Formação Econômica do Brasil- Aula 6
Economia cafeeira no Brasil Império
O café foi a base da economia brasileira durante todo o século XIX, consolidando-se como a principal commodity de exportação até meados da década de 1930. Embora o Brasil também exportasse outras commodities, a relevância do país no mercado global do café era evidente, pois grande parte da oferta mundial vinha daqui. A economia cafeeira ganhou força logo após a independência, tornando-se o eixo central do crescimento econômico do país.
Origem e difusão do café
O café não é uma planta nativa das Américas; sua origem está na Etiópia, com os primeiros registros de cultivo na região do Iêmen. A bebida se popularizou no mundo muçulmano, especialmente nas vertentes sunitas do Islã, por seu efeito estimulante que fornecia energia aos consumidores. Posteriormente, o café chegou a Istambul, onde seu consumo deixou de ter caráter religioso para se tornar uma bebida social. A difusão do café pelo comércio fez com que a bebida chegasse ao mundo ocidental, embora inicialmente sofresse preconceito devido às suas origens muçulmanas. Para que fosse aceita, a Igreja Católica precisou negar esse estigma. Mesmo assim, o café permaneceu uma bebida de luxo, restrita às elites, assim como o chá.
Adaptação e introdução do café no Brasil
As plantas de café não se adaptaram bem ao clima europeu, o que levou as potências coloniais a buscar territórios em suas colônias onde o cultivo fosse possível. A França introduziu o café na Guiana Francesa, de onde a planta chegou ao Pará, onde ocorreu o primeiro cultivo em 1823. Na época, cidades como Belo Horizonte e Rio de Janeiro estavam em expansão. Em busca de melhores condições para o cultivo, o café foi transferido para o Vale do Paraíba, que já possuía infraestrutura herdada do ciclo do ouro, como portos e estradas. Com a diminuição da mineração, os investimentos foram sendo gradualmente direcionados para a economia cafeeira.
Mão de obra escravizada e estrutura produtiva
Grande parte da mão de obra utilizada nas plantações de café era escravizada, com investimentos vindos de elites que haviam prosperado na economia do ouro. A estrutura de produção dos cafezais assemelhava-se à das plantações de cana-de-açúcar, utilizando o trabalho escravo devido à baixa confiança em trabalhadores livres. A produção de café envolvia várias etapas, começando pela concessão pública do terreno, que precisava ser aberto por meio de queimadas para o plantio. Depois, havia o cultivo, colheita, processamento (incluindo lavagem, secagem, beneficiamento e torragem) e o escoamento da produção. Esses processos exigiam alto investimento e os retornos demoravam anos para se concretizarem.
Continuidade do sistema escravista após a independência
No início do Império, a economia brasileira continuou centrada no café, com demanda crescente por mão de obra escrava proveniente da África. Enquanto outros países começavam a reduzir o tráfico negreiro, o Brasil aumentava a importação de escravos. A independência não provocou mudanças estruturais significativas nesse sistema, que se manteve conforme a análise de Caio Prado Jr. Isso gerou tensões diplomáticas, pois outros países já adotavam medidas para extinguir o tráfico de escravos.
Pressões inglesas contra o tráfico negreiro
A Inglaterra proibiu a escravidão em 1807, em parte por pressão de sua elite econômica que via a escravidão como um entrave para a formação de uma classe consumidora crescente. O fim da escravidão nas colônias britânicas criou uma competição desigual com países que mantinham o trabalho escravo, o que levou a Inglaterra a pressionar outros países, incluindo o Brasil, a abolir o tráfico negreiro. Ainda sob o reinado de Dom João VI, o Brasil abriu seu mercado aos ingleses em troca do compromisso de abolir o tráfico, materializado na Lei Feijó (1831), embora essa lei tenha tido pouco efeito prático, pois a importação de escravos continuou em alta.
Intervenção inglesa e o tráfico negreiro
Em 1840, a Inglaterra criou a Lei Bill Aberdeen, que autorizava sua marinha a interceptar navios suspeitos de transportar escravos. Ainda assim, a própria Inglaterra possuía empresas no Brasil que se utilizavam de mão de obra escrava, mostrando a complexidade e contradições do tema. A pressão inglesa foi um fator importante, mas interna e externamente, havia fortes interesses contrários à abolição imediata.
Comércio exterior e políticas tarifárias
O Brasil enfrentava déficits comerciais constantes devido aos tratados comerciais desiguais firmados com países como a Inglaterra. Para proteger sua nascente indústria, o país adotou políticas tarifárias protecionistas, como a Tarifa Alves Branco (1844-1860), que impôs taxas elevadas sobre produtos importados. Apesar de avanços em alguns setores manufatureiros, o Brasil não desenvolveu capacidade técnica para industrialização mais complexa. Contudo, a pressão dos senhores do café, que consideravam os preços das máquinas importadas muito altos, resultou em uma política mais liberal adotada pela Tarifa Silva Ferraz (1860).
Legislação abolicionista e transformações sociais
Várias leis foram aprovadas para limitar o tráfico e gradualmente abolir a escravidão: a Lei Eusébio de Queiroz (1850) proibiu o tráfico internacional de escravos; a Lei do Ventre Livre (1871) concedeu liberdade aos filhos de escravas nascidos a partir daquela data; a Lei dos Sexagenários (1885) libertou os escravos com mais de 60 anos; e, finalmente, a Lei Áurea (1888) aboliu oficialmente a escravidão. O fim da mão de obra escrava levantou a questão sobre quem ocuparia os postos de trabalho nos setores produtivos, já que os ex-escravizados não receberam políticas efetivas de inclusão ou subsistência. Projetos nesse sentido foram vetados.
A Lei de Terras e o mercado fundiário
Complementando a proibição do tráfico, a Lei de Terras (1850) estabeleceu que o governo federal não concederia mais terras gratuitamente, apenas as venderia. Essa medida criou um mercado de terras restrito às elites que podiam pagar, excluindo os trabalhadores livres sem capital. Essa política criou uma reserva de mão de obra disponível, pois os trabalhadores sem terra precisavam se submeter aos empregadores para sobreviver. Os latifundiários que adquiriram terras com esses recursos criaram fundos governamentais para financiar a imigração europeia, trazendo trabalhadores livres para formar uma nova base de mão de obra, especialmente no sudeste, onde ficavam os cafezais. Muitos imigrantes trabalhavam sob condições precárias, semelhantes a uma “escravidão por dívida”, devendo pagar os custos de viagem e manutenção até quitar sua dívida. No sul do país, entretanto, políticas migratórias e laborais foram diferentes.
Conflitos e geopolítica na região do Cone Sul
No Cone Sul, o Brasil enfrentou ciclos constantes de guerras que marcaram sua geopolítica regional. A Guerra da Cisplatina (1825-1828) e a Guerra do Prata (1850-1852) consolidaram o poder brasileiro na região. Ao final da Guerra do Prata, o Brasil apoiou o governo Colorado no Uruguai, que atendia aos seus interesses, enquanto o partido Blanco, aliado ao Paraguai, voltou ao poder mais tarde. Esse alinhamento provocou o conflito conhecido como Guerra do Paraguai (1864-1870), na qual o Paraguai invadiu o Mato Grosso brasileiro em retaliação à intervenção no Uruguai. Durante esse conflito, o exército brasileiro percebeu que o sistema escravista dificultava o recrutamento e o desenvolvimento de uma força nacional moderna. Esses fatores culminaram, em 1889, com a participação do exército na deposição da monarquia e na proclamação da República.
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