Estudos Estratégicos- Aula 4

 Clausewitz e a Dialética Guerra e Paz

A questão central para a interpretação de Rodrigo Passos sobre Clausewitz está na abordagem dialética entre a guerra e a paz.

Ao contrário de muitas guerras anteriores, a Revolução Francesa foi uma guerra popular, tornando o conflito um assunto de todos os cidadãos, mobilizando toda a população francesa, o que deu origem ao exército do “povo em armas” napoleônico. A expansão revolucionária trouxe uma intensidade inédita para o conflito. Foi uma guerra absoluta, que envolveu todas as partes da sociedade.

Guerra Real vs. Guerra Absoluta
A Guerra Real é aquela em que há dificuldades, complexidades e muito advento do acaso. A Guerra Absoluta, para Clausewitz, é um conceito teórico mais próximo do modelo de guerra revolucionária.

O Nexo Indissolúvel
Nessa dialética de Clausewitz, ele compreende a guerra como parte da dimensão política. A diplomacia seria responsável pelas relações políticas por meio de acordos e negociações, sendo a guerra uma alternativa para quando essas negociações e a diplomacia não funcionassem.

A Guerra como Camaleão
A guerra se adapta a diferentes contextos e realidades. A política seria a guerra sem derramamento de sangue. Existem diferentes tipos de conflitos: a observação armada, sem derramamento de sangue; conflitos limitados, com manifestações intermediárias e diferentes graus de violência; e guerras de extermínio, nas quais há o máximo de violência.

Interpretações Distorcidas
Moltke atribuiu vitórias prussianas a Clausewitz, gerando doutrinas da ofensiva a qualquer custo. Liddell Hart culpou Clausewitz pelas carnificinas nas trincheiras, opondo-o artificialmente a Sun Tzu. Aron, Paret e Howard restauraram uma compreensão mais acurada do pensamento clausewitziano nos anos 1970.

Conflitos do Século XX
Rodrigo Passos utiliza os exemplos da aplicação da Guerra Absoluta nos conflitos da Segunda Guerra Mundial, da Guerra da Coreia e do Vietnã.

Legado Contemporâneo
Na Guerra Fria, as armas nucleares, como forma de “dissuasão”, caracterizavam-se por uma estratégia de suicídio mútuo, evitando o conflito direto.

Sobre o terrorismo, não há uma interpretação clausewitziana sobre esse tipo de conflito, pois há uma falta de centralidade estatal e de objetivos políticos definidos.

Há ainda uma dialética permanente: guerra e paz permanecem unidas dialeticamente na política contemporânea, sem continuidade absoluta.

Uma Leitura sobre Lenin, Clausewitz, a Revolução e a Guerra

Tese Central de Lenin
Lenin se interessa por Clausewitz após o fracasso da tentativa de revolução de 1905, utilizando seus princípios para fazer uma revolução. Há um parentesco intelectual entre os dois autores.

Política Absoluta e Política Real
A leitura mais revolucionária identifica a revolução como o ápice da política — o momento mais intenso da vida social. Essa análise é feita a partir da Revolução Francesa.

A Revolução Francesa como Marco
A partir de 1793, a guerra alcançou um patamar próximo do absoluto. A França mobilizou cerca de 30 milhões de cidadãos com vigor, paixões e recursos ilimitados.

Revolução é Guerra: a Perspectiva Leninista
Lenin entende que, se na guerra é preciso levar a ofensiva ao extremo, na revolução também se deve levá-la ao máximo. Um aspecto fundamental da revolução é a mobilização de massas, caracterizada pela luta de classes e pela questão do poder através de um processo contínuo.

Lenin e a Revolução de 1905
A revolução de 1905 foi um processo semelhante de radicalização ao da França pré-revolucionária, por meio de um estopim e de uma tentativa de mobilização em massa.

Anotações de Lenin sobre Clausewitz
“Graus e Gradações” é o conceito sobre o uso da diplomacia (política pacífica) e da guerra (política violenta) para alcançar objetivos políticos.

A guerra é parte de um todo; ela não pode ser vista isoladamente, pois faz parte de um fenômeno político. A violência possuía uma ética e um objetivo: derrubar o antigo regime.

Convergências e Diferenças
Lenin enquadra a ação da guerra entre as classes, não para analisar os fatores interestatais. Ele enfatiza a característica dialética da guerra e da paz com o interesse de alcançar os fins revolucionários.

Considerações Finais
Há um entrecruzamento histórico entre os autores. Existe um conhecimento dialético através da percepção da política, da revolução e da guerra nos fundadores do materialismo histórico; aspectos organizacionais, como organização militar, tática e estratégia; e elementos de destruição.

As Dimensões Esquecidas da Estratégia
A estratégia é um conceito multifacetado que vai muito além do simples emprego das forças armadas. Como Michael Howard articulou em sua análise de 1979, as definições tradicionais — como a de Clausewitz, “o uso de engajamentos para o objeto da guerra” — provaram-se “inadequadas até o ponto da trivialidade” na guerra moderna.

A estrutura de Howard identifica quatro dimensões críticas da estratégia que evoluíram nos últimos 200 anos: operacional, logística, social e tecnológica. Entender como essas dimensões interagem e qual predomina em diferentes cenários de conflito é essencial para o desenvolvimento de uma doutrina militar eficaz.

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