação das fronteiras do Brasil, garantindo a integridade do território nacional através de negociações diplomáticas.
- Aproximação com os EUA: Estabelecimento de uma relação privilegiada com Washington como meio de recuperar a hegemonia brasileira no subcontinente e proteger o país de ameaças europeias.
- Equilíbrio Regional: Contenção ds aspirações hegemônicas da Argentina através de alianças estratégicas como o Tratado do ABC (Argentina, Brasil, Chile)
- Prestígio Internacional: Projeção da imagem do Brasil como um ''gigante benevolente'', pacífico e defensor do direito internacional, disfarçando à fraqueza militar do país.
Realismo ou Idealismo?
- Visão Realista: Alguns internacionalistas como Alexandra de Mello e Silva e Letícia Pinheiro, qualificam a política de Rio Branco como ''realista'', baseada no cálculo pragmático de poder e na defesa dos interesses nacionais. ''Rio Branco guardava uma concepção realista das relações internacionais, vistas como arena na competição anárquica entre estados soberanos'''.
- Visão Racionalista: Gustavo Sénechal de Goffredo Jr. destaca os aspectos ''racionalistas'' da política do barão, enfatizando sua valorização do direito internacional e da cooperação entre nações. ''Há uma evidente tensão, ou ambiguidade, na forma como Paranhos percebe a importância das articulações no contexto multilateral.''
- Visão Idealista: Comtemporâneos como Pedro Lessa e José Enrique Rodó viam Rio Branco como um idealista, defensor da paz e da justiça internacional, ''o mais extraordinário anti-Maquiavel já produzido pela América Latina''. ''Sua obra patriótica desperta um sentimento semelhante ao que nos detém diante dos grandes idealistas''.
O Legado de um Saquarema na República
O Barão do Rio Branco representa um caso raro de estadista que transcedeu as divisões política de seu tempo. Sua capacidade de adaptar princípios conservadores às novas circunstâncias, sem perder a essência de suas convicções, fez dele um modelo de patriotismo e competência que continua a inspirar a diplomacia brasileira até hoje.
1. Adaptação Pragmática: Rio Branco adaptou sua formação monárquica e conservadora ao ambiente republicano e liberal, preservando os valores saquaremas enquanto servia ao novo regime.
2. Continuidade histórica: sua política externa representou mais o último capítulo da tradição diplomática imperial do que oinício da moderna dilpomacia brasileira
3. Síntese Nacional: simbolizou a possibilidade de reconstituir os padrões nacionais de vida cívica da monarquia unitária no interior da república federativa.
4. Tornou-se a figura mais incontroversa do panteão nacional, celebrado tanto por conservadores quanto por liberais, por sua dedicação desinteressada a pátria.
A Questão do Acre e o Emprego das Forças Armadas
1. Crescimento da Exploração do Látex: O crescimento da importância da exploração econômica do látex foi responsável por forte afluxo populacional para a Amazônia. Em 1900, calcula-se que cerca de 60.000 brasileiros residiam no atual estado do Acre, até então região boliviana limítrofe com o Brasil nos termos do tratado bilateral de 1867.
2. Bolivian Syndicate: em 1901, o parlamento boliviano aprovou a concessão da explloração do território ao Bolivian Syndicate of New York, um consórcio empresarial anglo-americano que contava com a participação de destacados investidores, entre os quais W.E. Roosevelt- primo de Ted Roosevelt.
3. Mobilização Militar: diante da ameaça de um banho de sangue, Rio-Branco solicitou autorização do presidente Rodrigues Alves para que fossem enviadas tropas para ocupar a região em litígio. Uma brigada, constituída pelos corpos aquartelados no 1o, 2o e 3o distritos militares, marchou pelo Norte, e outro seguiu pelo Sul.
4. Tratado de Petrópolis: o Acre seria incorporado ao Brasil mediante o pagamento de indenização a La Paz, permuta de território (191.000 quilômetros quadrados incorporados pelo Brasil e 3.200 cedidos à Bolívia) e promessa de constituição da ferrovia Madeira-Mamoré.
