Estudos Estratégicos- Aula 6

 Uma História da Guerra

A guerra não é a continuação da política por outros meios. A guerra precede o Estado, a diplomacia e a estratégia por vários milênios. A guerra é quase tão antiga quanto o próprio homem e atinge os lugares mais secretos do coração humano, lugares em que o ego dissolve os propósitos racionais, onde reina o orgulho, onde a emoção é suprema, onde o instinto é rei.

John Keegan foi um historiador britânico que escrevia para o jornal conservador Daily Telegraph. A experiência acadêmica dele é a convivência com militares que vêm de diferentes países para servir no Reino Unido.

A Guerra como Expressão Cultural
Keegan vai dizer que Clausewitz era um oficial de regimento. Para ele, a guerra não é apenas um ato político, mas sempre uma expressão de cultura, com frequência um determinante de formas culturais e, em algumas sociedades, é a própria cultura. Clausewitz, enraizado na tradição militar prussiana, não conseguiu observar quão diferente a guerra pode ser em sociedades nas quais tanto Estado quanto regimento são conceitos alienígenas.

O Regimento como Instituição Revolucionária
O regimento foi um expediente revolucionário para assegurar ao Estado o controle das forças armadas. Semanticamente, a palavra liga-se ao conceito de governo. Esses regimentos tornaram-se instituições permanentes, ganhando quartéis-generais fixos, recrutando nas regiões circunvizinhas e retirando seus oficiais de famílias aristocráticas.

Clausewitz e a Teoria da Guerra

  • Guerra Real: a forma imperfeita que a guerra assume na prática, limitada por constrangimentos políticos e materiais.

  • Guerra Verdadeira: o conceito ideal de guerra total, sem restrições, que serve apenas a si mesma.

  • Dilema Clausewitziano: como ter as formas de guerrear praticadas pelos exércitos revolucionários franceses sem a política revolucionária?

Clausewitz enfrentou um dilema após voltar para a Prússia trajando uniforme russo em 1813. Sua carreira estava comprometida, mas continuava a ser um fervoroso nacionalista prussiano. Queria criar uma teoria da guerra que garantisse a vitória futura da Prússia.

A Guerra dos Cossacos: Uma Cultura Diferente

  • Origens dos Cossacos: Os cossacos — nome derivado da palavra turca que significa “homem livre” — eram cristãos fugitivos da servidão que preferiram arriscar-se nas terras ricas, mas sem lei, da grande estepe da Ásia Central. Fundaram sociedades genuinamente igualitárias — sem senhores, sem mulheres, sem propriedade.

A Sociedade Guerreira Europeia
Keegan vai dizer que a paz do século XIX foi refém da ideia subversiva de Clausewitz, que borbulhava como um vulcão ativo sob a superfície do progresso. Em 1818, quando Clausewitz começou o manuscrito de Da Guerra, a Europa era um continente desarmado. Passados 96 anos, quase todo europeu qualificado do sexo masculino em idade militar tinha uma carteira de identidade militar.

A Guerra Além da Política
A política não desempenhou papel algum digno de menção na condução da Primeira Guerra Mundial. Essa guerra foi uma aberração cultural monstruosa, a consequência de uma decisão inadvertida dos europeus no século de Clausewitz de transformar a Europa numa sociedade de guerreiros.

John Keegan demonstra que a guerra é muito mais que a continuação da política — é uma expressão cultural que assume formas completamente diferentes em sociedades distintas, desde os polinésios e cossacos até os samurais e zulus, desafiando a racionalidade da política tal como é entendida pelos ocidentais.

Guerras Inconclusivas: Clausewitz ainda é relevante nos tempos globais atuais?
Para Mary Kaldor, as guerras contemporâneas desafiam a teoria clássica de Clausewitz, que argumentava que a guerra tende a extremos. Hoje, observamos conflitos prolongados e inconclusivos, envolvendo atores não estatais e violência contra civis, em vez de combates diretos entre exércitos.

A Guerra Absoluta vs Guerras Contemporâneas
Para Clausewitz, a guerra era fundamentalmente sobre a “urgência da decisão”, alcançada através do combate direto entre partes beligerantes. Sua teoria da “guerra absoluta” argumentava que a violência tende naturalmente a extremos, com cada lado empurrando o outro a fazer novos esforços para vencer.

Em contraste, as “novas guerras” são caracterizadas pela evitação do combate direto. A violência é principalmente direcionada contra civis, e derrotar o inimigo torna-se a justificativa.

A Trindade de Clausewitz Reinterpretada
A famosa “trindade paradoxal” de Clausewitz explica como uma organização social complexa pode se tornar um lado na guerra. Essa trindade é composta por tendências ou motivações: razão, acaso e emoção, associadas principalmente ao Estado, aos generais e ao povo.

Nas guerras contemporâneas, a distinção entre Estados, militares e população é frequentemente borrada. No entanto, o conceito da trindade como explicação de como tendências sociais e éticas díspares são unidas na guerra permanece relevante. As narrativas políticas das novas guerras ainda unem dispersas redes de grupos paramilitares, forças regulares, criminosos e fanáticos.

Política, Razão e Estado nas Novas Guerras
Clausewitz insistia na primazia da política, afirmando que a guerra é parte do intercâmbio político, sua continuação “com uma mistura de outros meios”. Nas novas guerras, a violência é enquadrada em termos políticos, mas a relação entre política e guerra é invertida: a mobilização em torno de uma narrativa política torna-se o objetivo da guerra.

A Guerra como Empreendimento Mútuo
Kaldor propõe que muitas guerras contemporâneas funcionam como “empreendimentos mútuos”, onde os lados se beneficiam da continuação do conflito. Através da guerra e da violência, os atores armados se transformam de extremistas marginais em intermediários de poder.

Eles se tornam protetores gerando a insegurança da qual as pessoas precisam ser protegidas. As partes em guerra compartilham uma necessidade mútua de justificação.

Benefícios Econômicos dos Conflitos Prolongados
Os conflitos contemporâneos são frequentemente financiados por uma variedade de meios ilícitos. Muitas vezes não está claro se essas atividades servem para financiar a guerra ou se a guerra fornece uma cobertura para realizar essas atividades.

Kaldor questiona, por exemplo, se a guerra no Afeganistão é realmente uma competição de vontades entre o governo Karzai e o Talibã, ou se os senhores da guerra no governo estão colaborando com o Talibã em um empreendimento mútuo lucrativo, baseado em drogas.

Implicações para Operações Internacionais
Se as guerras são vistas como competições de vontades, a abordagem internacional tende a apoiar um lado ou buscar negociações entre as partes. Porém, quando entendidas como empreendimentos mútuos, a estratégia deve ser diferente.

O objetivo deve ser prevenir ou encerrar guerras inconclusivas, tratando-as como ilegítimas. Isso requer fortalecer identidades não sectárias e desenvolver alternativas legítimas de subsistência. A tarefa primária das forças militares internacionais, junto com a polícia e agências civis, não é atacar ou derrotar aqueles que infligem violência, mas criar espaços pacíficos protegendo civis.

Lições de Clausewitz para Missões Internacionais
Apesar das diferenças fundamentais entre a teoria de Clausewitz e as realidades das novas guerras, muitas de suas reflexões práticas permanecem relevantes para operações internacionais em zonas de crise.

Clausewitz afirmava que a característica mais importante de um comandante é a “decisão heroica baseada na razão”. Este princípio pode servir como diretriz para o novo tipo de manutenção da paz robusta, que envolve soldados operando no terreno, às vezes com proteção mínima, arriscando suas vidas para salvar outros e mobilizar pessoas contra a guerra.

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