Política Externa Brasileira- Aula 6
A Política Externa Brasileira no Entre-Guerras
Primeiros anos da República e reorientação da PEB
A década de 1920 marca uma fase de transição para o Brasil, que passa de uma orientação predominantemente europeia para um alinhamento mais estreito com os Estados Unidos, tanto nas relações econômicas quanto políticas e culturais. Esse processo já havia começado com a Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, quando os republicanos brasileiros buscaram inspiração no modelo político norte-americano.
Durante esse período, os Estados Unidos mantinham uma política externa intervencionista nas Américas, mas viam o Brasil como uma república instável — percepção semelhante à dos britânicos, que acompanhavam com desconfiança a política sul-americana. A política externa brasileira, liderada pelo Barão do Rio Branco, buscou reverter essa imagem. Ao vender a ideia de um país pacífico e previsível, Rio Branco conseguiu estreitar os laços com os EUA, chegando a nomear Joaquim Nabuco, seu amigo pessoal, como embaixador em Washington.
Nesse contexto, os Estados Unidos continuavam a aplicar a Doutrina Monroe, reforçando sua influência sobre a América Latina e buscando limitar interferências europeias. Nabuco contribuiu para difundir a ideia de que as Américas constituíam um sistema separado da Europa, reforçando a importância do Brasil manter uma relação privilegiada com os EUA, especialmente como principal agroexportador de café para o mercado norte-americano.
A Primeira Guerra Mundial e o realinhamento geopolítico
A chamada "americanização da República" influenciou diretamente na decisão brasileira de entrar na Primeira Guerra Mundial, em outubro de 1917 — algo que não ocorreu com a maioria dos países latino-americanos. O envolvimento brasileiro se deu por meio do envio de uma divisão naval, de treze aviadores (que serviram na Royal Air Force britânica) e cerca de cem médicos à frente ocidental na França.
O bloqueio marítimo imposto pelo Reino Unido foi decisivo para o rompimento das relações comerciais com a Alemanha, tradicional parceira do Brasil, o que também contribuiu para a decisão de entrada na guerra. A presença de setores germanófilos no Brasil preocupava os EUA, e o presidente Woodrow Wilson empenhou-se em estreitar relações com o país. O Brasil, mesmo com suas limitações, passou a ser visto como um aliado estratégico no Atlântico Sul.
Na Conferência de Paz de Versalhes, o Brasil teve três delegados, entre eles Epitácio Pessoa, que acabou sendo escolhido presidente da República durante a conferência, após a morte de Rodrigues Alves, o candidato eleito. A participação brasileira em Versalhes criou uma expectativa exagerada de prestígio internacional, que não se confirmou nos anos seguintes.
O pós-guerra e o fortalecimento da indústria militar
O fim da guerra acelerou o desenvolvimento de tecnologias bélicas, e o Brasil buscou se modernizar nesse setor. Durante seu mandato, Epitácio Pessoa realizou visitas diplomáticas à Europa, sendo recebido por Portugal, França e Reino Unido. Em 1920, foi firmada uma missão militar francesa no Brasil, com duração até 1940. No setor naval, o país recebeu uma missão norte-americana de 1922 a 1930.
Enquanto isso, Argentina e Chile mantinham laços mais estreitos com a Alemanha no campo militar, o que aumentava a preocupação brasileira com questões estratégicas nas fronteiras do sul.
O Brasil e a Liga das Nações
O Brasil foi um dos membros fundadores da Liga das Nações, ocupando um assento não-permanente entre 1920 e 1926. No início, houve um entusiasmo considerável com a possibilidade de a organização servir como palco para ampliar o prestígio brasileiro. Durante esse período, houve um aumento significativo no número de embaixadas brasileiras, transformando várias legações em representações diplomáticas de maior peso. O país também passou a ser incluído em um circuito diplomático internacional relevante, envolvendo cidades como Londres, Paris, Washington, Roma e Lisboa.
A visita dos reis belgas à capital brasileira simbolizou o prestígio da política externa nacional naquele momento. A diplomacia buscava afirmar uma identidade internacional para o Brasil e reforçar sua representatividade em nome da América Latina — embora alguns setores temessem uma excessiva submissão aos interesses norte-americanos.
A crise do assento permanente e a saída da Liga
O governo do presidente Arthur Bernardes adotou como uma de suas metas a obtenção de um assento permanente na Liga das Nações. No entanto, quando ficou claro que a organização concentrava sua atenção em questões europeias, o Brasil passou a enfrentar dificuldades em se posicionar diante dessas pautas.
A situação se agravou quando a Alemanha, por meio de articulações diplomáticas secretas com potências europeias, foi considerada para um assento permanente. O Brasil planejou vetar essa entrada, mas foi ignorado pelos demais membros, mesmo após pressionado por embaixadores britânicos e franceses. Sentindo-se desconsiderado e sem a influência que esperava, o Brasil decidiu se retirar da Liga das Nações em 1926.
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