Teoria das Relações Internacionais II- Aula 9

 Pós-Modernismo/Pós-estruturalismo (Cont.)

A questão da representação

O pós-modernismo e o pós-estruturalismo trazem reflexões importantes sobre a questão da representação, que está diretamente ligada à continuidade das narrativas culturais e políticas. Por exemplo, os mujahadeen foram grandes aliados dos Estados Unidos durante a invasão soviética no Afeganistão, no contexto da Guerra Fria. Com o governo Reagan, os EUA passaram a apoiar o Talibã como um contraponto à União Soviética. A caracterização do Talibã foi construída a partir de uma narrativa poderosa: eles eram vistos como unidos por um fervor religioso que estava sendo destruído pelos soviéticos. Posteriormente, os Talibãs passaram a ser representados como uma ameaça à civilização ocidental. Isso evidencia que os Talibãs dos anos 80 são os mesmos após 2001, mas o que mudou foi a forma como sua cultura e relação com a religião são representadas e percebidas. Ou seja, o foco está nas ferramentas de representação dos grupos, e não nos próprios grupos.

No pós-estruturalismo, não há uma estrutura simbólica de representação coerente e fixa. Não interessa tanto o que a realidade "é", mas como ela é representada. No estruturalismo clássico, a representação tinha um papel descritivo e buscava estabelecer parâmetros para descrever a realidade, encontrando regularidades entre diferentes culturas. Já na década de 1970, essa ideia é contestada: o Ocidente não possui uma cultura coesa, e a modernidade é vista com pessimismo. Movimentos sociais diversos, como o negro, o feminista e o estudantil, passam a valorizar as particularidades dos pontos de vista. É um momento em que se abandona a ideia de linearidade para abraçar a multiplicidade, entendendo que dentro de uma mesma sociedade existem fragmentos múltiplos que enxergam um mesmo evento de formas diferentes.

Crise e narrativas

Nesse cenário de fragmentação cultural, o pós-estruturalismo articula a representação no contexto da crise das grandes narrativas. Quando há uma cultura coesa, a representação busca descrever a realidade de forma objetiva. Mas no cenário fragmentado, a relação entre uma representação dominante e representações marginalizadas entra em foco, trazendo à tona a questão do poder. A chave da teoria está em entender por que certas representações tornam-se dominantes enquanto outras são marginalizadas. Tomando o exemplo dos Talibãs, é possível perceber que, nos anos 1980, sua representação como heróis estava alinhada aos interesses do governo americano, mas a partir dos anos 2000 essa representação foi substituída por uma visão de vilões do ocidente.

Fragmentação e a questão do poder

Essa dinâmica evidencia que a representação não é apenas um reflexo da realidade, mas um campo de disputa, onde há uma guerra de narrativas. As representações traduzem realidades por trás das pessoas — por exemplo, alguém é cristão, republicano, estudante — e essas identidades carregam expectativas e referências que moldam a interação social. Entretanto, existe uma disputa constante sobre o significado dessas representações, que podem ser alteradas conforme o contexto e o tempo. O conceito de democracia, por exemplo, mudou radicalmente desde sua origem na Grécia Antiga até a contemporaneidade, quando está associado à alternância pacífica do poder. Esse fenômeno é chamado de intertextualidade: a representação passa a se relacionar mais com representações anteriores do que diretamente com a realidade.

Intertextualidade

Por meio da intertextualidade, entende-se que não existe uma cultura única, mas vários fragmentos culturais coexistentes. Essa pluralidade permite a existência de conflitos narrativos, onde o papel da análise do discurso não é julgar sua veracidade, mas compreender os efeitos que produz na realidade. A representação dos Talibãs nos anos 80 não foi unicamente sentimental, mas foi instrumentalizada para favorecer uma política específica dos Estados Unidos, assim como a representação deles como vilões no século XXI.

O problema da identidade

No pós-estruturalismo, a identidade não molda os Estados, mas as expectativas de comportamento moldam a identidade dos atores estatais. Ou seja, não importa a natureza real do ator, mas como seu comportamento é interpretado e autorizado no sistema internacional. No feminismo, por exemplo, a identidade feminina gera expectativas distintas em relação à identidade masculina, que moldam como as ações de cada gênero são percebidas na realidade política. Portanto, a identidade é um efeito da representação, que cria as condições para as ações e respostas no âmbito das relações internacionais.

Os efeitos do discurso

O pós-estruturalismo concentra-se nos efeitos que os discursos exercem sobre a realidade, destacando três processos principais:

  • Diferenciação: Exemplo recente é a representação da Ucrânia como parte do Ocidente, diferenciando-a da Rússia. Essa diferenciação legitima a defesa da Ucrânia e a condenação da agressão russa, porque protege aquilo que é percebido como igual e rejeita aquilo que é visto como diferente.

  • Estabilidade: A representação busca criar critérios para estabelecer a estabilidade de uma narrativa e a instabilidade da contraparte, reforçando a validade da primeira.

  • Projeção: O Oriente, por exemplo, tem sido representado como insuficiente em relação ao Ocidente. Essa projeção diz mais sobre as ansiedades e interesses do Ocidente do que sobre a realidade do Oriente, servindo para deslegitimar o outro.

Todorov e a administração da diferença

Tzvetan Todorov propõe uma análise da administração da diferença no Ocidente, destacando três modos históricos:

  • A eliminação do outro: Na Grécia Antiga, a distinção entre civilização e barbárie fundamentava a exclusão do outro. O termo "bárbaro" denotava uma animalidade e desumanidade, uma vida sem cultura nem história. Os gregos distinguiam entre zoé (vida biológica) e bios (vida cultural, com propósito).

  • A conversão do outro: Na Idade Média, com a chegada dos europeus às Américas, a dominação não podia mais ser justificada pela simples exclusão, pois havia debates sobre a alma dos indígenas, principalmente na Controvérsia de Valladolid. Assim, a dominação se tornou uma obrigação moral de converter o outro, o que justificava a expansão colonial por meio da catequização.

  • O outro enquanto outro: Em contextos liberais modernos, há maior aceitação do outro enquanto indivíduo diferente, reconhecido em sua alteridade sem necessidade de assimilação ou eliminação.

Crítica e emancipação

O pós-estruturalismo, além de ser uma análise crítica das representações, cumpre um papel emancipatório. Ao revelar como as representações atuam como instrumentos de dominação e exclusão, ele busca apontar as formas de superação desses processos. Quando um líder político fala em nome de uma determinada representação, necessariamente silencia outras. O pós-estruturalismo não busca impor uma verdade universal ou substituir uma narrativa por outra, mas expor a arbitrariedade das hegemonias discursivas e o apagamento que causam às vozes marginalizadas. Assim, seu papel é criticar e possibilitar a emancipação social a partir do reconhecimento da multiplicidade de representações e da desconstrução das relações de poder nelas inscritas.

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