Economia Política Internacional- Aula 3
Estado e Comércio
Robert Carneiro foi um antropólogo e escritor estadunidense, autor do artigo A Teoria da Origem dos Estados (1970). Ele é conhecido por formular a teoria da origem do Estado chamada de circunscrição, dividida em circunscrição ambiental e social. Segundo ele, as primeiras formas de “Estado” surgiram em “oásis férteis”, como vales e planícies apropriadas para a agricultura e a vida sedentária, mas cercadas por terras hostis, como desertos e montanhas — exemplos disso são o Egito, o Paquistão, a Mesopotâmia e a China.
Essas zonas férteis com entornos desérticos não possuíam “escapatória”: não havia alternativas para que a população migrasse, pois o entorno era hostil à fixação humana. Esse tipo de ambiente, que favorecia o crescimento demográfico sem possibilidades de expansão, ampliava as chances de conflitos internos, levando à formação de estratificações sociais e de figuras responsáveis pela gestão desse corpo social.
Para Carneiro, o Estado é sempre fruto do conflito entre diferentes grupos, surgindo como resultado desse embate e tendo como objetivo a dominação social. Ele critica a ideia de que o Estado seria uma consequência direta do surgimento da agricultura, pois milhares de anos se passaram entre a descoberta da agricultura e a formação dos primeiros Estados — além de existirem sociedades agrícolas que nunca se organizaram como Estados. Assim, embora a agricultura seja um elemento importante, ela não é suficiente para a formação estatal. O fator essencial seria a circunscrição, ou seja, a existência de um território limitado por barreiras naturais, onde o excedente produtivo e a população permanecessem confinados.
Discussões Teóricas Voluntaristas
Karl A. Wittfogel
Wittfogel desenvolveu a Hipótese Hidráulica, segundo a qual os Estados surgem para organizar e distribuir as águas. A reprodução da sociedade em um local fixo depende de sistemas de irrigação e de gestão hídrica. Para tanto, são necessárias ações coletivas, que inicialmente ocorrem de forma espontânea, mas que se tornam cada vez mais complexas. Dessa complexificação nasce a necessidade de um corpo capaz de administrar a distribuição e o controle da água — o Estado.
Lester Ward, Henri Claessen, Jan Vansina, Richard Schaedel e David Robinson
Para esses autores, toda sociedade, independentemente do seu tamanho, possui uma identidade sustentada pela religiosidade, com uma figura de autoridade representada pelo chefe religioso. Já existia, portanto, um sistema de ideologias e crenças compartilhadas — uma forma de identificação coletiva que unia as pessoas em torno de objetivos comuns. Morton Fried e Bruce Trigger compartilhavam da mesma visão sobre o poder da teocracia.
Discussões Teóricas Coercitivas
Franz Oppenheimer
Segundo Oppenheimer, a origem do Estado está na disputa entre agricultores sedentários e pastores nômades. O Estado nasce da submissão de um grupo a outro, como resultado de conflitos tribais.
Teoria da Circunscrição
À medida que uma população cresce, mesmo em territórios originalmente não circunscritos, ela se torna “circunscrita”, pois toda a área fértil acaba sendo ocupada. Em várias regiões, o uso do arado surgiu em diferentes períodos — mais tardiamente na Europa, por exemplo — justamente por não haver ali uma circunscrição ambiental que limitasse a mobilidade.
Essa limitação territorial permite a complexificação interna, com o surgimento da estratificação social, da tributação, dos exércitos e das formas de administração. As sociedades eram, em grande parte, autossustentáveis, mas não completamente autossuficientes, pois nenhum território é variado o bastante para suprir todas as suas demandas internas. Minerais, madeiras e outros recursos frequentemente se encontravam em áreas distantes.
Dessa necessidade surge o comércio de média e longa distância, que ultrapassa as fronteiras do Estado em busca de produtos essenciais. Isso gera novas formas de interação, como negociações e acordos.
Com o tempo, estabelece-se uma dialética entre o saque e o comércio: as cidades-Estado tendem a se expandir em busca de recursos, originando impérios. A principal diferença entre ambos é que o império se aproxima da autossuficiência, enquanto as cidades-Estado dependem intensamente do comércio.
Muitas cidades-Estado dependiam das vias marítimas para o transporte de produtos, já que esse meio reduzia significativamente o tempo e o custo das transações.
Nos grandes impérios, como o Império Romano, as diferentes regiões eram interligadas por redes de comércio entre as cidades, todas conectadas, de alguma forma, à capital, Roma.
Após a queda do Império Romano do Ocidente, Roma ficou esvaziada — assim como Constantinopla, capital do Império Bizantino, após a invasão otomana.
Genghis Khan, imperador do Império Mongol, expandiu seus domínios da Ásia até a Europa, formando o maior império territorialmente contínuo da história.
Segundo muitos estudiosos, essa expansão foi uma das primeiras formas de globalismo, pois conectou regiões antes isoladas. A interligação entre Ásia e Europa intensificou o comércio e o contato entre povos, gerando uma maior uniformização dos preços — o valor de um produto em uma região passou a influenciar o de outra. Esse processo foi impulsionado por rotas de bens de luxo, como a Rota da Seda, e também favoreceu a disseminação de doenças, como a Peste Bubônica.
Tudo isso ajuda a compreender como a formação política influencia profundamente a dinâmica do comércio ao longo da história.
Comentários
Postar um comentário