Política Externa Brasileira- Aula 7
Pólítica Externa na Era Vargas
Cisão Oligárquica e Formação da Aliança Liberal
A chamada política do café puro representava a hegemonia da oligarquia paulista nos principais cargos políticos do país, concentrando o poder central em São Paulo. Após o governo de Washington Luís, os paulistas buscaram manter essa hegemonia ao lançar Júlio Prestes como sucessor. Essa tentativa de continuidade acabou provocando uma cisão entre as oligarquias estaduais, dando origem à Aliança Liberal — uma frente composta por Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Paraíba e outras lideranças dissidentes. A Aliança foi liderada por Getúlio Vargas e João Pessoa, que representavam um projeto político alternativo, defendendo reformas como o voto secreto, a legislação trabalhista e o fortalecimento da industrialização nacional.
A Influência do Tenentismo e a Revolução de 1930
Durante a década de 1920, diversos levantes militares protagonizados por jovens oficiais — os tenentes — expressaram insatisfação com o sistema político vigente. O movimento tenentista defendia reformas modernizadoras e acabou influenciando significativamente a Aliança Liberal, com muitos de seus membros se integrando à frente oposicionista. A morte de João Pessoa, embora motivada por desavenças regionais, foi politizada e utilizada como estopim para a Revolução de 1930, que impediu a posse de Júlio Prestes e levou Getúlio Vargas ao poder. Com isso, iniciava-se uma nova fase na política brasileira, marcada pela centralização do poder e pela tentativa de ruptura com o modelo oligárquico anterior.
Projetos em Disputa e a Revolta Constitucionalista de 1932
Uma vez no poder, Vargas passou a articular um projeto desenvolvimentista, ainda sem consenso sobre qual modelo adotar. As elites paulistas, que haviam sido alijadas do poder, defendiam um modelo de desenvolvimento com menos intervenção estatal. A insatisfação culminou na Revolta Constitucionalista de 1932, em que São Paulo exigia a convocação de uma nova Constituição. Apesar da derrota militar, o movimento forçou o governo a iniciar um processo de transição institucional. No plano externo, o Brasil começou a buscar maior autonomia, rompendo gradualmente com a subordinação tradicional às potências europeias.
Política Externa Pendular e Relações com os EUA
Nos anos 1930, o Brasil adotou uma política externa pendular, equilibrando suas relações entre as potências europeias e os Estados Unidos. Nesse contexto, os EUA abandonaram a política do big stick e passaram a investir na cooperação hemisférica por meio do pan-americanismo. O Brasil, buscando vantagens econômicas, firmou acordos com os norte-americanos envolvendo cooperação técnica, militar e cultural. Os Estados Unidos, por sua vez, passaram a investir diretamente no país, enxergando o Brasil como aliado estratégico no continente.
Aproximação Comercial e Ideológica com a Alemanha
Apesar da aproximação com os EUA, o Brasil também manteve relações comerciais intensas com a Alemanha nazista, que se tornaria um dos principais parceiros comerciais do país. A relação era baseada em acordos de compensação que funcionavam sem uso de moeda, o que facilitava as trocas em tempos de crise internacional. Além disso, a Alemanha exerceu influência ideológica sobre setores das Forças Armadas e do pensamento nacionalista, o que gerava tensões internas entre germanófilos e americanistas.
O Estado Novo e o Nacionalismo Econômico
Em 1937, Vargas instaurou o Estado Novo, regime ditatorial que concentrou poder no Executivo e dissolveu os partidos políticos. O novo regime foi marcado pelo autoritarismo, pela repressão a comunistas e integralistas, e por uma agenda de modernização econômica com forte intervenção estatal. O nacionalismo econômico buscava reduzir a dependência externa e promover a industrialização, ao mesmo tempo em que se construía uma nova identidade nacional, centralizada no Estado e nos símbolos da unidade e da ordem. Apesar da repressão política, o regime conquistou o apoio de setores populares por meio de políticas trabalhistas e de valorização do trabalho urbano.
Disputas na Política Externa e o Alinhamento com os EUA
Durante o Estado Novo, a política externa brasileira foi marcada por disputas entre os grupos germanófilos, que viam na Alemanha uma aliada estratégica para a industrialização, e os americanistas, que defendiam a aproximação com os Estados Unidos como forma de garantir segurança e investimentos. A aproximação com os EUA prevaleceu à medida que a Segunda Guerra Mundial avançava e o país se tornava peça-chave para os interesses estratégicos norte-americanos no Atlântico Sul.
Bases, Investimentos e Entrada na Guerra
A aliança com os EUA resultou em contrapartidas importantes para o Brasil. Os norte-americanos financiaram a construção da Companhia Siderúrgica Nacional e instalaram bases militares no Nordeste. Em 1942, após ataques de submarinos alemães a navios brasileiros, o Brasil declarou guerra ao Eixo. A entrada na guerra consolidou o alinhamento com os EUA e reforçou a posição internacional do país. O Brasil também foi incluído no programa Lend-Lease, recebendo recursos e equipamentos militares que modernizaram suas forças armadas.
Esforço Militar e Criação da FAB
A criação da Força Aérea Brasileira (FAB) em 1941 marcou um passo importante na estrutura militar nacional. A FAB desempenhou papel estratégico na vigilância do Atlântico Sul e no apoio logístico aos Aliados. Além disso, o país forneceu matérias-primas como borracha e minérios, permitindo aos EUA utilizar seu território como base de operações. O envio da Força Expedicionária Brasileira (FEB) para combater na Itália destacou o Brasil como o único país latino-americano a enviar tropas à frente europeia, consolidando seu papel como aliado relevante na guerra.
Propaganda, Cultura e Identidade Nacional
Durante o Estado Novo, o governo investiu na construção de uma identidade nacional unificada. O Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), criado em 1939, foi responsável por controlar os meios de comunicação, promover valores nacionalistas e difundir a imagem de Vargas como “pai dos pobres”. Programas como “A Hora do Brasil” e a valorização de manifestações populares, como o carnaval e o futebol, foram utilizados para integrar as massas ao projeto nacional. Artistas, intelectuais e educadores foram cooptados para reforçar o imaginário da pátria unificada e moderna, com forte ênfase na ordem, no progresso e no trabalho.
O Legado de Vargas e o Pós-Guerra
Ao fim da Segunda Guerra Mundial, Getúlio Vargas buscou adaptar-se ao novo contexto internacional. A vitória das democracias aliadas gerou pressão interna e externa pelo fim do regime autoritário. Em 1945, Vargas foi deposto, mas deixou um legado duradouro. Conseguiu consolidar a industrialização nacional com apoio externo, fortalecer a presença do Brasil no cenário internacional e estabelecer as bases do trabalhismo e do nacional-desenvolvimentismo. Seu governo marcou uma profunda reconfiguração do Estado brasileiro e moldou os rumos da política externa e interna nas décadas seguintes.
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