Estudos Estratégicos- Aula 7

 Grande Estratégia: Conceitos e Aplicações

O conceito de grande estratégia envolve a coordenação de variáveis sociais, econômicas e políticas com os cálculos de poder militar de um país em sua relação com o mundo exterior. Geografia, experiência histórica e cultura são elementos fundamentais nessa equação.

Na concepção clássica do século XX, a grande estratégia representa a conjunção dos recursos nacionais para os objetivos políticos da guerra. Liddell Hart a define como o instrumento maior da política de um Estado, calculando e desenvolvendo recursos humanos e econômicos para sustentar as forças armadas e cultivar recursos morais que mantenham o espírito voluntarioso da população.

Objetivos e Características da Grande Estratégia

O objetivo inicial da grande estratégia é mobilizar a sociedade para sustentar e multiplicar o poder político-militar de um país, tanto em tempos de guerra quanto de paz. Seu planejamento, realizado em alto nível decisório, deve reunir meios e fins que garantam a sobrevivência e a prosperidade nacional.

Desafios na Implementação

Entre os desafios na implementação no Brasil estão a visão de longo prazo, a adaptação constante, a priorização de recursos e a complexidade política.

Interpretações Contemporâneas

Brands define grande estratégia como um conjunto coerente de ideias que guia as ações de um país para cumprir seus objetivos na interação com o mundo. Murray destaca a posição geográfica, a forma de governo, o processo decisório, as lideranças e as alianças militares como elementos fundamentais na formulação estratégica. Existe uma tensão constante entre o planejável e o imprevisível, sendo papel do processo estratégico mediar as duas instâncias e reduzir incertezas.

Contribuições Brasileiras ao Conceito

  • Dimensão Além Militar: Alsina Jr. propõe romper com os dogmas anglo-saxões, incluindo o desenvolvimento como questão estratégica central.

  • Dissuasão Crível: Capacidade de desencorajar agressões à soberania brasileira por terceiros.

  • Complementariedade de Interesses: Amorim afirma serem complementares o interesse nacional brasileiro e sua contribuição para a paz mundial.

  • Alinhamento Diplomacia-Defesa: Política Externa e Defesa devem estar alinhadas na promoção do interesse nacional.

Visão Estratégica para o Brasil

  • Estabilidade Internacional: O Brasil não pode superar seus problemas sociais e econômicos sem eliminar obstáculos externos à sua ascensão. Isso envolve manter a estabilidade do sistema internacional, evitando guerras centrais e reforçando o multilateralismo por meio de instituições como a ONU.

  • Entorno Estratégico: A diplomacia do Barão do Rio Branco foi capaz de resolver contenciosos de fronteira e possibilitar a construção progressiva da paz na América do Sul, semeando as bases para o Mercosul e a Unasul. O Atlântico Sul, envolvendo o continente africano, é parte fundamental do entorno estratégico brasileiro.

  • Poder Brando e Duro: Amorim e Alsina Jr. concordam que diplomacia e defesa são duas faces da mesma moeda. A barganha diplomática deve ser lastreada por poder militar dissuasório, sendo o poder brando (soft power) indissociável da existência habilitadora do poder duro (hard power).

Cultura Estratégica: Evolução e Debates

O termo cultura estratégica foi cunhado por Jack Snyder em 1977, em um relatório para a Rand Corporation. Ele definiu o conceito como um conjunto de atitudes e crenças que guiam o pensamento sobre questões estratégicas, influenciando a formulação dessas questões e articulando o vocabulário e os parâmetros do debate estratégico.

Embora todos os autores que trabalham com o conceito reconheçam o relatório de Snyder como matriz do debate, a concordância termina aí. O conceito é contestado e utilizado de maneira elástica para compreender especificidades nacionais e regionais no campo da segurança e defesa. A falta de consenso é simultaneamente sua maior virtude e fragilidade.

Origens e Contexto Histórico

  1. Guerra Fria

  2. Crítica aos Modelos Matemáticos

  3. Segunda Onda de Estudos

Concebido durante a Guerra Fria, o conceito de cultura estratégica surgiu para contextualizar melhor as atitudes, crenças e padrões de comportamento dos soviéticos em relação ao tema nuclear.

A Primeira Geração de Estudos

A primeira geração de estudos sobre cultura estratégica, segundo Johnston, dedicou-se primordialmente a explicar por que diferentes comunidades nacionais abordavam os assuntos estratégicos e militares de maneira distinta. Afastando-se das premissas da Teoria dos Jogos, esses estudos focavam o pensamento dos governos soviético e estadunidense a respeito da estratégia nuclear.

A Segunda Geração de Estudos

A segunda geração avançou teoricamente ao mostrar a disjunção entre a cultura estratégica (ou discurso simbólico) e o comportamento político. Esses estudos partem da premissa de que há uma enorme diferença entre a política declaratória e os verdadeiros motivos pelos quais os políticos adotam determinadas posturas.

A Terceira Geração e o Construtivismo

A terceira geração, na qual Johnston se inclui, busca maior rigor metodológico e se identifica com o construtivismo convencional. Johnston define cultura estratégica como um conjunto de símbolos que estabelece preferências estratégicas duradouras e formula conceitos sobre o papel da força militar nos assuntos interestatais.

Debate e Críticas ao Conceito

  • Crítica de Colin Gray: Gray critica a decisão de Johnston de isolar a cultura como variável independente. Para ele, a cultura estratégica deve ser entendida como um contexto que dá sentido a variáveis objetivas e a-históricas, sendo impossível separar as macroestruturas da ação dos agentes.

  • Crítica de Neumann e Heikka: Estes autores afirmam que a metáfora das três gerações criada por Johnston acabou por voltar-se contra seu próprio criador. O principal defeito herdado seria a decisão de utilizar metodologia positivista, quando antropólogos e sociólogos já encaram a cultura como fenômeno constitutivo.

  • Retorno de Jack Snyder: Snyder retornou ao debate para se contrapor às análises que exageravam no peso atribuído à autonomia das ideias e da cultura na configuração do comportamento estratégico em ambientes anárquicos, defendendo uma análise que considere a interação entre variáveis materiais, institucionais e culturais.

Etnocentrismo e Estudos Latino-Americanos

  • Etnocentrismo nos Estudos Estratégicos: Todos os termos do debate sobre cultura estratégica foram estabelecidos pela academia estadunidense.

  • Projeto do Comando Sul: Pesquisa sobre a aplicabilidade do conceito para o estudo do comportamento estratégico na América Latina e no Caribe.

  • Estudos Sul-Americanos: Trabalhos sobre cooperação em matéria de segurança e defesa na América do Sul.

Perspectivas Brasileiras e Conclusões

Os estudos estratégicos produzidos por acadêmicos sul-americanos e brasileiros à luz do conceito de cultura estratégica são escassos, recentes e padecem das mesmas limitações verificadas na bibliografia internacional. O debate em torno dos aspectos culturais do pensamento estratégico-militar nutre-se da diversidade e do dissenso.

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