Teoria das Relações Internacionais II- Aula 11

 Sociologia Política Internacional

A Sociologia Política Internacional nasce da necessidade de entender como as pessoas, dentro de uma determinada realidade, foram condicionadas a tomar certas decisões. É preciso compreender as noções de racionalidade dos indivíduos — não se trata apenas de identidade e expectativas de comportamento, mas de um processo de consolidação de rotinas. Trata-se de entender os padrões de comportamento que os indivíduos possuem e como isso molda sua racionalidade. Uma pessoa inserida em uma realidade marcada pela repetição de padrões de comportamento violentos tende a desenvolver uma natureza mais violenta. Por exemplo, um cidadão moldado como soldado, ao ser desmobilizado, pode se aliar a milícias porque a repetição da violência está enraizada em sua psique.

A necessidade de observar esse processo gera uma tendência de introduzir um novo conjunto de ferramentas nas Teorias das Relações Internacionais. O trabalho de Pierre Bourdieu influenciará significativamente essa nova linha, que é a Sociologia Política Internacional.

No Construtivismo, a identidade molda a percepção de risco em relação a outros atores e a disposição para cooperar com eles. Ela não diz respeito diretamente a você, mas às suas expectativas de comportamento.

Já para o Feminismo, há uma relação entre identidade e experiência. A identidade é sobre quem você é e como você enxerga a realidade. Não se trata do seu histórico de relações e comportamentos, mas da sua própria constituição enquanto sujeito.

O Pós-estruturalismo enfatiza a construção das categorias, destacando como as representações que criamos dos outros perpetuam certas expectativas e como essas representações são moldáveis. Não se trata do que o outro é, mas de como você o representa.

A Sociologia Política Internacional, por sua vez, não olha para a representação como forma de compreender a racionalidade do ator, mas para o condicionamento prático dos indivíduos. É o que eles fazem repetidamente — especialmente em suas profissões — que determina suas relações sociais e as estruturas práticas da sociedade.


O Habitus e a Racionalidade Prática

O habitus caracteriza uma atividade que produz agência por meio da simplificação da realidade. Trata-se do processo de condicionamento de certas atitudes, que se tornam quase automatizadas nos indivíduos devido à repetição contínua dessas práticas. Após a repetição de uma mesma ação, o cérebro realiza uma filtragem de informações para chegar a uma atitude semi-reflexiva e quase automática. Você já não pensa mais em cada microdecisão que toma.

Para entender os indivíduos, é necessário observar o processo de reflexão na perspectiva da moldagem de suas atitudes. Isso cria a capacidade de antecipar e reconhecer padrões de comportamento.


O Exercício da Autoridade

O exercício da autoridade corresponde à atuação de um agente capaz de garantir uma percepção de segurança em determinado local. A percepção de autoridade está intimamente ligada ao contexto no qual ela se insere. Por exemplo, o uso das forças militares no combate ao tráfico no Rio de Janeiro foi aceito devido à percepção de que essa autoridade traria segurança ao local. Essa percepção foi construída com base na repetição de padrões de violência que condicionaram uma demanda por uma autoridade tão forte quanto o Exército.

Basicamente, a autoridade não é definida pela identidade da corporação ou do Exército, mas pelo contexto — por meio de uma repetição de mecanismos que criaram uma demanda e, consequentemente, legitimaram essa autoridade.

Por exemplo, grande parte das forças policiais enviadas para o Haiti por meio da MINUSTAH foi introduzida a uma lógica de guerra para lidar com uma realidade semelhante à guerra urbana brasileira. Por outro lado, parte das forças uruguaias, ao retornarem do Haiti, precisaram “desaprender” essa lógica de guerra para que ela não fosse perpetuada no Uruguai.


O Habitus e o Campo

O habitus é um processo de condicionamento que visa construir uma especialização em determinada área. Ele confere um conhecimento específico e habilita o indivíduo a realizar certas tarefas. Uma vez habilitado, é preciso compreender o universo no qual essa especialização tem valor. Por exemplo, um pedagogo tem mais valor no campo da educação do que no campo da segurança.

Entretanto, um mesmo campo pode conter diferentes habitus em disputa. Existem diferentes agentes tentando transformar o campo de alguma forma. A efetividade de um habitus dependerá do contexto no  qual ele está inserido.Haverá campos em que seu habitus será valorizado e outros em que não será. A valorização do habitus, portanto, depende do campo no qual ele está inserido.

A transversalidade dos campos é a capacidade de um agente interferir em outros campos. Trata-se da conversão do poder de um campo para outro. Um político que consegue impor seu exercício político para interferir no campo da educação é um exemplo de transversalidade. Portanto, os campos não são isolados e exercem influência entre si.

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