Teoria das Relações Internacionais II- Aula 6

A Escola de Frankfurt

O Dilema do Pensamento Marxista
Para a Escola de Frankfurt, o que está no centro da reflexão marxista é a relação entre teoria e prática, voltada à emancipação. Reformular o pensamento marxista exige uma nova compreensão da razão e seu papel na libertação.

O conhecimento, nesse contexto, pode ter dois caminhos: preservar a realidade ou transformá-la. O positivismo, ao contrário do que se pensa, não busca representar a realidade, mas sim transformar a realidade por meio de ferramentas técnicas. Contudo, essa transformação ocorre sem crítica aos pressupostos da própria razão, o que o afasta do projeto marxista.

O projeto intelectual do marxismo se diferencia profundamente do positivismo. Ele não objetiva apenas representar o mundo, mas transformá-lo. Para Marx, o conhecimento e a razão devem ser usados como instrumentos de ruptura com a realidade existente, visando superá-la. O pensador marxista não se contenta em aceitar o mundo como ele é, mas busca suas potencialidades não realizadas — especialmente aquelas bloqueadas pela opressão capitalista. Assim, Marx, embora não linear, é um pensador do progresso. Toda forma de saber que não se alinhe à ideia de progresso será, segundo ele, superada.

Esse otimismo era coerente com o contexto da Revolução Industrial e da Era Vitoriana, quando a razão e o conhecimento pareciam trazer avanços na comunicação, produção e transporte. Contudo, no contexto pós-Primeira Guerra Mundial e especialmente após a Segunda, esse otimismo começa a ser questionado.

Razão e Modernidade
A Escola de Frankfurt surge desse cenário de descrença. Seus principais representantes, em sua maioria judeus perseguidos na Europa, testemunharam as promessas falidas da modernidade. A razão, que outrora foi vista como instrumento de libertação, passa a ser compreendida como ferramenta de dominação — como se vê no nazismo, no holocausto e nas tecnologias bélicas. Portanto, para os frankfurtianos, é preciso rever o pensamento marxista à luz das novas realidades históricas.

O projeto da Teoria Crítica entende que a natureza do conhecimento não pode ser analisada de forma descritiva, mas sim performativa — ou seja, pelo modo como ele age sobre a realidade. Todo conhecimento produzido atua em favor da preservação ou da transformação da realidade. Dessa forma, não há neutralidade: a produção teórica está sempre posicionada, sempre tem um lado. As teorias que estabilizam o sistema são voltadas à manutenção do status quo, enquanto as que visam transformá-lo são Teorias Críticas — nelas reside o elo entre razão e emancipação buscado por Marx.

A Teoria Tradicional
A Teoria Tradicional se baseia na ideia de conhecimento como representação da realidade, que busca descrever o mundo tal como ele é. Ela se ancora em três pressupostos que são alvo das críticas da Escola de Frankfurt: a neutralidade, a a historicidade e a universalidade.

A neutralidade, para os frankfurtianos, é uma ilusão. Todo conhecimento, mesmo aquele que se diz neutro, atua ou para conservar ou para transformar. A Teoria Tradicional, ao se dizer neutra, atua em favor da ordem existente.

A a historicidade é outro problema: o positivismo tende a interpretar os fenômenos como se fossem regidos por leis imutáveis, válidas em qualquer tempo. A Teoria Crítica, ao contrário, compreende que os saberes estão inseridos em contextos históricos específicos.

A terceira crítica é à universalidade: a crença de que uma mesma teoria pode explicar todos os contextos, ignorando as particularidades locais e temporais. Essa pretensão ignora as conjunturas específicas, desconsiderando as contradições e os conflitos próprios de cada época.

Um bom exemplo disso pode ser visto em Kenneth Waltz. Ao defender a bipolaridade como sistema internacional mais estável, Waltz busca preservar uma estrutura vigente. Sua teoria, embora apresentada como neutra e técnica, reflete uma posição conservadora, pois tenta conter possíveis rupturas sistêmicas. É uma teoria voltada à manutenção da realidade existente.


A Teoria Crítica
A Teoria Crítica rompe com a ideia de neutralidade, de a historicidade e de universalidade. Ela é construída com base em três características fundamentais: historicidade, perspectiva e emancipação.

Ela é histórica, pois parte do entendimento de que todo conhecimento está inserido em um tempo e espaço específicos. Ela é perspectivada, porque é produzida a partir de um olhar situado — não há visão de “nenhum lugar”. E, por fim, ela é emancipatória, pois seu objetivo é a transformação da realidade rumo a um mundo mais justo.

A produção de conhecimento crítico não pode se desvincular do presente. Um dos principais erros das releituras do marxismo foi transformá-lo em uma teoria universal, ignorando os instrumentos, os desafios e as potencialidades do mundo contemporâneo. A Teoria Crítica busca resgatar o marxismo em sua dimensão mais profunda: como instrumento de mudança.


Teoria Crítica e Reflexividade
Um dos pontos que diferencia a Teoria Crítica das demais é sua reflexividade. Ela é capaz de reconhecer seus próprios limites. Robert Cox, por exemplo, entende que sua teoria tem validade histórica, mas não pretende ser eterna. Ele não busca uma teoria universal, mas uma teoria útil para o seu tempo. Essa consciência dos próprios limites é uma marca de superioridade da Teoria Crítica em relação às demais abordagens.


Análise das Estruturas Históricas
Robert Cox propõe uma forma de compreender as Relações Internacionais a partir das estruturas históricas. Ele não busca princípios imutáveis, mas quer entender os elementos que permitem mudanças na ordem mundial. Para isso, ele identifica três componentes fundamentais do poder: capacidades materiais, ideias e instituições.

Esses três elementos, quando convergem, formam a base de uma ordem internacional. Foi essa tríade que sustentou a Pax Britannica e, posteriormente, a Pax Americana.


Capacidades Materiais, Ideias e Instituições
A Pax Britannica se sustentou na superioridade industrial britânica (capacidade material), no padrão-ouro como forma de estabilidade financeira (instituições) e no liberalismo como ideologia dominante (ideias). Contudo, essa hegemonia possuía fragilidades, especialmente no campo institucional. O padrão-ouro, sem um superavit contínuo e frente às tensões do sistema internacional, colapsou no início do século XX frente aos desafios e demandas da Primeira Guerra.

A transição para a Pax Americana ocorreu após a Segunda Guerra Mundial. Os Estados Unidos, ao assumirem a liderança, criaram instituições internacionais como a ONU, o FMI e o GATT, garantindo capilaridade institucional. Sua superioridade tecnológica e militar (inclusive nuclear) representava a nova capacidade material. E o liberalismo, reformulado, passou a ser a base ideológica da nova ordem.

A hegemonia americana integrou as periferias do mundo, buscando engajamento com essa nova ordem capitalista. Diferente da Pax Britannica, os EUA investiram em instituições que ampliassem seu alcance.


A História Como um Processo Aberto
A Teoria Crítica entende que a história não é linear nem determinada. Ela é um processo aberto, sujeito à mudança. Para transformar o mundo, é necessário apropriar-se da razão como instrumento de leitura crítica da realidade e de projeção de suas potencialidades emancipatórias.

O pensamento crítico, portanto, não se resume a interpretar o mundo, mas a transformá-lo. É nesse ponto que razão, progresso e emancipação se reencontram com a proposta original do marxismo — não como dogma, mas como horizonte. 

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