Política Externa Contemporânea- Aula 5
A Política Externa do Brasil em Dois Tempos
O início da década de 1990 marcou o fim da era autonomista na política externa brasileira, representando uma ruptura com o consenso diplomático construído desde 1974. Essa política, até então, baseava-se em uma estrutura burocrática sólida e no apoio das elites políticas e econômicas. Entretanto, o término da Guerra Fria e o aprofundamento do processo de globalização comprometeram a continuidade desse projeto, exigindo uma redefinição das estratégias internacionais do país.
O Projeto Collor
Durante o governo de Fernando Collor de Mello, foram estabelecidas três metas estratégicas centrais: modernizar a agenda internacional do Brasil, adequando-a às novas dinâmicas globais; construir uma agenda positiva com os Estados Unidos, superando divergências históricas; e redefinir o perfil internacional do país, afastando-se da imagem terceiro-mundista que o caracterizava nas décadas anteriores. Entre as principais iniciativas do governo Collor destacam-se a realização da Eco-92, a criação do Mercosul e o avanço na cooperação nuclear.
O dinamismo inicial observado entre 1990 e 1991, impulsionado por políticas liberalizantes e pelo abandono do modelo estatista, deu lugar a uma profunda crise política. A incapacidade de negociar reformas com as elites políticas e econômicas, somada a denúncias de corrupção, culminou no impeachment de Collor em outubro de 1992.
Itamar Franco e a Diplomacia Pós-Collor
Com a posse de Itamar Franco, a política externa brasileira passou a adotar um perfil mais pragmático e menos ideológico. O governo evitou categorizações rígidas e buscou uma atuação pautada na flexibilidade e na moderação, a fim de não criar expectativas exageradas que pudessem gerar críticas ou frustrações.
A diplomacia de Itamar priorizou uma estratégia multilateral centrada em três pilares: o fortalecimento dos valores democráticos no sistema internacional, a proposição de uma agenda para o desenvolvimento complementar à agenda para a paz e o compromisso com o desarmamento, a não proliferação e o controle de armas.
Integração Regional e Parcerias Estratégicas
No primeiro ano de funcionamento do Mercosul, a participação do bloco nas exportações brasileiras era de 4%; em três anos, passou a 14%. Mais de 300 empresas brasileiras estavam operando na Argentina em 1994, marcando o início de um processo de internacionalização das firmas nacionais. Também foi ampliada a integração regional, com a criação da Iniciativa Amazônia e da ALCSA (Área de Livre-Comércio Sul-Americana), reunindo o Mercosul e o Pacto Andino.
Paralelamente, o governo estabeleceu parcerias estratégicas globais com a China (infraestrutura, energia e cooperação espacial), com a Rússia (tecnologias nucleares e aeroespaciais) e com a África do Sul (relançamento da zona de cooperação do Atlântico Sul, com foco em tecnologia e agropecuária).
O governo Itamar logrou ainda desdramatizar o relacionamento Brasil-EUA, mantendo uma postura autônoma e equilibrada. Suspendeu investigações sobre propriedade intelectual, concluiu o Plano Brady com credores privados e adotou posições independentes sobre o Haiti e Cuba, inaugurando uma fase de gestão madura dos conflitos, similar à mantida pelos EUA com aliados como o Japão e a França.
Continuidade e Ajustes Pós-1995
Após 1995, consolidou-se uma política externa pluralista, que passou a incorporar atores da sociedade civil — sindicatos, universidades, empresas e ONGs — no debate sobre o papel internacional do Brasil. Entre os principais objetivos estavam a busca por um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU e o estabelecimento de um equilíbrio estratégico entre as demandas internacionais e as possibilidades nacionais, adaptando-se às oportunidades oferecidas pelo cenário global.
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