A Crise Venezuelana e o Poder Naval
- Diplomacia das Canhoneiras: exemplo clássico da diplomacia das canhoneiras, a crise venezuelana ocorreu em função de dívidas não saldadas por Carracas. Como forma de pressionar a nação devedora, Reino Unido, Alemanha e Itália decidiram implantar um bloqueio naval na costa do país sul-americano até que houvesse solução satisfatória para suas reclamações.
- Respostas Norte-Americana: concentrados na base de Culebra, Porto Rio, a esquadra seria comandada pelo almirante George Dewey, englobando todas as unidades navais importantes dos esquadrões do Caribe, América do Norte, América do Sul e Europa. Ao todo, os exercícios envolveram 6 navios encouraçados capitais, 8 cruzadores, 2 canhoneiras, 7 torpedeiras, 1 batalhão de fuzileiros navais e diversas unidades auxiliares.
- Corolário Roosevelt: o affair venezuelano foi uma das causas eficientes do Corolário Roosevelt da Doutrina Monroe. A famosa proclamação do papel da polícia internacional dos EUA nas Américas, realizada em 1904, tinha como objetivo primordial evitar que situações como a acima narrada voltassem a repetir-se.
A Revolução Paraguaia
1. Mudança de Influência: o Resultaddo da longa crisse que levou à queda do governo Escurra marcaria o declínio da influêcia do Rio de Janeiro e a entrada da nação guarani na órbita de Buenos Aires. Esta capital, além de ter fornecido armas e apoio logístico aos rebeldes liberais, trabalhou intensamente pela saída do poder dos colorados ligados ao Brasil.
2. Papel do Poder Naval: assim como nos casos da Venezuela e do Panamá, o poder naval seria elemento chave para o desenlace da revolução em curso no Paraguai. Foi com base no auxílio argentino que o armamento e as tropas necessárias ao movimento insurrecional puderam ser transportados, por via fluvial, até pontos específicos do Estado guarani.
3. Inferioridade Brasileira|: enquanto o Brasil tinha, na baía de Assunção, apenas um pequeno navio de guerra, o Carioca, a Argentina contava com três belonaves. Tal fato levou o representante brasileiro a solicitar ao Rio de Janeiro o envio de mais uma canhnoneira.
4. Nova Geometria de Poder: a base de sustentação da preeminência do Rio de Janeiro sobre Assunção estava fundamentada na aliança entre ''latifundiários, caudilhos militares e políticos semiprofissionais, apoiados pelo Brasil.a Essa coalizão foi suplantada pela dos interesses mercantis e financeiros, mais voltados para a Argentina.
A Questão do Pirara com a Guiana Inglesa
- Origens do conflito: o problma tinha origens remotas e somente foi objeto de encaminhamento definitivo com o acordo de 1901, pelo qual Rio de Janeiro e Londres o submetiam à arbitragem do rei da Itália. Em 1838, por ocasião da expedição ''científica'' liderada pelo alemão naturalizado inglês Robert Schomburgk ao vale do rio Pirara, houve choques entre militares brasileiros e britânicos.
- Arbitragem Controversa: o laudo arbitral foi conhecida em maio de 1904. Causa estranheza que o documento tivesse apenas duas páginas e tomasse como fundamento ''jurídico'' os ermos do Congresso de Berlim de 1884, destinado a estabelecer parâmetros para a partilha da África.
- Derrota Diplomática: o Brasil, defendido por Joaquim Nabuco, sofreu derrota importante em arbitragem contra uma das maiores potências da época: cerca de três quintos do território litigioso foi declarado britânico. Com base nessa experiência, consolidava-se adicionalmente a ideia do perigo representado pelas potências imperialistas europeias.
A Grande Estratégia de Rio-Branco
A aproximação com os Estados Unidos visava alcançar três objetivos básicos: projetar políticamente o Brasil no contexto sul-americano, desarticular coalizões regionais possivelmente hostis e resguardar a soberania nacional frente ao imperialismo europeu. Rio Branco via o Brasil em posição de destaque na América do Sul, mas para isso o país precisava sperar os problemas que limitavam sua ação internacional.
- Aproximação com os EUA: Relação privilegiada com Washington para projeção internacional
- Defesa da Soberania: Proteção contra o imperialismo europeu e coalizões hostis
- Prestígio Nacional: Consolidação das fronteiras e estabilidade regional
Comentários
Postar um comentário