Estudos Estratégicos- Aula 5

A Evolução dos Estudos de Segurança Internacional

Os Estudos de Segurança Internacional (ESI) emergiram como uma área distinta em meados dos anos 1940, cristalizando-se na intersecção entre especialidades militares e ciências sociais. Baseados nas universidades e voltados aos problemas políticos surgidos com os armamentos nucleares e o desafio soviético ao Ocidente, esses estudos foram impulsionados pela urgência do momento histórico.

Especialistas civis, particularmente físicos e cientistas sociais, passaram a se especializar em assuntos militares sob a égide da segurança, conectando aspectos militares e não militares. Este momento é considerado exclusivamente norte-americano porque marcou o abandono da política isolacionista dos EUA.

As Cinco Forças Motrizes dos Estudos de Segurança Internacional

  • Política das Grandes Potências

  • Imperativo Tecnológico

  • Eventos Críticos

  • Institucionalização Acadêmica

  • Dinâmica Interna dos Debates

O Contexto da Guerra Fria e a Bipolaridade

1. Surgimento da Guerra Fria
De meados para o fim dos anos 1940, estabeleceu-se uma nova estrutura de poder resultante da Segunda Guerra Mundial, definida por duas características: os armamentos nucleares e a disputa entre EUA e URSS.

2. Era Dourada dos ESI
Entre 1955 e 1965, os estudos de segurança tornaram-se quase exclusivamente dedicados ao estudo dos armamentos nucleares e da disputa bipolar, com diminuição das discussões conceituais.

3. Desafio Chinês
Após a ruptura de Mao com Moscou no fim dos anos 1950, a China emergiu como desafiante ao quadro bipolar, sendo considerada por alguns como um terceiro poder, principalmente na Ásia.

4. Manutenção da Bipolaridade
Apesar dos desafios, o quadro bipolar manteve-se firme por mais quatro décadas, sustentado pelos enormes arsenais nucleares, mesmo após o declínio econômico soviético.

George Kennan: Arquiteto da Contenção

Diplomata americano (1904-2005) que elaborou a doutrina da contenção ao comunismo soviético no pós-guerra. Autor do famoso “Longo Telegrama” de 1946 e do artigo “Fontes do Comportamento Soviético”, sob o pseudônimo “X”. Estudou na Princeton University e foi professor no Instituto de Estudos Avançados de Princeton de 1950 a 1952. Ingressou no Foreign Service School em 1925, serviu no Leste Europeu e em Moscou, deixando o serviço diplomático em 1963.

Pontos Principais do Longo Telegrama de Kennan

  • Análise do comportamento soviético: Kennan descreveu a URSS como fundamentalmente hostil e incompatível com o Ocidente.

  • Neuroses soviéticas: Identificou inseguranças históricas russas amplificadas pelo isolamento ideológico stalinista.

  • Expansionismo inevitável: Alertou que a ideologia soviética exigia confronto permanente com o capitalismo.

  • Política de contenção: Recomendou ação firme, mas paciente, para conter a influência soviética globalmente.

  • Fortalecimento interno: Defendeu que o Ocidente deveria manter a coesão e a saúde socioeconômica para resistir.

A Política de Contenção e os Padrões de Inimizade

Estratégia de Contenção: A disputa entre EUA e URSS desenvolveu-se a partir das linhas de cessar-fogo da Segunda Guerra Mundial, firmando-se como uma tentativa norte-americana de cercar o bloco soviético com aliados para prevenir a expansão do comunismo.
A União Soviética como o Outro: No Ocidente, especialmente nos EUA, a caracterização da URSS como um oponente cruel e implacável rapidamente se sedimentou como fundamento das políticas norte-americanas, exigindo contenção de longo prazo.
Debate sobre Intenções Soviéticas: Enquanto Kennan sustentava que a liderança soviética estava inextricavelmente ligada à ideologia de superioridade comunista, Waltz defendia que a URSS apresentava um posicionamento menos agressivo devido ao efeito disciplinador da bipolaridade.

O Imperativo Tecnológico: a Revolução Nuclear

Desenvolvimento Acelerado: A tecnologia dos armamentos nucleares passou por um desenvolvimento muito rápido e dramático durante toda a Guerra Fria, gerando um imperativo estranho contínuo no coração dos ESI.
Evolução dos Sistemas de Disparo: Mísseis balísticos não interceptáveis substituíram bombardeiros vulneráveis como principal veículo de armamentos nucleares, reduzindo períodos de disparo potenciais de muitas horas para 30 minutos ou menos.
Submarinos Nucleares: Os mísseis tornaram-se mais precisos e confiáveis, permitindo seu envio ao mar em submarinos, tornando-os muito difíceis de detectar e diminuindo o tempo de aviso entre lançamento e chegada para poucos minutos.
Sistemas Antimísseis: A tecnologia de foguetes, radares e direcionamento melhorou a ponto de se tornar tecnicamente possível pensar sobre o desenvolvimento de sistemas de mísseis antibalísticos (MAB).

A Teoria da Dissuasão Nuclear

Dissuasão Mútua: Do fim dos anos 1950 em diante, o jogo era, cada vez mais, de dissuasão nuclear mútua, com a União Soviética caminhando firmemente em direção à paridade nuclear com os EUA.
Dissuasão Estendida: A extensão do escopo nuclear dos EUA para proteger aliados tornou-se diabolicamente difícil quando os soviéticos adquiriram a capacidade de ameaçar os EUA com armas nucleares.
Corrida Armamentista: Os desenvolvimentos tecnológicos prenderam as superpotências em uma dura corrida armamentista de dimensões quantitativas e qualitativas, gerando uma literatura completa sobre incentivos para atacar sob várias condições.
Dilema Ex Ante e Ex Post: O medo de ser desarmado pelo oponente em um primeiro ataque foi substituído pelo dilema de como responder a um ataque parcial.

Eventos Críticos que Moldaram os ESI

  • Crises de Berlim

  • Crise dos Mísseis de Cuba

  • Crise do Petróleo

A Guerra do Vietnã como Evento Crítico Adiado

O envolvimento dos EUA no conflito vietnamita durou de 1964 a 1975, com mais de 58.220 baixas americanas. Ela teve três principais impactos nos ESI: guerra de guerrilha, contrainsurgência e limites da teoria estratégica.

A Dinâmica Interna dos Debates Acadêmicos

Era Dourada (1955-1965): Período de maior desenvolvimento teórico, com uma série de livros clássicos centrados na dissuasão nuclear. Havia contribuições de muitas disciplinas e uma sensação real de animação resultante do interesse intelectual pelo problema.
Abordagem Científica: Comprometimento com métodos positivistas, quantificação e teoria dos jogos. Houve sinergia entre os Estudos Estratégicos e o entusiasmo paralelo em boa parte da ciência política norte-americana em relação ao behaviorismo. A teoria dos jogos tornou-se especialmente apta para o desenvolvimento da teoria da dissuasão, dada a ausência de intercâmbios nucleares reais.
Divisão Metodológica: Enquanto os EUA favoreciam abordagens científicas, na Europa havia maior apoio a métodos históricos e normativos, representado pelo famoso intercâmbio entre Hedley Bull, que defendia métodos tradicionais, e Morton Kaplan, defensor da guinada comportamental.

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